Como as farmácias viraram um negócio rentável

O movimento acompanha mudanças como o envelhecimento da população, a maior prevalência de doenças crônicas e a busca por autocuidado

Por Elisa Torres 9 out 2026, 05h20
Programa de adulto: “Não me chame para festas, me leve para a farmácia”, brinca Natália Olliveira
Programa de adulto: “Não me chame para festas, me leve para a farmácia”, brinca Natália Olliveira (Felipe Bezerra/Divulgação)
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Prateleiras lotadas de hidratantes labiais, corretivos, máscaras para cílios, bases e uma infinidade de produtos para o corpo e os cabelos.

Trata-se de uma loja de artigos de maquiagem? Não.

Esses e outros itens de beleza podem ser encontrados em farmácias.

A cena ajuda a traduzir a transformação desse mercado, que avança de forma impressionante pela cidade: em diversos bairros, não é difícil encontrar um estabelecimento a menos de 200 metros de um concorrente.

No estado, são mais de 10 000 drogarias, uma para cada cerca de 1 700 habitantes, segundo o Conselho Regional de Farmácia (CRF-RJ).

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Na capital, são 2 868: uma para cada 2 000 moradores, muitas com horário de funcionamento estendido.

Os números fazem do estado o terceiro maior mercado do segmento no país, segundo a Associação do Comércio Farmacêutico (Ascoferj).

“O que observamos nos últimos anos é uma combinação da expansão do número de pontos de venda com uma transformação profunda do conceito de farmácia, que agora vai muito além dos remédios”, resume Sergio Mena Barreto, CEO da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma).

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Homem de pele clara, barba e cabelo escuros, vestindo terno azul marinho e camisa xadrez azul e branca, sentado com as mãos entrelaçadas sobre as pernas. Ao fundo, uma janela com vista para prédios e árvores
Mudança de conceito: “O que vemos é uma combinação entre expansão e mudança de conceito”, diz Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma (Guto Marcondes/Divulgação)

O balcão no qual o farmacêutico indicava medicamentos aos clientes passou a dividir espaço com dermocosméticos, vitaminas, suplementos, produtos de higiene e um refrigerador onde são mantidos alimentos e bebidas.

O movimento acompanha mudanças demográficas e de comportamento, como o envelhecimento da população, a maior prevalência de doenças crônicas e a busca por prevenção, autocuidado, beleza e bem-estar.

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Os números mostram que os produtos não medicamentosos deixaram de ser uma categoria secundária: nas redes associadas à Abrafarma, eles movimentaram 39,7 bilhões de reais entre setembro de 2025 e agosto de 2026, representando cerca de 31% do faturamento total.

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“A farmácia é o programa preferido do adulto 30+. Não me chame para a festa, me chame para conferir os últimos lançamentos de dermocosméticos”, brinca a criadora de conteúdo Natália Olliveira, da página @oquefazernorio.

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As lojas também passaram a incorporar serviços como vacinação, testes rápidos, aferição de pressão e glicemia e acompanhamento de pacientes crônicos.

No Rio, o número de salas clínicas das redes associadas à Abrafarma subiu 575% em cinco anos.

“A farmácia passou a fazer parte da rotina dos cariocas”, celebra o sócio-diretor da Venancio, Rodrigo Ahmed.

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Em 2025, a rede quase dobrou o número de pontos no território fluminense, passando de cerca de oitenta para pouco mais de 150 – e ainda prevê a inauguração de outros quinze em 2027.

Quase um shopping: A Venancio da Avenida Abelardo Bueno, na Barra Olímpica, recém-reformada, tem estacionamento e funcio
Quase um shopping: A Venancio da Avenida Abelardo Bueno, na Barra Olímpica, recém-reformada, tem estacionamento e funciona 24 horas (./Divulgação)

Apesar de toda a conveniência nos pontos físicos, as vendas on-line são significativas: nas grandes redes, as vendas pela internet cresceram 60,44% em doze meses, movimentando 30 bilhões de reais.

A associação, porém, defende que as farmácias independentes não estão ameaçadas.

Dados da consultoria Close-Up apontam 8 929 pontos de venda registrados no estado, dos quais dois terços não têm bandeira de rede.

Um exemplo é a Farmácia do Leme, fundada em 1933 e hoje administrada pela terceira geração da mesma família.

Sob o comando do farmacêutico Ricardo Valdetaro de Moraes, a loja faz aplicação de vacinas, medicamentos e curativos, delivery e venda on-line sem abandonar o atendimento 24 horas.

Mais da metade do faturamento vem das entregas, feitas por uma equipe de dezesseis motociclistas.

“A gente está tentando se adaptar à modernidade”, resume Moraes. A adequação, porém, tem um preço. Para este modelo de negócio, competir com conglomerados que compram em volume significa trabalhar com margem de lucro menor.

“Há vinte anos, dava dinheiro. Hoje já não é bem assim, porque seguimos o nosso giro”, afirma. Novos tempos exigem diferentes habilidades para conquistar os clientes.

A farmácia 2.0

O que mudou nas prateleiras e nos serviços

O novo modelo de negócio integra lojas físicas a aplicativos, sites e WhatsApp. O cliente pode pesquisar, comprar e receber produtos em casa, enquanto as lojas físicas continuam sendo ampliadas pelas grandes redes.

Medicamentos seguem como o principal negócio, mas ganharam a companhia de dermocosméticos, produtos de higiene e beleza, vitaminas, suplementos, fitoterápicos e alimentos.

Vacinação, testes rápidos, aferição de pressão e glicemia se tornaram serviços comuns nas grandes redes.

Mudança de conceito: “O que vemos é uma combinação entre expansão e mudança de conceito”, aponta Sergio Mena Barreto, CE
Mudança de conceito: “O que vemos é uma combinação entre expansão e mudança de conceito”, aponta Sergio Mena Barreto, CEO da Abrafarma (Drs Produções/Getty Images)

Unidades 24 horas ampliam o atendimento para demandas noturnas e de urgência. O modelo, porém, depende da localização e da demanda para compensar os custos adicionais.

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