Edifício Chopin chega aos 70 anos entre bafos, famosos e glamour
Debruçado sobre a Praia de Copacabana, um dos mais cobiçados endereços da cidade renova seus moradores e sua arquitetura
Conta a história que Octávio Guinle (1886-1968), fundador do Copacabana Palace, recusou diversas vezes comprar o terreno ao lado do hotel por acreditar que um complexo rochoso, conhecido como Pedra Inhangá, seria um obstáculo difícil de transpor.
Para o empresário polonês Henryk Spitzner Jordan, aquilo não era um problema. De posse da escritura, detonou a rocha e chamou o arquiteto francês Jacques Pilon para construir o Edifício Chopin, um dos mais icônicos do Rio de Janeiro, inaugurado em novembro de 1956.
Prestes a completar sete décadas de puro glamour — e alguns “bafos” —, o prédio debruçado sobre a Princesinha do Mar acumula episódios lendários desde o berço.
Reza a lenda que, pouco antes de receber os primeiros moradores, Spitzner solicitou uma reunião com Mariazinha Guinle, esposa de Octávio, e teria lhe dito que seriam vizinhos por muitos anos, e que toda a área de serviço de sua edificação teria vista para a piscina dela.
Era só um estratagema, mas funcionou: dona Mariazinha ficou revoltada e Spitzner, conseguido o que queria, a garantia de uma moldura eterna para a área de lazer do Copa aos moradores do Chopin.
O frisson mais recente foi a notícia de que o comediante Fábio Porchat era o novo morador do prédio; seria vizinho da socialite Narcisa Tamborindeguy, famosa pelas aparições na janela com um megafone.
“Eu não conhecia o Chopin e o apartamento nem é meu, estou alugando há dois meses. Como sou novato, só posso dizer o básico, ‘ah, é lindo!'”, limita-se Porchat, vivendo no imóvel em que a atriz Maitê Proença morou por anos.
Na mesma época em que o humorista anunciou sua chegada, o casal Flora e Gilberto Gil declarou que estava de saída para a mesma Avenida Atlântica, num espaço maior, que acolha com ainda mais conforto a numerosa família.
Porchat não deixou a piada escapar e gravou um esquete em que afirma que o real motivo da mudança dos dois seria, na verdade, a presença dele.
O publicitário e galerista Mario Cohen, também morador, disparou: sem Flora e Gil, o Chopin vai virar “chopinho”. “Quando a gente saiu de São Conrado, eu queria um lugar que não precisasse acender a luz durante o dia. Eu encho a boca para dizer que moro em Copacabana”, orgulha-se Flora.
Narcisa, por sua vez, vem se dividindo entre o endereço e um apartamento recém-reformado no Cap Ferrat, na Vieira Souto. “Eu moro onde quiser. Vivi em Londres, Nova York, Paris, Suíça, São Paulo e sempre voltei pra cá, porque gosto mais do Chopin”, atesta a proprietária de três apartamentos no condomínio da Atlântica.
A famosa morada, na realidade, é composta por três prédios: o Chopin propriamente dito, de frente para o mar, o Prelúdio e o Balada, ambos nas laterais.
São doze andares e sessenta apartamentos em cada, com metragens que variam de 300 a 1 000 metros quadrados.
Na corretora Bossa Nova Sotheby’s o apartamento “mais simples” está à venda por 5,5 milhões de reais.
Só o condomínio custa cerca de 4 000 reais mensais. Os desgastes naturais de setenta anos à beira-mar urgiram uma reforma.
A portaria será climatizada e a iluminação será assinada por Monica Rio Branco, especializada em lightining design.
A garagem e o corredor de circulação também vão ganhar um banho de loja. “O pessoal do escritório falou ‘você vai entrar em concorrência de portaria?!’ (risos), mas o Chopin tem um apelo especial, pela história do Rio e pelo glamour do Copacabana Palace junto dele”, justifica a arquiteta Joy Garrido, que pretende resgatar os anos dourados com a reforma.
“A ideia é trazer classe sem aderir a modinhas. Quero pé-direito alto, muita madeira, pastilhas em tom azul piscina, usado na época da inauguração e, claro, vou manter o piso de mármore.”
Apesar do entra e sai atual, a síndica, Marina Felfeli, garante que só há três apartamentos disponíveis — normalmente a vacância é decorrente de processo sucessório.
O endereço que recebeu lendárias festas de Réveillon, foi residência do presidente João Goulart (1919-1976) e do empresário Adolpho Bloch (1908-1995) e, em 2024, figurou nas páginas policiais com a acusação de cárcere privado da socialite Regina Gonçalves, viúva do dono da fabricante de baralhos Copag, passa de fato por um rejuvenescimento de moradores, o que é natural e bem-vindo.
“Eu nasci aqui e tive uma infância feliz, brincando na rua, jogando bolinha de gude e andando de bicicleta. Minha professora de natação era a Maria Lenk, na piscina do Copa”, conta Marina, recordando um tempo em que o hotel era praticamente uma extensão do condomínio.
Mario Cohen era tão vidrado na piscina que instalou uma câmera em sua janela e projetava as imagens num telão na sala, como se fosse uma instalação artística.
“Até que o Sting se hospedou no Copa e a Cláudia Fialho, que era RP de lá na época, me ligou e falou ‘olha, o pessoal da segurança do cantor notou sua câmera e considerou invasão de privacidade”, lembra Cohen, rindo. “Tirei e nunca mais botei.”
Dizem que, hoje, para o morador frequentar as áreas comuns do hotel é preciso desembolsar aproximadamente 50 000 reais por ano, e que é difícil de ser aceito.
“É tipo o Country, tem bola preta, não é qualquer um que tem acesso”, diz a síndica. O hotel nega.
“O Cartão Piscina existe para pouquíssimas pessoas, não necessariamente para morador do Chopin. É algo que a gente abre pontualmente e nem divulga. Mas isso tende a se encerrar”, explica Cassiano Vitorino, gerente de comunicação do hotel.
+ Para receber VEJA RIO em casa, clique aqui
Quem tem o exclusivo “golden ticket”, como Narcisa, pode frequentar a academia, a quadra de tênis, usa o serviço de praia e a piscina (no momento interditada para reforma).
Uma academia e uma brinquedoteca estão nos planos (bem) futuros do Chopin, porque a administração do prédio já tem questões suficientes para se ocupar, como as constantes farras nos apartamentos em dias de shows na praia, quando eles distribuem pulseirinhas de identificação, fazem lista com o nome na porta e limitam a entrada de até cinquenta convidados por unidade.
“Emprestei o apartamento para a minha comadre Andréia Sadi, mas ela não estava acostumada com o prédio em dia de festa. Na volta, ela e as amigas pararam em vários andares e, como o elevador abre praticamente dentro do apartamento, elas conheceram uns dez em um minuto”, revela Flora Gil.
Que carioca não gostaria de viver essa cena? O glamour do Chopin segue vivo.
Rio de muitos milhões
Os prédios mais caros da orla carioca
Em junho, uma cobertura na Vieira Souto que pertenceu ao ex-presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) foi vendida por 82 milhões de reais, novo recorde para o mercado imobiliário local.
No mesmo mês, um apartamento no edifício Cap Ferrat, também de frente para o mar de Ipanema, foi negociado por 49 milhões de reais.
O recorde anterior também era da orla: um apartamento no edifício Juan Les Pins, na Delfim Moreira, foi comercializado por 46,5 milhões de reais no primeiro semestre.





