Trinta anos após sair de linha, os Fuscas estão nas ruas e são queridinhos

Colecionadores cariocas preservam não só os carros, mas suas histórias

Por Alessandra Carneiro 16 out 2026, 06h01
Mulher sorridente de blusa branca e calça jeans, apoiada em um Fusca laranja, ao lado de outros quatro Fuscas de cores diferentes, estacionados em fila em um piso de paralelepípedos, com folhagens verdes ao fundo
A nutricionista Thais Araujo tem sete Fuscas na coleção: todos guardam histórias, como o primeiro que ganhou, que veio com fotos dos antigos donos (Dani Dacorso/Veja Rio)
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Na garagem da nutricionista Thais Araújo, um Fusca azul de 1964 guarda mais do que peças originais.

Vieram com ele uma carta e fotografias do enlace de um casal que tinha o carro como xodó. Depois da morte do marido, a viúva decidiu vendê-lo a alguém que valorizasse sua história. Thais ganhou o automóvel de presente da mulher, a empresária Maria Geyer, há dez anos e a partir daí iniciou uma coleção.

A nutricionista Thais Araujo (à dir. acima) tem sete Fuscas na coleção: todos guardam histórias, como o primeiro que gan
Fusca com história: o primeiro carro da coleção de Thais Araújo veio com fotos e mensagens dos antigos donos (Dani Dacorso/Divulgação)

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“O Fusca virou uma cachaça na minha vida”, admite a nutricionista.

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Uma década depois, já são sete, e todos têm um passado interessante: um foi vendido para custear os estudos no exterior do filho de um restaurador; outro, escondido de um neto apaixonado, porque o avô perdera a garagem e não queria deixá-lo ao relento.

O vermelho apareceu no filme Meu Nome Não É Johnny (2008) e na série Dom (2021).

Entre histórias de família, despedidas e reencontros, o Fusca segue despertando afetos quatro décadas após a primeira interrupção da produção brasileira. O modelo, que voltou às fábricas entre 1993 e 1996, ainda mobiliza colecionadores.

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O Detran registra 6 191 Fuscas licenciados na cidade e 22 036 no estado. Gustavo Tostes, presidente do Veteran Car Club do Rio, vê nessa longevidade um elo entre gerações. “Não é só um carro. É o Fusca, praticamente um membro da família. Meu pai teve um e eu também”, enfatiza.

Quem foi ao Doce Maravilha, em agosto, no Jockey, certamente notou um modelo estacionado ali.

Mas o carro vai muito além da decoração, e fez parte da concepção do festival de música. O empresário Luiz Guilherme Niemeyer, sócio da Bonus Track, produtora do evento, foi com o seu possante vermelho, de 1970, a uma das primeiras reuniões na casa do curador Nelson Motta.

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“Fiquei preocupado porque era um dia muito quente e não tinha ar-condicionado. Mas o Nelsinho adorou”, lembra. O passeio rendeu uma foto dos dois e a ideia de transformar o automóvel em cenário de conversas, inclusive com artistas do line-up no banco de trás.

Dois fuscas, um vermelho decorado com doces e o letreiro Doce Maravilha em um fundo colorido, e um roxo com três pessoas sorrindo ao lado, em um ambiente urbano
Mascote do Doce Maravilha: o empresário Luiz Guilherme Niemeyer integrou seu modelo de 1970 (à esq.) à comunicação do festival, gravando vídeos com o curador, Nelson Motta, e artistas como Letrux (./Divulgação)

Longe dos palcos, o Furreco, um standard 1974 bege alabastro, realiza outro tipo de sonho. O músico Fernando Amaral comprou o modelo na pandemia, inspirado pelo carinho que guardava do Fusca do pai. Desde então, saiu do casamento religioso e fez viagens para destinos como Tiradentes, em Minas, e Aparecida, em São Paulo, a bordo dele. “Carro parado não conta história”, acredita.

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Um casal recém-casado sorri para a câmera ao lado de um Fusca bege. O noivo, de terno cinza, apoia o pé no para-choque traseiro. A noiva, de vestido branco rendado e véu, segura um buquê. No vidro traseiro do carro, lê-se RECÉM-CASADOS e na placa 16-09-2023. Rolos de papel higiênico estão amarrados ao para-choque, e balões vermelhos em formato de coração flutuam acima do carro. O cenário noturno é iluminado por luzes quentes de árvores ao fundo
Placa preta: o músico Fernando Amaral conseguiu emitir o certificado do Furreco, de 1974, porque grande parte das características foi preservada (Jannu Photo/Divulgação)

Thais buscava a filha na escola alternando as cores dos exemplares, mas o receio de furtos de peças, porém, acabou reduzindo os passeios. Neste ano, a coleção integrou a decoração do arraiá em sua casa, no Jardim Botânico, com flores saindo das janelas.

Manter essa paixão pede paciência com oficinas e mecânicos.

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Thaís recomenda comprar um carro com boa estrutura, levar alguém que entenda para avaliar e restaurá-lo aos poucos. “Exige dedicação”, afirma.

Ela está se filiando ao Veteran para buscar a placa preta, identificação de veículo de coleção. O carro deve ter pelo menos trinta anos e preservar ao menos 80% de suas características de fabricação, e o processo passa por avaliação de uma entidade credenciada, emissão de certificado e regularização no Detran.

O Furreco de Fernando, por exemplo, conquistou 97 pontos dos cem possíveis. Nos clubes, o cuidado com as máquinas se mistura à convivência entre os donos: há troca de dicas, passeios, exposições, palestras e ralis, provas em que vale cumprir o percurso nos tempos previstos.

Segundo Tostes, dezenas de grupos no Rio se dedicam ao modelo e seus derivados. No VW Clube, os Fuscas representam 40% dos veículos dos associados, que se encontram a cada três meses. No Veteran, fundado em 1968, os Fuscas só passaram a aparecer como peças de coleção nos anos 1980.

Os apaixonados preservam não só os carros, mas os laços e as lembranças herdadas de outros tempos. Afinal, cada Fusca tem seu passado. E muita estrada pela frente.

Besouros inesquecíveis

Os modelos que marcaram época

1959 A chegada ao Brasil. Os primeiros modelos nacionais foram equipados com motor 1 200 e têm valor histórico por inaugurar a trajetória do carismático carrinho por aqui.

1960 A década das joaninhas. Usado pelas polícias Civil e Militar até meados dos anos 1980, o Fusca vestiu farda e também era chamado de “baratinha”.

1970 O predomínio do Fuscão. O motor 1 500 trouxe mais força, enquanto o acabamento ganhou caprichos, como o painel imitando jacarandá.

1974 O modelo envenenado. A versão 1600-S, também chamada de Super-Fuscão, mostrou o lado esportivo do carismático possante: dupla carburação e volante de três raios.

1986 A reta final. O lote da primeira despedida teve 850 unidades numeradas. Entre as lembranças aos compradores estavam uma chave-reserva dourada e um certificado.

1993 a 1996 um respiro no governo Itamar Franco. O automóvel voltou à produção a pedido do então presidente. A despedida definitiva veio com a Série Ouro, em 1996, identificada por detalhes como faróis auxiliares e lanternas escurecidas.

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