Point do garimpo: Centro guarda lugares com produtos cheios de história
Para além da consagrada feira da Praça XV, zona da cidade que volta a fervilhar se consolida como destino de quem busca produtos de segunda mão
A abertura da Casa Capioca e da Tapilogie, há um mês, deixou evidente um movimento que acontece no mundo inteiro: o interesse do público jovem por antiguidades e artigos de segunda mão. As duas lojas ficam no Beco do Bragança, entre a Orla Conde e a Rua da Quitanda, local que vem despontando como point, com novos bares e galerias de arte. Também no Centro da cidade ficam outros endereços já conhecidos de quem gosta de garimpar, como a antiga Fábrica da Bhering, a Rua do Senado e a Praça XV, com sua famosa feira aos sábados.
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Iniciativas como o Reviver Centro e o recém-lançado Circuito de Ateliês, reunindo 34 endereços de arte e design, fazem parte do projeto de levar movimento à região, mas existem razões práticas para que a área seja escolhida tanto por quem quer vender quanto por quem quer comprar: é um território diverso, e os imóveis são mais baratos e espaçosos. Soma-se a isso o fato de que, para os que valorizam o antigo, estar num prédio histórico faz toda a diferença. “Eu precisava de espaço que comportasse a logística de restauro e o envio para todo o Brasil”, diz Marina Caroni, 37, à frente da Capioca, especializada em móveis e itens de decoração vintage. A marca ocupa um sobrado de 400 metros quadrados e dois andares, construído em 1905.
A menos de 100 metros de distância, fica a Tapilogie, de tapetes, empreitada de Mariana Wakim, 36, amiga de faculdade de Marina. As duas começaram seus negócios na pandemia, basicamente no Instagram, oferecendo produtos únicos, bem-cuidados e apresentados com uma linguagem moderna. Marina, da Casa Capioca, pegava objetos em caçambas, comprava em sites como OLX e resgatava peças abandonadas nas calçadas. Em três anos, já vendeu cerca de 3.000 exemplares restaurados. “É um público diverso. Os mais velhos reconhecem o valor de uma madeira antiga, enquanto os jovens vêm pelo hype. Quanto mais second hand, melhor para o mundo”, define.
O estilo modernista é bem procurado pela galera de vinte e poucos anos. A Tapilogie surgiu de uma necessidade da fundadora. “Eu estava montando minha casa, comecei a procurar tapete e percebi que tinha demanda para vender de forma contemporânea, sem parecer o palácio da avó”, conta ela, que foi gerente de produto do Enjoei e já tinha experiência em comunicar as maravilhas dos usados. No terceiro andar do imóvel que ocupa, expõe seus tapetes de forma cenográfica. O Estúdio Tampo, de venda e locação de móveis, na Bhering, Santo Cristo, também se beneficia do amplo espaço para a produção de fotos para as redes sociais. Assim como na Capioca e na Tapilogie, as vendas acontecem por drops, ou seja, em coleções, liberadas mensalmente.
Herdar móveis da família e frequentar leilões e antiquários para decorar a própria casa era algo comum até que a marcenaria sob medida passou a ser considerada “coisa de rico”. Somado a isso, marcas baratas de mobiliário inundaram o mercado, facilitando o acesso a novidades por outras camadas da população; a mão de obra para o restauro ficou escassa; e a capacidade de olhar para uma peça antiga, com marcas de uso, e notar sua beleza se perdeu. A crença de que produtos usados vêm com “energia pesada” também ajudou a cultura do garimpo a cair em desuso.
Sócios do Salão Ará, na Cinelândia, junto a Nathalia Coelho, Amadeu Marins, 33, e Mathias do Valle, 37, riem quando falam da possível aura carregada dos objetos. Entre cortes e tinturas, o trio expõe —e vende — móveis em parceria com a Vintage Brasil e, na Casa Ará, no mesmo espaço, comercializam achados em bazares de igreja, mercados de pulgas e brechós. “É como vender parte da nossa história, então não recebemos qualquer cliente. Tem que ter paquera, olho no olho”, brinca Marins. Durante a ArtRio, a Casa Ará está fechada para abrigar uma residência artística, mas volta em breve. Os amigos adoram explorar os antiquários da Rua do Senado, a Feira do Rolo, aos domingos, na Rua Bela, em São Cristóvão, e demais galpões do bairro da Zona Norte.
Em termos de destino, a Praça XV é, ainda, a referência. A feira de antiguidade semanal é patrimônio cultural e imaterial da cidade há uma década e atrai turistas e garimpeiros em início de carreira. “Vem muita blogueira, gente conhecida”, conta Raphael Barbeito, diretor do evento, provando que o programa está na moda. A geração Z vai em busca de cartas de Pokémon, vinis, câmeras, relógios de pulso e camisetas de times de futebol. Dani Braga, 19 anos, estudante de veterinária, e Nina Santos, 18, estudante de produção cultural, batem ponto por lá. “Tem muita diversidade”, observa Nina, que foi quem apresentou o lugar aos amigos. “Gosto de comprar cartas de Pokémon pessoalmente, porque é mais barato”. Carol Lima, 29, e Thais Oliveira, 34, paulistanas, estavam atrás de discos. “Notei uma curadoria específica para vinis de samba, algo que não encontramos em São Paulo”, avalia Carol.
Cerca de quatrocentos expositores cadastrados contornam o Paço Imperial e, no momento, há fila de espera para ter uma barraca. Um dos novatos é Davi Rezende, que transforma banheiras velhas em sofá, molas de ferro em bancos e placas de trânsito em tampo de mesa. “Eu faço upcycling”, resume o jovem, que tem um ferro-velho com o pai no Jardim América. Ressignificar é a palavra que move a nova geração. E isso o Centro sabe fazer muito bem.
O mapa da mina
Onde encontrar peças cheias de história
Feira de antiguidades da Praça XV
Todo sábado, quatrocentos expositores oferecem de louça a cartas de Pokémon, passando por vinis, roupas, telefones, móveis e telas. Largo do Paço, Centro.
Tapilogie
Negócio comandado por Mariana Wakim é especializado em tapetes. Rua da Candelária, 92, Centro.
Casa Capioca
Móveis são restaurados para manter o máximo de originalidade, sob curadoria de Marina Caroni. Rua Conselheiro Saraiva, 10, Centro.
Ará Casa
Além de renovar o visual pelas mãos de Amadeu Marins e Mathias do Valle, é possível comprar móveis e peças exclusivas encontradas pela dupla. Reabre em breve. Praça Mahatma Gandhi, 2, Cinelândia.
Estúdio Tampo
A empreitada de Flora Reghelin e Natalia Meireles na antiga fábrica da Bhering aposta na curadoria de móveis antigos para venda e aluguel. Rua Orestes, 28, Santo Cristo.







