Na contramão da machosfera, discurso de ódio entra no centro do debate
Com o avanço da misoginia on-line, eventos como Rio2C e Masculinidades ampliam reflexão sobre violência contra mulheres e novos modelos de homem
Em 22 de abril, uma menina de 12 anos foi estuprada por oito menores em Campo Grande, na Zona Oeste carioca, após ser atraída pelo namorado à casa dele — bárbaro ato filmado do começo ao fim. Um dos envolvidos chegou a vender as imagens pela internet por 5 reais. A denúncia só seria registrada semanas depois, no último dia 13, porque a garota teve vergonha de falar à família sobre a crueldade da qual foi alvo. Mais do que um crime brutal, o caso joga luz sobre um ambiente digital em que a exposição da vítima, o desprezo pelas mulheres e a glorificação da violência vem se naturalizando, sobretudo entre adolescentes. Não por acaso, o debate sobre masculinidade ganhou urgência e será abordado em painéis diversos durante o Rio2C, maior evento de criatividade da América Latina, entre 26 e 31 de maio, na Cidade das Artes. “A ideia é trazer à mesa novos caminhos para as narrativas masculinas no cinema, na TV e no entretenimento”, explica Rafael Lazarini, CEO do mega encontro. “Estamos fazendo uma provocação aos criadores repensarem o impacto de suas obras”, diz. Entre os destaques da programação está o painel “I Don’t Wanna Be a Macho Man”: Masculinidades em Cena, que reúne, em 31 de maio, os atores Eduardo Moscovis e Ícaro Silva e o jornalista Ismael dos Anjos para discutir os nocivos modelos que hoje reverberam especialmente nas redes.
Nos últimos anos, a chamada machosfera, comunidade on-line que propaga a dominação masculina e o ódio à ala feminina, ganhou mais adeptos, configurando uma marcha a ré em relação ao conjunto de conquistas que afasta a sociedade da intolerância e do preconceito. O relatório “Aprenda a evitar esse tipo de mulher”: estratégias discursivas e monetização da misoginia no YouTube, do NetLab da UFRJ, identificou em 2024 nada menos que 137 canais veiculando conteúdo que dava voz ao ódio às mulheres no Brasil. Uma atualização do estudo, divulgada em março, mostra que 123 seguem ativos e operantes na plataforma. O discreto recuo, porém, não significa nem de longe que o fenômeno tenha perdido impulso: o número de inscritos nesse sombrio universo, afinal, subiu de 18,5 milhões para 23 milhões, e os vídeos publicados saltaram de 105 000 para 130 000. “Influenciadores têm lucrado com essas manifestações, cooptando jovens muitas vezes fragilizados, em crise de identidade”, observa a psicóloga Valeska Zanello, da Universidade de Brasília e referência em saúde mental e gênero, que enfatiza: a recém aprovada lei de criminalização da misoginia deve barrar toda e qualquer iniciativa de enquadrar esse tipo de absurdo no escaninho da liberdade de expressão.
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O raio de influência dessa crescente turma que compõe a machosfera extravasa, e muito, as telas. Já está bem estabelecido o elo entre a circulação de conteúdos misóginos e episódios de violência praticados por jovens contra mulheres. Em março, um dos acusados do estupro coletivo em Copacabana, Vitor Hugo Oliveira Simonin, então com 18 anos, ao ser preso, chegou à delegacia vestindo uma blusa com os dizeres regret nothing (não se arrependa de nada, em inglês), lema do influenciador britânico Andrew Tate, réu por estupro, tráfico humano e exploração sexual de menores.
No estado do Rio, de 2021 a 2025, o rol de adolescentes apontados como autores de crimes sexuais engrossou 93%. Só em 2025, 832 menores de 18 anos se tornaram suspeitos de infrações análogas a abusos sexuais — na maior parte das vezes, as vítimas eram meninas. Os especialistas afirmam que o crescimento de discursos misóginos é uma espécie de backlash (reação forte) ao avanço das mulheres na última década — a lei do feminicídio é de 2015, por exemplo — e que vigora um abismo entre os gêneros.
