Eventos do conhecimento atraem multidões
Grandes estrelas em festivais como a Flip, escritores, cientistas e filósofos fazem do Rio o principal palco de boas ideias no país
Ingressos esgotados, filas intermináveis e a chance de descolar uma selfie com um nome estelar. A cena poderia se desenrolar em um festival de música, mas vem se repetindo em cantos bem mais inesperados: no lugar de astros pop, sob os holofotes estão escritores, cientistas, pensadores e intelectuais. Quando a Casa Sesc confirmou a filósofa e ativista americana Angela Davis na programação paralela da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece de quarta (22) a domingo (26), as redes entraram em polvorosa, causando até certa ciumeira na organização — a lista completa de participantes das mesas oficiais não havia nem sido divulgada. Tamanho alvoroço não deixa dúvida: em um destino tão associado a grandes espetáculos como o Rio, palco de importantes torneios esportivos, do Carnaval e de seu emblemático réveillon, nunca se viu tanto interesse por eventos que enaltecem o pensamento. A agenda é vasta: Bienal do Livro, Web Summit, Rio2C, Rio Innovation Week e a própria Flip — e todos eles vêm batendo recorde de público a cada nova edição. “Plataformas como essas articulam entretenimento, negócios e produção de saberes, ajudando a construir a marca de uma cidade, que assim recebe uma bem-vinda injeção de recursos”, avalia João Figueiredo, coordenador da pós-graduação em economia criativa, estratégia e inovação da ESPM.
Neste ciclo virtuoso movido a conhecimento na veia, auditórios lotados são sinônimo de mais entra e sai nos hotéis, aeroportos, rodoviárias e até em shoppings e restaurantes. E o fenômeno não se resume à paradisíaca Paraty. A última Bienal do Livro recebeu 740 000 visitantes e trouxe 535 milhões de reais à economia carioca. Em maio, o Rio2C reuniu mais de 55 000 participantes de trinta países na Cidade das Artes, na Barra, e movimentou cerca de 516 milhões de reais. De 4 a 7 de agosto, o Rio Innovation Week volta ao Píer Mauá com a missão de repetir o sucesso do ano passado, quando atraiu 205 000 pessoas e adicionou 150 milhões de reais aos cofres locais. O tema da vez é Simbiose — O Futuro Não Acontece Isolado, com convidados do quilate do Nobel de Medicina Edvard Moser, do físico americano Brian Greene, do neurocientista David Eagleman e da astrônoma Jill Tarter. “O objetivo é juntar diferentes áreas para projetar o amanhã”, resume Luciana Potsch, diretora-executiva do RIW. E dá-lhe turismo, cultura, negócios e, claro, produção de conhecimento.
Não apenas a envergadura, mas também o formato desses efervescentes encontros mudou. Antes, ir a uma feira do livro significava comprar uns exemplares e voltar para casa. Já o programa hoje envolve horas entre uma mesa e outra de debates, oficinas, cafés literários e papos com autores — ou artistas, no caso da ArtRio, que acontece de 16 a 20 de setembro. “O público não quer só palestra. Quer conversar, fazer foto e ganhar autógrafo”, conta a escritora e criadora de conteúdo Bruna Paiva, 28 anos, autora de Um Diário para Alice. Com cerca de 70 000 seguidores entre Instagram e TikTok, Bruna, assídua frequentadora de Bienais e festivais literários, acredita que o ambiente digital ajudou a atiçar a curiosidade pela leitura. “As redes aproximam as pessoas, mas é nos eventos que essa comunidade realmente se consolida”, afirma. Outro expoente da nova geração, a escritora Ariani Castelo, 27 anos, acumula 150 000 seguidores nas redes e conhece os dois lados do balcão. “Na adolescência, enfrentei longas filas para ver de perto meus autores preferidos. Agora, sou eu que faço as dedicatórias para os fãs”, entusiasma-se a autora de O Abismo de Celina e do recém-lançado Coração de Cristal Partido, ambos editados pela Rocco. “Os frequentadores desses lugares sabem que vão encontrar pessoas com gostos, ideias e valores semelhantes”, afirma a pesquisadora Silvia Borges, professora da ESPM.
