Estabelecimentos cariocas apostam na comunicação visual da IA generativa
Logomarcas, banners e anúncios criados por inteligência artificial espalham uma estética padronizada pelas ruas da cidade
Em uma caminhada atenta — ou seja, aquela em que os olhos finalmente desgrudam da tela do celular — topa-se com figuras que jamais existiram. E não há nada de onírico ou lisérgico nessa afirmação.
Afinal, estabelecimentos comerciais de diferentes partes da cidade vêm adotando uma mesma estética em sua comunicação visual, fruto da inteligência artificial generativa.
Com acesso a bilhões de imagens disponíveis na internet, os algoritmos de IA aprendem padrões complexos e criam conteúdos cada vez mais realistas, mas que não existem na vida real.
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Pequenos negócios, como salões de beleza, bares e lojas enxergam nessas ferramentas a possibilidade de criar uma estratégia imagética consistente de forma rápida e econômica, sem precisar contratar uma agência ou um designer.
“Até tentei fazer de forma manual, pelo Canva, mas tinha pressa. A IA traz praticidade e o resultado me agradou bastante”, conta Carlos Eduardo Santos, proprietário da barbearia Freedom, recém-aberta no Flamengo.
Ele utilizou as plataformas ChatGPT e Gemini para criar a própria logomarca, em estilo vintage, unindo duas navalhas e a tradicional luminária de antigos barbeiros em preto e dourado. Na Tijuca, a concorrente El Hombre tem uma logo muito parecida.
Até 2032, o mercado da IA generativa deve movimentar 2,3 trilhões de dólares, representando 22% do investimento em tecnologia, segundo a Bloomberg Intelligence.
A assinatura do ChatGPT, que dá acesso à criação de imagens com mais flexibilidade, parte de 39,99 mensais, enquanto a do Midjourney, mais voltado a elementos visuais, custa a partir de 10 dólares (cerca de 52 reais).
O uso em larga escala, no entanto, merece reflexão. Designer na consultoria Tátil, que criou a logomarca da Rio2016, Bruno Krazler afirma que a ferramenta deve ser um meio, e não um fim. “Ela funciona melhor em produções aceleradas, nas quais é necessário testar muitas variações”, explica.
Krazler também chama a atenção para o bolso. “Usar a IA para fazer um flyer, por exemplo, traz custos adicionais, porque é necessário fazer o tratamento da imagem antes de enviá-la para a gráfica. Um designer cobra de 50 a 150 reais e entrega tudo pronto”, compara.
As grandes agências de publicidade não refutam a novidade hi-tech, mas experimentam com parcimônia. “Usamos em alguns casos, mas na maior parte dos projetos temos fotógrafos e estúdios de manipulação de imagem. Uma campanha exige personificação e identificação do público. Como a IA é generalista, pode acabar atrapalhando”, opina Marcelo Holanda, diretor de arte da Artplan, agência que tem na carteira de clientes o clube Flamengo e a lanchonete Bobís.
Não há dúvidas de que as imagens geradas por inteligência artificial transformam a paisagem, e a comunicação visual automatizada pode enfraquecer o potencial criativo pelo qual o Rio é reconhecido internacionalmente. O espetáculo na Marquês de Sapucaí, essencialmente artesanal, apesar dos toques tecnológicos que vem recebendo nas últimas décadas, é o mais representativo dos exemplos.
“Usar modelos predefinidos é um facilitador problemático que, permite uma produção mais imediata, mas também pula a etapa de interpretar e imaginar as possibilidades da comunicação visual”, avalia Giselle Beiguelman, pioneira no campo da arte digital e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e Design da USP.
“Se não qualificarmos o uso dessas ferramentas, em vez de pluralidade, teremos uma homogeneização, em que o padrão pré-estabelecido pelas máquinas será dominante”, alerta Giselle.
E ainda há outra fonte de preocupação: frente à velocidade com a qual a inteligência artificial evolui, em breve será muito difícil distinguir uma imagem gerada de uma foto real.
O desafio, portanto, talvez não seja resistir à inteligência artificial, mas evitar que a praticidade transforme a cidade em uma sucessão de imagens previsíveis.
Afinal, uma das maiores riquezas do Rio sempre foi justamente a capacidade de surpreender — algo que dificilmente cabe em um prompt.
Jogo dos sete erros
Pistas para descobrir se uma imagem foi gerada por IA
Distorções Corporais
Mãos, dentes, olhos, orelhas e cabelos e outros elementos humanos fora de proporção.
Paleta de Cor
Uso de tons vibrantes e aspecto bem luminoso ou até mesmo cartunizado em excesso.
Elementos ao Fundo
Áreas mais afastadas do foco da imagem com distorções e elementos borrados ou fora do lugar
Objetos Estranhos
Incompatibilidades com o contexto da cena, como locais que não existem ou vestimentas estranhas para a ocasião.
Textos Ilegíveis
Palavras com letras imprecisas que dificultam a leitura ou até mesmo com a grafia errada.