“Os jovens estão sendo criados do mesmo jeito que as gerações anteriores, mas têm de lidar com garotas que não aceitam certos comportamentos”, observa Ismael dos Anjos, 38 anos, jornalista e coordenador do documentário O Silêncio dos Homens, realizado a partir de uma pesquisa que ouviu 47000 deles, disponível no YouTube.
Embora sob um verniz diferente, causou polêmica o anúncio do ator Juliano Cazarré, 45 anos, de que estará à frente de um encontro voltado para a banda masculina chamado O Farol e a Forja. Segundo ele, a ideia é “fortalecer homens enfraquecidos”.
O projeto gerou reações negativas de colegas do meio artístico, como Marjorie Estiano, Elisa Lucinda, Claudia Abreu e Paulo Betti, mas também recebeu o apoio de cantoras como Claudia Leitte e Luiza Possi. A VEJA RIO, Cazarré afirmou: “Nós queremos formar homens melhores”. Ecoando a crença da machosfera de que elas oprimem eles, o ator chegou a declarar em entrevista recente que “mais mulheres mataram homens do que homens assassinaram mulheres”. A afirmação foi divulgada em vídeo publicado no TikTok no ano passado e já desmentida pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Para o publicitário Pedro de Figueiredo, 39 anos, fundador do projeto Memoh (esse para homens com o objetivo de promover a equidade de gênero), movimentos com viés religioso como Legendários e o próprio O Farol e a Forja dão nova roupagem a um problema antigo. “O que se vê é só uma atualização do mecanismo para continuar aproveitando o lugar de privilégio masculino”, pontua o publicitário.

Se a internet é um ambiente no qual se difundem ideologias que pregam o retorno a papéis de gênero do passado, ela tem sido, em paralelo, palco para homens que buscam encontrar outras formas de existir, atentos ao salutar salto das mulheres em décadas recentes. Influenciadores como Thiago Oliveira, do perfil Homem Sem Tabu (@hsemtabu), Guilherme Pallesi (@guipaoficial), o carioca Thiago Queiroz (@thiagoqueiroz) e o fluminense Sergio Carolino (@sergiocarolino) provocam reflexões sobre temas como masculinidade e paternidade, expondo suas dúvidas e vulnerabilidades. Para além das redes, iniciativas como o já citado projeto Memoh e o Instituto Mapear, ambos do Rio, atuam realizando palestras e consultorias sobre o tema, além de estimular diálogos e até uma “reeducação masculina”, por meio dos chamados grupos reflexivos. No Rio2C, o assunto ainda estará presente nas rodas O Paradoxo do Fracasso, do neurocientista Andrei Mayer, e O Amor Está no Ar: a Nova Comédia Romântica, com a atriz Eliane Giardini e outras convidadas. No dia 29, será a vez do Festival Masculinidades, parte do MenCare Changemaker Summit, encontro internacional dedicado à discussão da igualdade de gênero e do combate à violência contra as mulheres.
Não por acaso, todo esse debate vem incentivando uma releitura de obras de outros tempos. Ao reprisar tramas antigas, a Globo já fez uso de alertas de gatilho, avisando que o conteúdo a seguir seria de alguma delicadeza, e de cortes em cenas hoje vistas como ofensivas. Em Mulheres Apaixonadas, por exemplo, sequências de violência doméstica protagonizadas por Marcos (personagem de Dan Stulbach) contra Raquel (Helena Ranaldi) foram suavizadas na reprise de 2023, espelhando mudanças no olhar da sociedade sobre comportamentos antes naturalizados na TV aberta. O ator Eduardo Moscovis, 57 anos, que deu vida a um psicopata na série da Netflix Bom dia, Verônica, teve a oportunidade de encarnar esse novo homem recentemente na televisão e no cinema: ele interpretou Rogério na novela Três Graças e Oswaldo no longa Querido Mundo, de Miguel Falabella, apresentado em festivais. “É importante, na dramaturgia, principalmente na TV aberta, criar papéis masculinos éticos e potentes, que se sustentem na boa convivência social, nessa visão equilibrada, delicada e atenta”, defende.
