Do outro lado da baía: cariocas trocam o Rio de Janeiro por Niterói
Alto custo de moradia e medo da violência estimulam a mudança para o município vizinho, onde encontram mais tranquilidade — e metros quadrados
Duas jovens andam tranquilamente por Icaraí enquanto mexem no celular. Um carioca se impressiona com a cena. Elas não tem medo de serem roubadas?
Logo depois, ele entra numa lanchonete e pede um joelho ó e não um italiano ó criando uma típica confusão. O vídeo de humor publicado pelo palestrante Paulo Pereira brinca com o choque de realidade que os cariocas experimentam ao se mudar para Niterói.
Esse movimento vem ganhando força, principalmente entre os jovens casais, por motivos que vão do custo de vida à segurança. Embora no primeiro trimestre de 2026 os índices de violência tenham registrado uma queda percentual geral em todo o estado em relação ao mesmo período do ano anterior, a diferença entre as duas cidades é expressiva e também aparece no preço dos aluguéis e do metro quadrado de maior valor.
“Famílias com filhos, profissionais que trabalham em home office, pessoas em busca do primeiro imóvel e aposentados querendo tranquilidade estão entre os principais perfis de clientes”, comenta Marcelo Amim, sócio do irmão gêmeo, Gustavo, na imobiliária niteroiense Amim Imóveis.
Segundo o empresário, esse público procura apartamentos de dois a três quartos com varanda e área de lazer. E entre os bairros mais buscados estão Icaraí, Jardim Icaraí, Santa Rosa, Charitas e São Francisco.
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Um estudo da Spin Inovações Imobiliárias aponta que 13% dos compradores de imóveis de Niterói são da capital fluminense. Parte da estatística, o casal de militares Rafael Zattar, 41, e Stella Monteiro, 34, trocou um apartamento de 80 metros quadrados no Leme por uma casa de 400 metros quadrados em Camboinhas, em fevereiro.
O segundo filho do casal já nasceu no novo endereço. “Decidimos buscar um ritmo mais tranquilo. Agora a gente tem um quintal com fruta no pé e muito espaço. Não tem preço ver as crianças crescerem com essa paz”, comentam.
Com a aproximação do fim de um contrato de aluguel em Botafogo, a designer e criadora de conteúdo Haydée Lima, 29, e o companheiro, o músico Davi Canella, 28, pesquisaram os preços e viram que fazia mais sentido comprar e reformar um apartamento na cidade vizinha do que alugar outro na capital.
O processo de mudança e decoração da casa nova foram temas de vídeos compartilhados por ela nas redes sociais — são mais de 26 000 seguidores no Instagram. “Minha dica para quem está pensando em fazer o mesmo é elencar prioridades, como tamanho do imóvel, localização e preço. Depois, entender qual tipo de transporte vai funcionar melhor para ir e voltar do Rio. Por último, é legal conhecer as atividades culturais de Niterói antes de tomar a decisão”, aconselha Haydée.
Com o maior Índice de Desenvolvimento Humano do estado e o sétimo do país, a Cidade Sorriso pretende continuar atraindo moradores. Lançada no dia 29 de abril, a segunda etapa do planejamento estratégico de longo prazo Niterói Que Queremos se debruça sobre temas como segurança, saúde, educação e inclusão ó englobando trinta metas e 36 projetos.
Entre as medidas, estão a ampliação do efetivo da Guarda Municipal para 1 000 homens até 2028 e a criação de novos centros culturais, como a Fundação Oscar Niemeyer e o Museu do Cinema Brasileiro.
Também há o plano de extinguir as moradias em áreas de risco e ter pelo menos 40 000 pessoas residindo no Centro nos próximos 30 anos. A primeira etapa previa transições de 2013 a 2033, mas alcançou 80% do objetivo oito anos antes do fim do prazo.
“A cidade congrega belezas naturais e opções de lazer e entretenimento como o Rio, mas com um ritmo menos confuso. Nossa intenção é seguir aliando crescimento populacional estratégico e qualidade de vida”, afirma Rodrigo Neves, que está em seu terceiro mandato na prefeitura.
Um dos seus principais desafios é melhorar a fluidez do trânsito em bairros como Icaraí. Mesmo assim, em Niterói, o futuro já começou.
Tão perto, tão longe
As diferenças na segurança e no mercado imobiliário
Metro quadrado mais caro para compra
R$ 26 055,00 (Leblon, Rio)
R$ 12 105,00 (Camboinhas, Niterói)
Metro quadrado mais caro para locação
R$ 120,10 (Leblon, Rio)
R$ 54,00 (Piratininga, Niterói)
Roubo de celular
1272 casos (Rio)
19 casos (Niterói)
Apreensão de drogas
272 casos (Rio)
37 casos (Niterói)
Letalidade Violenta
134 casos (Rio)
10 casos (Niterói)







