Fugindo pelo alto: o que explica o aumento de helicópteros no estado
Impulsionados pelo trânsito, pelo turismo e pela indústria do petróleo, os voos crescem no Rio e antecipam uma nova era da mobilidade aérea
O trânsito é um dos principais problemas crônicos do Rio. Nos horários de pico, um simples trajeto de 7 quilômetros pode se tornar uma cansativa viagem de uma hora.
Em meio ao estresse que pode ser a volta para casa após um longo dia de trabalho, o desejo de muitos é ultrapassar os carros pelos ares. Essa cena já está longe de parecer desenho animado futurista e tem se tornado realidade para uma parcela privilegiada de fluminenses e visitantes.
Com custo médio de 3 000 reais, os voos de helicóptero saltaram 18% no estado nos últimos dois anos.
“No primeiro momento, o empresário olha o helicóptero como luxo, mas ao perceber o quanto ganha de tempo de deslocamento e conforto enxerga o benefício”, explica Marcelo Maturano, piloto e sócio da vinícola Maturano, em Teresópolis.
Mesmo com uma frota menor do que a de São Paulo — são 319 aeronaves registradas por essas bandas em comparação a mais de quatrocentas no estado vizinho —, o Rio é campeão quando o assunto é movimento.
“O crescimento da aviação é diretamente proporcional ao desenvolvimento da economia”, define o major-brigadeiro Luiz Ricardo de Souza Nascimento, piloto e diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) de 2022 a março deste ano.
Enquanto em São Paulo o transporte executivo responde pelo maior número de viagens, no Rio, o turismo e as plataformas marítimas da indústria petroleira, o chamado offshore, explicam o crescimento.
Divulgado pela Firjan, o Anuário do Petróleo no Rio 2026 revelou que o número de trabalhadores diretos e indiretos da atividade deve subir 2,5% em relação ao último ano, totalizando mais de 96 000 empregos gerados.
“Em toda a costa, a gente tem os portos e bases de atendimento offshore. Inevitavelmente, o estado é o principal hub”, crava Paulo Takito, sóciodiretor da empresa de consultoria Urban Systems, que trabalhou no mapeamento de mercado do Aeroporto de Jacarepaguá.
Fora isso, nos primeiros quatro meses do ano, o volume de turistas estrangeiros no Rio ultrapassou 1 milhão de visitantes e superou em 18% o fluxo do mesmo período em 2025. O resultado reflete na demanda por voos panorâmicos.
“Praticamente triplicamos de tamanho entre 2023 e 2025. Isso mostra que os passeios deixaram de ser algo pontual e viraram parte do repertório dos visitantes”, revela Pedro Filipe Gonçalves, CEO da Vertical Rio, criada em 2017 com o intuito de expandir as experiências aéreas na capital.
O público é formado majoritariamente por estrangeiros em busca de um passeio inesquecível, exclusivo e personalizado. Esse fenômeno se repete nos municípios que cercam a capital.
Se uma viagem de carro para Angra dos Reis pode levar até três horas, os voos de helicóptero reduzem o tempo a quarenta ou cinquenta minutos.
Na Serra, condomínios de alto luxo vêm incluindo helipontos com direito a veículos à disposição dos moradores — caso do Oni Araras, em Petrópolis.
“Sou piloto desde 2008 e a construção de um heliponto para vinícola surgiu por uma necessidade individual, mas acabou auxiliando muito a nossa ligação com as capitais do Sudeste”, conta Marcelo Maturano.
A tendência é que o mercado continue ascendendo, mas num ritmo mais lento.
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“Não podemos nos esquecer de que este crescimento veio após pandemia. Para 2026, as previsões de aumento são menores e mais adequadas ao tamanho do PIB brasileiro”, ressalta o major-brigadeiro Nascimento.
Por outro lado, a chegada iminente dos eVTOLS, carros elétricos voadores com uma tecnologia próxima a de um drone, apontam para uma revolução no setor. A Embraer, inclusive, já tem produção prevista com fila de espera de compradores.
“O custo operacional do voo vai cair bastante. Ou seja, muito mais pessoas vão utilizar o serviço”, celebra Paulo Takito.
Seja pela beleza, pelos desafios de mobilidade ou pela força do mercado de óleo e gás, os céus do Rio demonstram vocação natural para o transporte.
No entanto, é preciso que o crescimento seja responsável, acompanhado de segurança operacional. O acidente que matou o cantor americano Oliver Tree, no mês passado, ainda está sendo apurado, mas precisa ser uma exceção.
Hélices em movimento
Números mostram a força deste mercado no estado
215 000 voos realizados em 2025
18% de crescimento no movimento nos ares em dois anos
319 helicópteros na frota fluminense
29% de aumento de aeronaves no estado nos últimos três anos
42 000 pousos e decolagens só no aeroporto de Jacarepaguá entre janeiro e maio deste ano





