Trinta anos após sair de linha, os Fuscas estão nas ruas e são queridinhos
Colecionadores cariocas preservam não só os carros, mas suas histórias
Na garagem da nutricionista Thais Araújo, um Fusca azul de 1964 guarda mais do que peças originais.
Vieram com ele uma carta e fotografias do enlace de um casal que tinha o carro como xodó. Depois da morte do marido, a viúva decidiu vendê-lo a alguém que valorizasse sua história. Thais ganhou o automóvel de presente da mulher, a empresária Maria Geyer, há dez anos e a partir daí iniciou uma coleção.
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“O Fusca virou uma cachaça na minha vida”, admite a nutricionista.
Uma década depois, já são sete, e todos têm um passado interessante: um foi vendido para custear os estudos no exterior do filho de um restaurador; outro, escondido de um neto apaixonado, porque o avô perdera a garagem e não queria deixá-lo ao relento.
O vermelho apareceu no filme Meu Nome Não É Johnny (2008) e na série Dom (2021).
Entre histórias de família, despedidas e reencontros, o Fusca segue despertando afetos quatro décadas após a primeira interrupção da produção brasileira. O modelo, que voltou às fábricas entre 1993 e 1996, ainda mobiliza colecionadores.
O Detran registra 6 191 Fuscas licenciados na cidade e 22 036 no estado. Gustavo Tostes, presidente do Veteran Car Club do Rio, vê nessa longevidade um elo entre gerações. “Não é só um carro. É o Fusca, praticamente um membro da família. Meu pai teve um e eu também”, enfatiza.
Quem foi ao Doce Maravilha, em agosto, no Jockey, certamente notou um modelo estacionado ali.
Mas o carro vai muito além da decoração, e fez parte da concepção do festival de música. O empresário Luiz Guilherme Niemeyer, sócio da Bonus Track, produtora do evento, foi com o seu possante vermelho, de 1970, a uma das primeiras reuniões na casa do curador Nelson Motta.
“Fiquei preocupado porque era um dia muito quente e não tinha ar-condicionado. Mas o Nelsinho adorou”, lembra. O passeio rendeu uma foto dos dois e a ideia de transformar o automóvel em cenário de conversas, inclusive com artistas do line-up no banco de trás.
Longe dos palcos, o Furreco, um standard 1974 bege alabastro, realiza outro tipo de sonho. O músico Fernando Amaral comprou o modelo na pandemia, inspirado pelo carinho que guardava do Fusca do pai. Desde então, saiu do casamento religioso e fez viagens para destinos como Tiradentes, em Minas, e Aparecida, em São Paulo, a bordo dele. “Carro parado não conta história”, acredita.
Thais buscava a filha na escola alternando as cores dos exemplares, mas o receio de furtos de peças, porém, acabou reduzindo os passeios. Neste ano, a coleção integrou a decoração do arraiá em sua casa, no Jardim Botânico, com flores saindo das janelas.
Manter essa paixão pede paciência com oficinas e mecânicos.
Thaís recomenda comprar um carro com boa estrutura, levar alguém que entenda para avaliar e restaurá-lo aos poucos. “Exige dedicação”, afirma.
Ela está se filiando ao Veteran para buscar a placa preta, identificação de veículo de coleção. O carro deve ter pelo menos trinta anos e preservar ao menos 80% de suas características de fabricação, e o processo passa por avaliação de uma entidade credenciada, emissão de certificado e regularização no Detran.
O Furreco de Fernando, por exemplo, conquistou 97 pontos dos cem possíveis. Nos clubes, o cuidado com as máquinas se mistura à convivência entre os donos: há troca de dicas, passeios, exposições, palestras e ralis, provas em que vale cumprir o percurso nos tempos previstos.
Segundo Tostes, dezenas de grupos no Rio se dedicam ao modelo e seus derivados. No VW Clube, os Fuscas representam 40% dos veículos dos associados, que se encontram a cada três meses. No Veteran, fundado em 1968, os Fuscas só passaram a aparecer como peças de coleção nos anos 1980.
Os apaixonados preservam não só os carros, mas os laços e as lembranças herdadas de outros tempos. Afinal, cada Fusca tem seu passado. E muita estrada pela frente.
Besouros inesquecíveis
Os modelos que marcaram época
1959 A chegada ao Brasil. Os primeiros modelos nacionais foram equipados com motor 1 200 e têm valor histórico por inaugurar a trajetória do carismático carrinho por aqui.
1960 A década das joaninhas. Usado pelas polícias Civil e Militar até meados dos anos 1980, o Fusca vestiu farda e também era chamado de “baratinha”.
1970 O predomínio do Fuscão. O motor 1 500 trouxe mais força, enquanto o acabamento ganhou caprichos, como o painel imitando jacarandá.
1974 O modelo envenenado. A versão 1600-S, também chamada de Super-Fuscão, mostrou o lado esportivo do carismático possante: dupla carburação e volante de três raios.
1986 A reta final. O lote da primeira despedida teve 850 unidades numeradas. Entre as lembranças aos compradores estavam uma chave-reserva dourada e um certificado.
1993 a 1996 um respiro no governo Itamar Franco. O automóvel voltou à produção a pedido do então presidente. A despedida definitiva veio com a Série Ouro, em 1996, identificada por detalhes como faróis auxiliares e lanternas escurecidas.







