A estética da liberdade: exposição no Solar exalta Ney Matogrosso
Obras de cinquenta artistas revelam a complexidade e a permanência do artista que segue moldando a cultura visual brasileira
Na homenagem para Cazuza (1958-1990) promovida pelo Prêmio da Música Brasileira na última semana, o nome mais aguardado no palco do Theatro Municipal era Ney Matogrosso, que cantou Pro Dia Nascer Feliz.
A atriz Alice Wegmann, uma das apresentadoras da noite, não se aguentou e tietou o ídolo, que posou para fotos com a costumeira placidez.
Aos 85 anos, o artista sul-mato-grossense radicado no Rio foi enredo de Carnaval, virou tema de livros, cinebiografia, documentário e, agora, de exposição.
Eu Prefiro Ser, com abertura neste sábado (20), no Solar, na Rua do Senado, é prova de que ainda há muito a se falar do artista cuja caminhada se confunde com liberdade de corpo e mente.
“A história do Ney já foi contada, então não nos preocupamos em montar uma exposição biográfica. Pudemos nos aprofundar e refletir sobre a importância dele agora”, aponta Bernardo Mosqueira, curador ao lado de Matheus Morani e Pablo León de la Barra.
“Na verdade, as pessoas acham que conhecem a trajetória dele, mas ela é muito mais complexa e bonita”, acrescenta.
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O projeto é grandioso, e vem sendo gestado por Bernardo Mosqueira desde 2017, quando o Solar ainda se chamava Solar dos Abacaxis e ocupava uma mansão no Cosme Velho.
Obras de cinquenta artistas de diferentes vertentes se espraiam pelos três andares do sobrado.
Imagens históricas da carreira e registros inéditos de momentos privados do cantor se unem a trabalhos produzidos exclusivamente para a mostra — doze deles comissionados.
Todos têm em comum a investigação sobre a liberdade, debruçando-se sobre temas como a crise do HIV, o corpo político, performático, o queerness, a estranheza e a natureza.
“Aceitei o convite de cara e optei por um retrato, algo muito forte dentro da minha proposta. Quis honrar o Ney de hoje”, conta Thix, artista que recentemente teve uma obra incorporada ao acervo do Museu de Belas Artes.
Na entrada, os visitantes são recepcionados por uma instalação do coletivo assume vivid astro focus (avaf). “É gráfico, pop, queer… É pista”, anima-se Mosqueira.
Ao longo do percurso, há produções de José Leonilson (1957-2003), Rubens Gerchman (1942-2008), Tunga (1952- 2016), Marcos Chaves e Tadáskia.
O legado de Ney Matogrosso vai muito além da música e da cultura pop. Ele influenciou — e ainda influencia — a cultura visual, impactando gerações de brasileiros.
O artista plástico paulistano Rodolpho Parigi ainda guarda na memória uma cena da infância: dançou uma música de Ney e apanhou do pai.
Já a amazônida Uýra subiu num palco pela primeira vez justamente para performar uma canção do artista.
Alex Cerveny também se lembra de, ainda criança, assistir a um show do cantor que, na sua mente, virou uma figura mágica, alimentando seu trabalho ao longo de muitos anos.
“O Ney reacendeu minha paixão pelo cinema. Com ele, percebi que o artista pode mostrar seu lado humano de forma corajosa, transgressora e sensível”, resume o cineasta Rafael Saar, diretor do curta Homem-Ave (2014), criado a partir do universo poético do cantor, que será exibido em Eu Prefiro Ser.
“A liberdade que ele tem é inspiradora”, arremata.
Discreto, Ney participou de uma coisa ou outra na montagem da exposição e estava tranquilo em relação ao projeto.
“Mas acho que vai ser uma grande surpresa para todos”, aposta Mosqueira, um dos curadores. Afinal, Ney Matogrosso sempre surpreende.
Eu Prefiro Ser. Solar. Mercado Central. Rua do Senado, 48, Centro. Qua. a sáb., 10h/18h. Grátis. Até 17 de outubro.