Sob essa nova moldura, os intelectuais começam a ocupar um espaço normalmente reservado a celebridades do mundo do entretenimento. Com a agenda atribulada, escritoras como Djamila Ribeiro e Conceição Evaristo — ambas com o passaporte já carimbado para a Flip —, além de Ailton Krenak e Leandro Karnal, deixaram há tempos de circular exclusivamente no ambiente acadêmico. “Eventos presenciais oferecem algo que o ambiente digital não consegue reproduzir: a troca humana. Mesmo que seja um minuto de conversa, existe ali algo único”, avalia Martha Ribas, consultora da Bienal do Livro e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel). “Observo uma mudança profunda na forma como se consome conhecimento hoje”, diz Paula Chimenti, coordenadora do Centro de Estudos em Estratégia e Inovação da Coppead/UFRJ. “Vivemos um panorama de abundância de conteúdo. Palestras estão no YouTube, artigos científicos podem ser facilmente acessados e há ainda a inteligência artificial para resumi-los. Com tanta informação, faz diferença uma boa curadoria”, diz.
Se a presença de Angela Davis na Flip é um dos momentos mais aguardados da temporada literária que se avizinha, outro evento nestas praias homenageia justamente uma das intelectuais brasileiras mais admiradas pela ativista: a Festa Literária Internacional de Niterói (Flin), entre 13 e 16 de agosto, terá como homenageada do ano a antropóloga, filósofa e professora mineira Lélia Gonzalez (1935-1994), referência do pensamento negro e feminista no Brasil. Em visita ao país em 2019, Angela Davis defendeu que a obra da autora fosse mais lida e estudada. “Aprendo mais com Lélia do que os brasileiros aprendem comigo”, disse. A escolha da Flin reforça uma tendência vista nos grandes festivais — colocar no centro do debate cabeças voltadas para a compreensão dos desafios contemporâneos. Num país marcado pela polarização política e imerso na lógica dos algoritmos, é crucial sair das telas e encontrar locais nos quais discordar pode ser algo desejável. “Mais gente está buscando conhecimento longe das telas”, afirma Rita Palmeira, curadora da Flip. Conceição Evaristo ainda chama a atenção para a mudança de perfil da festa de Paraty na última década. “Tudo mudou quando Giovana Xavier, historiadora da UFRJ, lançou uma carta-manifesto criticando o fato de a Flip não ter um único autor negro entre os convidados. No ano seguinte, a organização ampliou a presença de escritores negros e o público foi se tornando muito mais diverso. Esse movimento influenciou outros festivais literários”, comenta a escritora.
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Historicamente, o Rio vem cultivando a tradição de sediar encontros internacionais com potencial de reverberar mundo afora. No longínquo ano de 1906, a Terceira Conferência Pan-Americana, a mais importante reunião diplomática das Américas, desembarcou em solo carioca. Um século mais tarde, em 2024, os chefes das principais economias do planeta se encontraram na cúpula do G20, abrigada no Museu de Arte Moderna. A população pôde participar de uma animada agenda paralela, com exposições e shows promovidos na Casa de Cultura Laura Alvim, rebatizada temporariamente de Casa G20. “Estimular o pensamento movimenta a economia, gera empregos, impulsiona o turismo e reforça o posicionamento do Rio como um lugar que recebe grandes acontecimentos ao longo de todo o ano”, celebra Bernardo Fellows, presidente da Riotur.
A partir da próxima quarta (22), as charmosas calçadas de pedra de Paraty vão receber vários escritores que vivem fora de seu país de origem e se propõem a refletir sobre temas complexos — deslocamentos, pertencimento, identidade e a instabilidade do mundo contemporâneo. O ponto de partida: a ficção e a poesia. A poeta paulista Orides Fontela (1940-1998) será a homenageada da 24ª edição da Flip. “Orides tinha uma admirável capacidade expressiva usando o mínimo de versos. Homenageá-la é reverenciar a força da palavra escrita, presente no trabalho de todos os convidados”, diz Rita Palmeira, que espera reunir pelo menos 35000 apreciadores da leitura e da boa conversa. Mais do que ver e ouvir grandes nomes, quem vai à Flip, à Bienal ou ao Rio Innovation Week busca algo difícil de encontrar nas telas: a possibilidade de estar tête-à-tête com gente que divide a mesma curiosidade sobre o mundo a sua volta. Talvez esteja aí o mais valioso ativo dessa nova e poderosa economia do saber.
