Proibidos desde 1998, balões são a principal causa de incêndios no Rio

Tratada por muitos como manifestação cultural típica dos festejos juninos, prática mobiliza autoridades e causa diversos prejuízos

Por Lucas Vieira 15 Maio 2026, 06h04 | Atualizado em 15 Maio 2026, 09h55
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Até na Baía de Guanabara: agentes da Secretaria de Estado do Ambiente e Sustentabilidade, Polícia Civil e Polícia Militar conseguiram resgatar dois artefatos do ecossistema e quinze pessoas foram presas  (Fabiano Veneza Secretaria do Ambiente e Sustentabilidade/Divulgação)
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Era manhã de 26 de abril, um domingo, quando brigadistas do ICMBio, bombeiros do 1º Grupamento de Socorro Florestal e Meio Ambiente e voluntários chegaram ao Morro do Anhanguera, no Parque Nacional da Tijuca.

Esbarraram com uma cena que não se via ali há duas décadas: um incêndio de grandes proporções. O combate às chamas desafiou os profissionais e só terminou na tarde do dia seguinte, após mais de trinta horas de trabalho pesado.

O estrago foi devastador: cerca de 24 000 metros quadrados consumidos, área superior a três campos de futebol. Segundo Bruno Lintomen, coordenador da Brigada do parque e analista ambiental, a recuperação natural do lugar pode levar ao menos uma década.

“Perdemos eucaliptos plantados no século XIX, além de um terreno cujo reflorestamento começou há quase vinte anos. Um longo trabalho de regeneração foi comprometido em poucas horas”, lamenta ele.

A tragédia não teve nada de acidental: tudo começou após a queda de um balão, prática associada à cultura popular, mas considerada crime ambiental no Brasil há exatos 28 anos. 

Catástrofe no Parque Nacional da Tijuca: o brigadista Bruno Lintomen, do ICMBio, afirma que a área devastada por um incêndio causado pela queda de um balão em abril levará dez anos para se recuperar+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui

O episódio, infelizmente, está longe de ser caso isolado. Ao contrário: configura um perigoso fenômeno, sobretudo nesta época do ano, em que os festejos juninos se aproximam.

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E o Rio já acumula casos que envolvem incêndios e põem vidas em risco. Umas semanas atrás, um vídeo que circulou nas redes mostrou pessoas equipadas com pedaços de bambu, a bordo de embarcações, competindo para resgatar um balão que havia caído na Baía de Guanabara, bem perto de um navio.

Em 25 de abril, logo depois do feriado de São Jorge, celebrado com a trágica homenagem, houve correria no Posto 5, na Praia de Copacabana, onde baloeiros tentaram retirar da água um exemplar volumoso.

A Polícia Militar foi acionada e o recolheu. Dois dias antes, um balão despencou em cima de uma casa em Parada de Lucas, Zona Norte, e o morador agiu sozinho para apagar as chamas que atingiram um aparelho de ar condicionado.

No último domingo (10), Dia das Mães, sete artefatos foram recuperados em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, e outro em Maricá, na Região Metropolitana.

De acordo com o Disque Denúncia, um balão foi apreendido no estado a cada dois dias no ano passado — um salto de 81% em relação a 2024 — , e a previsão é de que o número siga crescendo. 

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Catástrofe no Parque Nacional da Tijuca: o brigadista Bruno Lintomen, do ICMBio, afirma que a área devastada por um incêndio causado pela queda de um balão em abril levará dez anos para se recuperar (Marcus Carmos/icmbio/Divulgação)
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(Joao Berredo/Divulgação)
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(./TV Globo)
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Não é só nas festas juninas: no feriado de São Jorge uma fábrica clandestina foi fechada em São João de Meriti (acima) e houve ocorrências na Praia de Copacabana  e em Parada de Lucas, onde um balão acabou caindo em cima de um aparelho de ar condicionado de uma residência (./Reprodução)

Em 1998, a Lei nº 9.605 passou a considerar a atividade um crime ambiental, com pena prevista de até três anos de prisão e multa a partir de 10 000 reais. Mas os riscos ultrapassam, e muito, os incêndios florestais.

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O espaço aéreo fica ameaçado e, quando um balão tomba em vias movimentadas, trilhos de trem e metrô, ou em redes de energia, transtornos diversos são gerados.

No rol das práticas criminosas estão incluídas estocagem irregular de material explosivo e até apologia ao tráfico e milícia contida em dizeres cravados nos balões.

Vídeos na internet mostram detalhes da confecção e até solturas. A maioria dos comentários é elogiosa. Para as autoridades, porém, não cabe romantização: trata-se de uma atividade ilícita, potencialmente letal e associada a outros delitos.

