Flip 2026: quem é Orides Fontela, a poeta homenageada nesta edição

Paulista é a autora de "Alba", vencedor do Jabuti em 1983, e "Teia", que lhe rendeu o prêmio APCA em 1996

Por Elisa Torres 8 jul 2026, 14h14 | Atualizado em 9 jul 2026, 10h52
Mulher de óculos, cabelos escuros e curtos, sentada em uma cadeira de madeira em um café ao ar livre, com a mão direita sobre a mesa. Ela veste um suéter claro e um colete estampado, olhando para baixo com expressão pensativa. Ao fundo, carros e outras mesas vazias, em preto e branco
Orides Fontela: poeta paulista será a grande homenageada da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty  (Fritz Nagib/Divulgação)
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A poeta paulista Orides Fontela (1940-1998) é a autora homenageada da 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre os dias 22 e 26 de julho. Dona de uma obra marcada pela concisão, pelo rigor formal e pela reflexão filosófica, Orides é considerada uma das vozes mais originais da poesia brasileira do século XX, embora permaneça menos conhecida do grande público do que outros nomes de sua geração. “Homenagear Orides Fontela é reconhecer sua referência incontornável no cenário da poesia contemporânea brasileira. Ela é uma das mais importantes poetas brasileiras do século XX e, mesmo com a importância de sua obra, segue pouco conhecida”, afirma Rita Palmeira, a curadora literária da Flip.

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Autora de versos curtos e despojados de ornamentos, Orides recebeu desde cedo reconhecimento da crítica literária, que via em sua produção uma renovação da tradição modernista brasileira. Sua poesia dialoga com temas como existência, silêncio, natureza e linguagem, combinando densidade conceitual e uma escrita de grande economia verbal.

Nascida em 1940, em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo, Orides concluiu o curso normal e tornou-se professora. Educada pela mãe, começou a escrever ainda na infância e publicou seus primeiros poemas no jornal da cidade. Foi nesse período que chamou a atenção do então jovem crítico Davi Arrigucci Jr., um antigo colega de escola, que apresentou sua produção literária a professores e intelectuais da Universidade de São Paulo (USP). Graças a esse reconhecimento precoce, seu livro de estreia, Transposição (1969), chegou ao público já cercado de elogios da crítica. Mais tarde, Orides formou-se em Filosofia pela USP, em 1972, formação que deixou marcas profundas em sua obra. Além das leituras filosóficas, o contato com o zen-budismo e a vida no interior ajudaram a moldar seu universo artístico, povoado por imagens recorrentes da natureza, como pássaros, flores, rios e árvores.

Mulher de meia-idade, cabelos curtos e óculos redondos, sorri levemente para a câmera. Veste suéter de gola alta e alças escuras. Ao fundo, árvores desfocadas.
Orides foi reconhecida por nomes como Antonio Candido, Décio Almeida Prado e José Miguel Wisnik (Fritz Nagib/Divulgação)
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Depois de Transposição, publicou Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Alba conquistou o Prêmio Jabuti de Poesia, em 1983, enquanto Teia recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), em 1996. Ao longo da carreira, sua obra foi elogiada por nomes como Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Alcides Villaça, Augusto Massi e José Miguel Wisnik. Embora esse reconhecimento tenha lhe garantido momentos de maior visibilidade, foi apenas nos últimos anos que sua poesia passou a conquistar um público mais amplo, impulsionada por novas edições e pelo interesse renovado na produção de poetas brasileiras.

Apesar do prestígio entre críticos e escritores, Orides viveu grande parte da vida em condições financeiras precárias, enfrentando também períodos de depressão e isolamento. Morreu em 1998, aos 58 anos. Em 2007, recebeu postumamente a Ordem do Mérito Cultural, na categoria Grã-Cruz.

Silhueta de uma pessoa de costas, olhando pela janela aberta de um cômodo escuro e abandonado. A luz forte da janela contrasta com o ambiente sombrio, com paredes sujas e chão coberto de detritos
“Orides, onde ninguém mais”: documentário sobre a vida e a obra da poeta foi lançado em 2018 (./Divulgação)
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A trajetória da poeta também foi retratada no documentário Orides, onde ninguém mais, lançado em 2018 pela Centro Universitário das Faculdades Associadas de Ensino (Unifae),  instituição de São João da Boa Vista, por ocasião dos 20 anos de sua morte. Com roteiro, direção e montagem do cineasta David Ribeiro, o longa reúne depoimentos de familiares, amigos, pesquisadores e pessoas que conviveram com a escritora para reconstruir sua vida e sua obra. A produção percorre os lugares onde Orides viveu, recupera documentos e fotografias, apresenta dramatizações inspiradas em sua trajetória e traz ainda seus últimos poemas, reforçando o interesse em preservar a memória de uma autora cuja importância literária por muito tempo superou seu reconhecimento junto ao grande público.

Segundo Rita Palmeira, a escolha  da homenageada também dialoga com o momento atual da poesia brasileira, que vive um período de expansão editorial e de fortalecimento da presença feminina. “O atual panorama vem se incrementando, com a multiplicação de publicações, casas editoriais e eventos ligados a esse gênero. Esse momento conta com uma presença feminina importante – entre os autores vivos de poesia mais lidos no Brasil, estão, sem dúvida alguma, poetas mulheres, como Ana Martins Marques, Marília Garcia e Mar Becker”, diz.

A curadora destaca ainda que a homenagem representa uma oportunidade de recolocar a autora no centro do debate literário. “Há uma oportunidade de colocar em destaque a obra de Orides, sempre ofuscada por sua precariedade material e sua instabilidade emocional, conjunto que costuma cobrar um preço mais caro quando associado a mulheres do que a homens.”

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Depois de celebrar Paulo Leminski na edição anterior, a Flip volta a destacar uma poeta cuja obra segue inspirando novas gerações de escritores e leitores. A homenagem será acompanhada pelo relançamento de parte da obra da poeta pela Editora Hedra, iniciativa que pretende aproximar novos leitores de uma autora cuja influência permanece decisiva para a poesia brasileira contemporânea. 

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