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Coronavírus: a euforia nos motéis cariocas no início da pandemia

Estabelecimentos da cidade viveram um efêmero momento de glória no começo da crise do coronavírus

Por Cleo Guimarães - Atualizado em 3 abr 2020, 16h03 - Publicado em 3 abr 2020, 12h00

A regra é clara: para impedir a disseminação do novo coronavírus, autoridades e especialistas recomendam – aliás, mandam – que a população evite aglomerações. Academias, escolas e shoppings interromperam as atividades e toda a programação cultural foi suspensa. Bares e restaurantes tiveram de se adaptar aos novos tempos, afastando as mesas umas das outras.

Em meio ao caos econômico e às mazelas psicológicas do isolamento social, um ramo de negócio faturou bem mais que o normal, pelo menos até que a primeira morte se abatesse sobre a cidade (agora, claro, a festa acabou): nos vinte primeiros dias de março, o movimento nos motéis cariocas foi 20% maior que no mesmo período do ano passado. “Ao que tudo indica, a situação fez com que as pessoas reavaliassem a importância de estar vivas, de ter prazer”, explica o antropólogo Bernardo Conde, do departamento de ciências sociais da PUC-Rio.

Em um movimento que traz à memória O Amor nos Tempos do Cólera, o clássico de Gabriel García Marquéz em que os protagonistas, apaixonados, vivem uma quarentena forçada em ótima companhia, foi só o noticiário sobre a pandemia se intensificar para que os casais cariocas passassem a fazer fila nos motéis, surpreendendo os empresários do setor. “Geralmente sofremos uma queda brusca na demanda logo depois do Carnaval. Desta vez foi o contrário. Trabalhamos muito”, comemora Antonio Cerqueira, vice-presidente do setor moteleiro da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH) no Rio de Janeiro.

Localizado na Barra da Tijuca, na subida que leva ao Alto da Boa Vista, o Toy Motel, com quarenta suítes (algumas equipadas com sauna, hidromassagem e piscina com cascata), e diária de 185 reais, teve lotação máxima no primeiro fim de semana do novo coronavírus na cidade. “As pessoas transam mais por causa do stress. É uma forma de se dar um pouco de alegria em um momento de tanta tensão”, afirma a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins. Isso apesar dos riscos envolvidos (e não estamos falando de flagra de cônjuge). “Vamos combinar que é preciso ter boa dose de confiança para beijar alguém nesta fase de propagação do vírus”, lembra ela.

No caso dos motéis, deve-se adicionar um fator extra a essa equação: a higiene. Por mais que as equipes se esforcem, a assepsia entre quatro paredes é incapaz de alcançar plenamente os requisitos exigidos para conter uma pandemia. Os motéis garantem que, antes de fechar as portas, tomaram medidas extras, desinfetando roupas de cama com água oxigenada, secando-as a 80 graus (as altas temperaturas diminuem a proliferação do vírus) e fornecendo máscaras e luvas aos funcionários, além de limpar todas as superfícies com álcool em gel. A intenção é boa, mas insuficiente, asseguram os especialistas no assunto. “Tratando-se da Covid-19, não existe ambiente totalmente seguro, muito menos em lugares com alta rotatividade de pessoas, como é o caso dos motéis”, diz Margareth Dalcolmo, pneumologista e pesquisadora da Fiocruz.

Sob alguns aspectos, até faz sentido que os quartos dos motéis tenham sido procurados com mais avidez que o normal por quem deseja sacudir o tédio da quarentena – afinal, são espaços privados, sem aglomerações e com atrativos que vão de TVs com muitos canais a cabo a piscinas privativas, teto solar e serviço de quarto. A bonança moteleira caiu por terra quando o governador Wilson Witzel começou a tomar as primeiras medidas contra a Covid-19 na cidade e os cariocas se deram conta dos riscos a que estavam expostos ao sair à rua, ir à praia ou ao botequim. “Ficamos completamente vazios, e a previsão é que 100% dos motéis da cidade fechem enquanto durar a quarentena”, afirma o outrora animado Antonio Cerqueira.

Vazios pode ser que não fiquem mais: Witzel sancionou um projeto de lei que estabelece que o Estado pode requisitar estabelecimentos de hospedagem para viabilizar o isolamento de parte da população mais vulnerável. Para o secretário estadual de Turismo, Otávio Leite, motéis fazem parte dos planos de requisição compulsória não só porque estão ociosos, mas também por sua “divisão espacial”. “Eles têm uma arquitetura pensada para o isolamento. Os quartos não se comunicam, o que é exatamente o que estamos buscando neste momento”, explica.

A possibilidade de serem ocupados pelo Estado durante a quarentena foi bem recebida pelo setor dos hotéis, digamos, ortodoxos, já que o governo promete ressarcir as empresas pelo tempo de uso. Mas os motéis estão reticentes, principalmente em relação à própria estrutura. Elevadores pequenos, já que não foram previstos para mais de dois ocupantes, e camas que não podem ser separadas em duas de solteiro, como nos quartos de hotel, podem complicar os planos. E tirar dos idosos a chance de dizer que passaram a quarentena no motel.

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