Desde 2023, a Delegacia de Proteção ao Meio Ambiente mobiliza uma equipe para tentar frear a brincadeira, tantas vezes sem graça nenhuma. Consultado sobre a atuação recente, o órgão respondeu em nota que “as investigações contam com monitoramento de redes sociais e trabalho de inteligência para identificar grupos envolvidos na produção e na soltura. Nos últimos meses, operações policiais resultaram na apreensão de balões de grande porte, materiais inflamáveis e equipamentos utilizados na fabricação clandestina, além da prisão de criminosos.” 

Papel de seda, cola, madeira, linhas de náilon, arame, parafina e querosene — essas são algumas das matérias-primas empregadas na linha de montagem.

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Os fogos de artifício costumam ser pendurados na estrutura e programados para explodir no ar. O custo de produção de um modelo de 20 metros de altura pode chegar a 16 000 reais. Há registros de balões de até 100 metros, que levam um ano para ficarem prontos —  já os menores consomem, em média, um mês.

Depois desse ritual, vem o momento de soltá-los, seguido da tentativa de recuperação das peças, para lançá-las novamente aos céus ou revendê-las. É nessa hora que o espetáculo clandestino frequentemente se transforma em cenário de violência e desordem.

Em 2020, marginais trocaram tiros com a polícia após uma queda nas dependências do aeroporto internacional. Em 19 de abril, uma casa de festas em Bento Ribeiro foi invadida por uma quadrilha que causou danos estimados em 8 000 reais para os proprietários.

“O resgate do balão causa muita confusão e até conflitos internos, porque certos baloeiros são contra essas atitudes de destruição de bens e invasão de imóveis, por causa da exposição”, conta a cientista social Erika Santos, especialista na cultura dos balões. “Essas pessoas que causam desordem são apelidadas, de forma pejorativa, de índios”, explica ela, esclarecendo que há todo um jargão da turma que faz girar as engrenagens clandestinas dessa indústria. 

Nos aeroportos cariocas, a vigilância precisou ser intensificada em meio à escalada dos balões cruzando os céus nos últimos tempos. Sem nenhum controle de trajetória, eles podem aparecer em meio à rota de aeronaves em instantes críticos, como pousos e decolagens.

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No caso de um eventual impacto, estruturas e motores perigam ser danificados, com risco até de explosão. De acordo com o RIOGaleão, um avião de longo curso transporta cerca de 135 000 litros de combustível, enquanto um caminhão abastecedor comporta aproximadamente 70 000 litros.

Uma queda na pista afeta a operação aeroportuária, em geral causando atraso de voos (na melhor hipótese). Em 2025, foram 39 ocorrências no Galeão, um aumento de 30% em relação a 2024.

Desde a criação do sistema Alerta COR, em 2023, já foram emitidas mais de 120 sinalizações sobre tais equipamentos por lá. “Monitoramos o espaço e seu entorno com câmeras de segurança e equipes posicionadas em pontos estratégicos. Quando balões são flagrados, a ocorrência é comunicada imediatamente, permitindo a adoção de medidas preventivas”, informa em nota o RIOGaleão. 

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Soltura de balões em comemoração ao Dia das Mães foi interceptada pela polícia em Arraial do Cabo: sete artefatos apreendidos (Instagram @cpam/pmerj/Reprodução)

Com papel de destaque no combate a crimes ambientais, o Programa Linha Verde, do Disque Denúncia, atua há mais de uma década no enfrentamento aos baloeiros. Entre as principais frentes, estão ações pedagógicas, educação ambiental e um canal de denúncias anônimas. Desde janeiro, a iniciativa recebeu 24 comunicações sobre pontos de comercialização, confecção e soltura dos artefatos. Em 15 de abril, o projeto deu início à 28ª edição do Disque Balão, campanha anual que se estende até setembro a fim de incentivar as delações desse tipo de infração. Uma semana depois do lançamento da campanha deste ano, uma queixa levou a Polícia Militar a fechar uma fábrica em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. “Um balão no ar se torna um lança-chamas à deriva”, ressalta Renato Almeida, coordenador-geral do órgão. “Por isso é importante que a gente tenha conhecimento sobre festivais, fábricas e comerciantes para impedir que ganhem os céus”, diz. 

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O importante é prevenir: “Temos que impedir que esses artefatos ganhem os céus”, ressalta Renato Almeida, coordenador-geral do Disque Denúncia (ASCOM Disque Denúncia/Divulgação)

Enquanto parte dos usuários das redes se mobiliza a favor da prática (criminosa) na internet, há quem use as plataformas para o meritório fim de ajudar a combatê-la. Posto de pé por voluntários e membros do Mosaico Carioca, canal de comunicação entre a sociedade civil e as unidades de conservação da cidade, o Sistema INFOgo tem o objetivo de detectar e monitorar incêndios florestais na capital fluminense.

