Point do garimpo: Centro guarda lugares com produtos cheios de história

Para além da consagrada feira da Praça XV, zona da cidade que volta a fervilhar se consolida como destino de quem busca produtos de segunda mão

Por Renata Magalhães 11 set 2026, 11h01 | Atualizado em 11 set 2026, 11h03
Uma variedade de itens antigos e colecionáveis expostos sobre um tecido marrom escuro, incluindo um gravador de fita cassete, binóculos, um estojo de couro, um pequeno carro militar de brinquedo com cruzes vermelhas e pratos decorados
Tem de tudo: aos sábados, a Praça XV fica lotada de gente querendo vender e comprar (Felipe bezerra/Veja Rio)
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A abertura da Casa Capioca e da Tapilogie, há um mês, deixou evidente um movimento que acontece no mundo inteiro: o interesse do público jovem por antiguidades e artigos de segunda mão. As duas lojas ficam no Beco do Bragança, entre a Orla Conde e a Rua da Quitanda, local que vem despontando como point, com novos bares e galerias de arte. Também no Centro da cidade ficam outros endereços já conhecidos de quem gosta de garimpar, como a antiga Fábrica da Bhering, a Rua do Senado e a Praça XV, com sua famosa feira aos sábados.

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Iniciativas como o Reviver Centro e o recém-lançado Circuito de Ateliês, reunindo 34 endereços de arte e design, fazem parte do projeto de levar movimento à região, mas existem razões práticas para que a área seja escolhida tanto por quem quer vender quanto por quem quer comprar: é um território diverso, e os imóveis são mais baratos e espaçosos. Soma-se a isso o fato de que, para os que valorizam o antigo, estar num prédio histórico faz toda a diferença. “Eu precisava de espaço que comportasse a logística de restauro e o envio para todo o Brasil”, diz Marina Caroni, 37, à frente da Capioca, especializada em móveis e itens de decoração vintage. A marca ocupa um sobrado de 400 metros quadrados e dois andares, construído em 1905.

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Casa Capioca: loja em sobrado do Centro é especializada em móveis e itens de decoração vintage (instagram @casacapioca/Reprodução)
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A menos de 100 metros de distância, fica a Tapilogie, de tapetes, empreitada de Mariana Wakim, 36, amiga de faculdade de Marina. As duas começaram seus negócios na pandemia, basicamente no Instagram, oferecendo produtos únicos, bem-cuidados e apresentados com uma linguagem moderna. Marina, da Casa Capioca, pegava objetos em caçambas, comprava em sites como OLX e resgatava peças abandonadas nas calçadas. Em três anos, já vendeu cerca de 3.000 exemplares restaurados. “É um público diverso. Os mais velhos reconhecem o valor de uma madeira antiga, enquanto os jovens vêm pelo hype. Quanto mais second hand, melhor para o mundo”, define.

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Tapilogie: Mariana Wakim é sócia da empreitada que vende tapetes restaurados (Leila Viegas/Divulgação)
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O estilo modernista é bem procurado pela galera de vinte e poucos anos. A Tapilogie surgiu de uma necessidade da fundadora. “Eu estava montando minha casa, comecei a procurar tapete e percebi que tinha demanda para vender de forma contemporânea, sem parecer o palácio da avó”, conta ela, que foi gerente de produto do Enjoei e já tinha experiência em comunicar as maravilhas dos usados. No terceiro andar do imóvel que ocupa, expõe seus tapetes de forma cenográfica. O Estúdio Tampo, de venda e locação de móveis, na Bhering, Santo Cristo, também se beneficia do amplo espaço para a produção de fotos para as redes sociais. Assim como na Capioca e na Tapilogie, as vendas acontecem por drops, ou seja, em coleções, liberadas mensalmente.

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Herdar móveis da família e frequentar leilões e antiquários para decorar a própria casa era algo comum até que a marcenaria sob medida passou a ser considerada “coisa de rico”. Somado a isso, marcas baratas de mobiliário inundaram o mercado, facilitando o acesso a novidades por outras camadas da população; a mão de obra para o restauro ficou escassa; e a capacidade de olhar para uma peça antiga, com marcas de uso, e notar sua beleza se perdeu. A crença de que produtos usados vêm com “energia pesada” também ajudou a cultura do garimpo a cair em desuso.

