Montadas para o mundo: drag queens brilham no universo pop
Como as divas cariocas romperam a bolha das boates LGBT+ e conquistaram o teatro, a TV e as redes sociais
Não faz muito tempo, elas estavam restritas às boates dedicadas ao público LGBT+. Nos últimos anos, no entanto, uma série de fatores, incluindo o empurrãozinho da internet, fizeram com que as drag queens furassem a bolha, ocupando novos espaços. Hoje, elas estão no teatro, na TV, nos festivais de música e em eventos diversos, revelando a vibrante cena dessa cultura no Rio. Um dos principais nomes a romper a barreira foi Suzy Brasil, personagem que o carioca Marcelo Souza, 49 anos, encarna há 32. Seu novo espetáculo de humor, Uma Noite Horripilante, terá sessão no Teatro Riachuelo em 27 de maio. Para o ator, a web é um divisor de águas em sua carreira. Por incentivo de Paulo Gustavo (1978-2021) e Marcus Majella, fãs de Suzy, ele criou um perfil no Instagram e, na pandemia, viu a popularidade da personagem explodir. “Antigamente, para ficar conhecido, você tinha que estar na TV. Com as redes sociais, a gente mostra o nosso trabalho para o mundo”, resume. O solo Bye Bye Bangu lhe rendeu o Prêmio do Humor na categoria performance em 2023 e ele também foi roteirista e atuou como Suzy em programas como Ferdinando Show e Vai Que Cola, do Multishow, e LOL: Se Rir, Já Era!, do Amazon Prime Video.
Há historiadores que defendem que a arte drag nasceu na Grécia e na Roma antigas, mas a expressão ganhou força no final do século XIX, em bailes novaiorquinos. A entrada do reality show RuPaul’s Drag Race na Netflix brasileira também contribuiu para que essa arte ampliasse o público por aqui. É o que defende Thiago Araujo, fundador da boate Pink Flamingo, principal ponto de encontro da cultura drag na cidade — por lá, há apresentações das rainhas diariamente. “A cena carioca surgiu muito antes do programa, mas tem toda uma novíssima geração que decidiu se montar inspirada em RuPaul”, frisa.
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Na cola do sucesso da competição da TV americana, surgiram a edição nacional dela e outros realities, como Caravana das Drags, Queen Stars Brasil e Drag Me as a Queen. A turnê Drag Race Brasil — Ao Vivo, derivação do reality principal, acaba de passar por aqui.
A visibilidade para esse nicho também abriu caminho para as cantoras Pabllo Vittar e Gloria Groove, grandes nomes do pop nacional. “As pessoas entenderam que é um trabalho que exige preparação, e o artista tem que ser polivalente: ele se dirige, pensa no figurino, na música, na cena que vai criar, faz a maquiagem e dá pitaco até na iluminação”, enumera Marcelo Souza, a Suzy Brasil.
As apresentações de divas pop na Praia de Copacabana — Madonna em 2024, Lady Gaga em 2025 e Shakira, marcada para 2 de maio — também fazem pipocar as oportunidades para as queens no período. Mas nem tudo são flores no fim desse arco-íris: Thiago Ventura, 46 anos, que há 26 dá vida à drag Samara Rios — apresentadora do concurso Realeza Drag no Teatro Rival, com edição no dia 28 de abril —, se divide entre a ‘montação’ e o trabalho numa empresa de turismo. “Na minha época, éramos umas quinze. Hoje, são 350”, brinca. O multiartista e pesquisador Igor Ramos, 29, criador da drag Mamonna, diz que, em meio a tantas estrelas, é ainda mais difícil para as drags negras. “Ainda existe um padrão embranquecido de beleza”, denuncia. Criador do podcast Arte Queer e autor do livro Entre Máscaras e Montações: a Interseção Entre o Carnaval Carioca e a Cultura Drag na Construção de Imagens Queer no Rio de Janeiro, a ser lançado este ano, Ramos defende mais investimentos e políticas públicas — ele próprio já ganhou dois editais — e afirma que as cariocas têm o molho. “No Rio, a gente tem uma forma mais inflamada de fazer drag, porque queremos ir além do nicho”, conclui. Talento e personalidade elas têm de sobra.
Do you speak drag?
Das boates às redes, um guia para decifrar o universo e o vocabulário das drags
Caricata é a drag do humor
CDzinha deriva de cross-dresser, drag que parece uma garotinha
Gag chocada
Gaga de la Gaga muito chocada
Gongar criticar ou ridicularizar
Lip sync performance em que a drag dubla uma música, sincronizando lábios e expressões
Lóóóó lógico
Mona amiga, irmã, gay afeminada
Montação processo de transformação no personagem drag — inclui maquiagem, figurino, peruca e atitude
Old algo óbvio, já sabido
Pisa alguém que supera expectativas, “humilhando” concorrentes
Shade indireta
Slay arrasar
Tea fofoca