Através do WhatsApp, moradores podem denunciar queimadas, enviando textos, fotos e vídeos, inclusive compartilhando a localização da ocorrência. “Os balões são os principais causadores de incêndios na cidade. Depois, vêm os cidadãos que queimam lixo e praticam a limpeza de pastagem com finalidade agrícola, ambas as ações também ilegais”, afirma o engenheiro florestal Celso Junius, coordenador da iniciativa independente. “A atividade baloeira é uma tragédia porque pode incendiar locais muito difíceis de ser alcançados pelos combatentes”, acrescenta. 

Durante a elaboração da dissertação de mestrado a propósito do tema, a pesquisadora Erika Santos conseguiu identificar a possível origem da prática no Brasil. Uma das fontes do estudo foi uma cartilha de autoria atribuída a Humberto Pinto, defensor da prática do balonismo artesanal no Brasil, contando que a tradição teria começado por volta do século XII, na China, como um ritual de homenagem a imperadores e reverência aos mortos.

Já em terras brasileiras, a cultura foi herdada dos colonizadores portugueses, incorporada no século XVI, ganhando impulso com as festas juninas, realizadas inicialmente em áreas rurais.

“O balão virou uma tradição familiar para além das festividades, mas passou a esbarrar em questões legais. Alguns baloeiros querem fazer a coisa certa, e uma alternativa parece ser o uso dos artefatos ecológicos, que não mantêm fogo aceso depois de inflados, mas que ainda carecem de regulamentação”, explica Erika.

O problema é que, mesmo sem chama, esses exemplares continuam oferecendo outros riscos, dos tumultos provocados pelas disputas de resgate até as ameaças à aviação. Parece razoável pensar em brincadeira melhor. 

 

O perigo que flutua 

Números mostram o tamanho do problema no Rio 

81% de aumento na apreensão de balões em 2025 

212 denúncias no mesmo ano, 10% mais do que em 2024 

1 mês é o tempo que leva a fabricação de um exemplar de tamanho médio 

16 000 reais é o custo de produção de um balão de 20 metros 

24 000 metros quadrados de área destruída na Floresta da Tijuca no incêndio de abril 

 

O submundo dos balões 

Dinheiro, violência e suspeita de ligação com o crime organizado 

Caçada nos céus. Após a soltura, grupos disputam o resgate dos artefatos em operações que frequentemente terminam em invasões, perseguições e violência. 

Rastro de destruição. Neste ano, uma quadrilha invadiu uma casa de festas em Bento Ribeiro numa disputa para recuperar um balão. 

Crime organizado no ar. Autoridades investigam conexões entre baloeiros, tráfico e milícia; alguns artefatos exibem homenagens a criminosos e facções. 

O caso “Urso”. Um balão com a imagem de um urso, fazendo referência ao tráfico, chamou a atenção das autoridades em 2023. 

Mapa das denúncias. A Taquara é o bairro campeão de ocorrências envolvendo fabricação clandestina, depósitos de inflamáveis e festivais ilegais, seguido por Campo Grande, Bangu, Guaratiba e Ilha do Governador. 

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Após denúncia: policiais do batalhão florestal fizeram a apreensão de 43 balões em fábrica na Taquara, na Zona Sudoeste (facebook @Taquara-rj news/Reprodução)

Rota de colisão 

À deriva no céu, os balões ilegais ameaçam a segurança aérea no Rio 

Perigo sem controle. Sem direção definida, os balões podem cruzar rotas de pouso e decolagem justamente nos momentos mais críticos das operações aéreas. 

Combustível explosivo. Uma aeronave de longo curso pode transportar cerca de 135 000 litros de combustível; um eventual impacto pode provocar danos severos a estruturas e motores. 

Olhos no céu. Câmeras de segurança e equipes posicionadas em pontos estratégicos monitoram o entorno dos aeroportos em busca dos artefatos. 

Alerta em tempo real. Desde junho de 2023, o sistema Alerta COR já emitiu mais de 120 notificações sobre balões próximos a áreas sensíveis da cidade. 

Alerta no Galeão. Somente em 2025, o RIOGaleão registrou 39 ocorrências envolvendo balões, aumento de 30% em relação ao ano anterior. 

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Ameaça constante: o RIOGaleão monitora pista e entorno, mas, ainda assim, criminosos trocaram tiros com a polícia após uma queda nas dependências do aeroporto em 2020 (Policia Federal/Divulgação)

Todos no combate 

Canais para denunciar o crime ambiental 

Linha Verde — Disque Denúncia (21) 2253-1177 

INFOgo (21) 99944-8155 

Corpo de Bombeiros 193

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(RIOgaleao/Divulgação)

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Falta consciência: vídeos na internet mostram detalhes da confecção e até das solturas, e a maioria dos comentários é elogiosa (instagram/Reprodução)
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