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Salão Ará: Amadeu Marins e Mathias do Valle, sócios, vendem móveis em parceria com a Vintage Brasil (instagram @aracasario/Veja Rio)
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Sócios do Salão Ará, na Cinelândia, junto a Nathalia Coelho, Amadeu Marins, 33, e Mathias do Valle, 37, riem quando falam da possível aura carregada dos objetos. Entre cortes e tinturas, o trio expõe —e vende — móveis em parceria com a Vintage Brasil e, na Casa Ará, no mesmo espaço, comercializam achados em bazares de igreja, mercados de pulgas e brechós. “É como vender parte da nossa história, então não recebemos qualquer cliente. Tem que ter paquera, olho no olho”, brinca Marins.
Durante a ArtRio, a Casa Ará está fechada para abrigar uma residência artística, mas volta em breve. Os amigos adoram explorar os antiquários da Rua do Senado, a Feira do Rolo, aos domingos, na Rua Bela, em São Cristóvão, e demais galpões do bairro da Zona Norte.

Duas jovens sorridentes posam em uma feira. A da esquerda usa boné preto com smiley, camiseta de anime e shorts jeans, fazendo sinal de paz. A da direita, com cabelo rosa e óculos, veste boné azul, camiseta branca com desenho e segura uma ecobag
Amigas: Nina Santos (à esq.) e Dani Braga são frequentadoras assíduas da feira da Praça XV (Felipe Bezerra/Veja Rio)
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Em termos de destino, a Praça XV é, ainda, a referência. A feira de antiguidade semanal é patrimônio cultural e imaterial da cidade há uma década e atrai turistas e garimpeiros em início de carreira. “Vem muita blogueira, gente conhecida”, conta Raphael Barbeito, diretor do evento, provando que o programa está na moda. A geração Z vai em busca de cartas de Pokémon, vinis, câmeras, relógios de pulso e camisetas de times de futebol. Dani Braga, 19 anos, estudante de veterinária, e Nina Santos, 18, estudante de produção cultural, batem ponto por lá. “Tem muita diversidade”, observa Nina, que foi quem apresentou o lugar aos amigos. “Gosto de comprar cartas de Pokémon pessoalmente, porque é mais barato”.
Carol Lima, 29, e Thais Oliveira, 34, paulistanas, estavam atrás de discos. “Notei uma curadoria específica para vinis de samba, algo que não encontramos em São Paulo”, avalia Carol.

Homem branco de camiseta azul e calça jeans, sorrindo, sentado em um banco de madeira em uma feira de rua com móveis e objetos de decoração, sob um guarda-sol vermelho, com pessoas e carros amarelos ao fundo
Davi Rezende: artista transforma banheiras velhas em sofá e molas de ferro em bancos (Felipe Bezerra/Veja Rio)

Cerca de quatrocentos expositores cadastrados contornam o Paço Imperial e, no momento, há fila de espera para ter uma barraca. Um dos novatos é Davi Rezende, que transforma banheiras velhas em sofá, molas de ferro em bancos e placas de trânsito em tampo de mesa. “Eu faço upcycling”, resume o jovem, que tem um ferro-velho com o pai no Jardim América. Ressignificar é a palavra que move a nova geração. E isso o Centro sabe fazer muito bem. 

O mapa da mina 

Onde encontrar peças cheias de história 

Feira de antiguidades da Praça XV 

Todo sábado, quatrocentos expositores oferecem de louça a cartas de Pokémon, passando por vinis, roupas, telefones, móveis e telas. Largo do Paço, Centro. 

Tapilogie 

Negócio comandado por Mariana Wakim é especializado em tapetes. Rua da Candelária, 92, Centro. 

Casa Capioca 

Móveis são restaurados para manter o máximo de originalidade, sob curadoria de Marina Caroni. Rua Conselheiro Saraiva, 10, Centro. 

Ará Casa 

Além de renovar o visual pelas mãos de Amadeu Marins e Mathias do Valle, é possível comprar móveis e peças exclusivas encontradas pela dupla. Reabre em breve. Praça Mahatma Gandhi, 2, Cinelândia. 

Estúdio Tampo 

A empreitada de Flora Reghelin e Natalia Meireles na antiga fábrica da Bhering aposta na curadoria de móveis antigos para venda e aluguel. Rua Orestes, 28, Santo Cristo. 

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