Um bom negócio
Números dos grandes eventos que impulsionam o conhecimento no Rio
98% é a taxa de ocupação hoteleira para a Flip, em Paraty
219 Milhões de reais foi o impacto econômico na cidade na edição de 2026 do Web Summit
740000 Pessoas passaram pela Bienal do Livro em 2025 — um recorde
1700 Palestrantes estiveram no Rio2C deste ano
90000 metros quadrados foi a área ocupada no último Rio Innovation Week, no Píer Mauá
Os superstars
Eles não cantam nem jogam futebol, mas arrastam multidões
Conceição Evaristo
@conceicaoevaristooficial • 520000 seguidores
Prestes a completar 80 anos, a mineira radicada no Rio é uma das principais vozes da literatura brasileira contemporânea. Além de lotar plateias por onde passa, tem sessões de autógrafos em eventos que frequentemente ultrapassam duas horas de fila. É autora de Olhos d’Água, Prêmio Jabuti na categoria contos e crônicas em 2015.
Ailton Krenak
@_ailtonkrenak • 423 000 seguidores
Ambientalista, escritor, filósofo, reconhecido internacionalmente por sua atuação em defesa dos povos indígenas e do meio ambiente, o escritor de 72 anos é requisitado no mundo todo. Em 2023, tornou-se o primeiro indígena eleito para a Academia Brasileira de Letras (ABL).
Leandro Karnal
@leandro_karnal • 5,2 milhões de seguidores
Um dos principais intelectuais brasileiros da atualidade, o professor de 63 anos é presença constante em feiras, teatros e centros de convenções, onde costuma esgotar ingressos com suas palestras.
Mario Sergio Cortella
@cortella • 9,5 milhões de seguidores
Reconhecido por aproximar a filosofia do grande público, o autor paranaense de 72 anos reúne milhares de pessoas em palestras pelo país. Tem 55 livros publicados e títulos que já venderam mais de 3,8 milhões de exemplares só no Brasil.
Djamila Ribeiro
@djamilaribeiro1 • 1,3 milhão de seguidores
A paulista de 45 anos é uma das principais vozes do feminismo negro e da luta pela igualdade racial no Brasil, e já vendeu mais de 1 milhão de exemplares de livros como Lugar de Fala. No momento, ela é professora visitante no MIT, nos Estados Unidos.
Natália Pasternak
Na pandemia de covid-19, a bióloga aproximou a ciência do grande público, ajudando a combater a desinformação. É autora de Ciência no Cotidiano, que figurou na lista de mais vendidos e venceu o Jabuti de ciências em 2021.
Rumo a Paraty
Os destaques da programação da Flip
Milton Hatoum, memória e autoritarismo. O amazonense que escreveu Dois Irmãos recebe Hisham Matar, premiado romancista britânico-líbio nascido nos EUA. Eles se debruçam sobre como regimes autoritários atravessam trajetórias familiares e influenciam as histórias que contam. Sáb. (25), 17h.
Drauzio Varella, a medicina e a literatura. Ao lado da escritora alemã Carmen Stephan, o médico conversa sobre doenças tropicais, escrita, vida e morte. O encontro parte de experiências pessoais e de obras literárias sobre a malária e a febre amarela. Sex. (24), 10h.
Zadie Smith e sua construção fina. Uma das principais romancistas da língua inglesa, a autora britânica está entre as convidadas internacionais mais aguardadas. Ela responderá a questões sobre sua obra, considerada arguta, e discutirá temas presentes em seus romances, como colonialismo, imigração e racismo. Sáb. (25), 19h.
Cármen Lúcia e A Democracia. A ministra do STF participa da mesa Estado de Sítio, Estado de Sido, Estase, em que apresenta e discute o livro Pela Mão do Povo — Democracia e Voto no Brasil, organizado por ela, Heloísa M. Starling e Nayara Henriques. Sex (24), 13h30.
Angela Davis, Wole Soyinka e A liberdade. Na Casa Sesc, a filósofa e o nigeriano condecorado com o Nobel de Literatura vão falar sobre liberdade, democracia e direitos humanos na mesa mediada pela jornalista Flávia Oliveira. Sáb. (25), 18h.