Na contramão do bom senso, a popularização de valores misóginos entre os mais jovens é um fator de justificada preocupação mundo afora. De acordo com uma pesquisa da Ipsos com a universidade Kingís College London, divulgada em março, em que foram ouvidas 23000 pessoas de 29 países, incluindo o Brasil, os homens integrantes da geração Z, nascidos entre 1997 e 2012, foram os que mostraram maior aceitação a valores retrógrados: 31% acreditam inclusive que a esposa deve “obedecer sempre ao marido”. Por isso, especialistas alertam que é necessário agir desde cedo e em várias frentes. “Os pais precisam dedicar tempo aos filhos adolescentes, vigiando o que acessam na internet, prestando atenção neles e criando momentos de reflexão em casa”, aconselha a psicóloga Valeska Zanello. Por outro lado, a sociedade deve agitar bandeira por mais políticas públicas, como o controle do uso de redes sociais (em 2025, a Austrália foi o primeiro país a impedir seu uso por menores de 16 anos, obrigando as plataformas a bloqueá-los sob risco de multa milionária) e o banimento de conteúdo movido a ódio, além de cobrar o combate ao machismo no ambiente escolar, previsto na Lei Maria da Penha. “A escola é onde o Estado brasileiro tem uma grande chance de fazer a transformação, ensinando sobre igualdade, respeito às diferenças e combate às hierarquias”, lembra Valeska Zanello. Contra o retrocesso, informação e diálogo são sempre armas potentes. É hora de usá-las.
Influencers do atraso
Os números por trás da radicalização masculina nas redes
23 milhões de brasileiros inscritos em canais com conteúdos misóginos no YouTube
130000 vídeos publicados nesses canais
31% dos homens da geração Z em todo o mundo acham que esposas devem obedecer aos maridos
93% de aumento no grupo de adolescentes do Estado apontados como autores em registros de crimes sexuais
832 menores de 18 anos suspeitos de infrações análogas a abusos sexuais no Rio em 2025
Os códigos da misoginia
Termos usados por quem prega a superioridade masculina
Machosfera. Universo on-line formado por fóruns, canais no YouTube, grupos de WhatsApp e perfis em redes sociais que disseminam ressentimento masculino e discursos de ódio contra as mulheres.
Incel. Do inglês Involuntary Celibates, ou celibatários involuntários. A comunidade reúne homens que sentem raiva por não conseguirem parceiras sexuais e/ou amorosas e culpam as mulheres por isso.
MGTOW. Sigla para Men Going Their Own Way (Homens seguindo seu próprio caminho). Grupo que defende que homens evitem relacionamentos sérios por acreditar que a sociedade favorece as mulheres. Prega uma vida masculina independente da presença feminina.
PUA. Sigla de Pick-Up Artists, em tradução livre artistas da sedução. Homens que se dizem especializados em técnicas e estratégias de conquista. Muitos desses conteúdos incentivam manipulação emocional, humilhação e violência psicológica.
RedPill. O conceito tem origem no filme Matrix (1999), em que o protagonista engole uma pílula vermelha que lhe dá consciência sobre o mundo. Na machosfera, são homens que acreditam ter “despertado” para uma suposta realidade em que as mulheres os exploram. Defendem o domínio masculino e a submissão feminina.
Gênero em pauta
Discussões para acompanhar na cidade
Festival Masculinidades. Parte integrante do MenCare Changemaker Summit, o evento aberto ao público terá palestrantes como Ailton Krenak, Rita von Hunty, padre Júlio Lancellotti, babalaô Ivanir dos Santos e pastor Henrique Vieira, além de convidados internacionais: o músico e ator Jordan Stephens, o poeta Sam Browne, o ator e produtor-executivo Adjani Salmon e o artista Kay Rufai.
Museu do Amanhã e Museu de Arte do Rio (MAR), Praça Mauá. 29 de maio, 9h30/17h30. Grátis. Ingressos pelo sympla.com.br.
Rio2C. “I Don’t Wanna Be a Macho Man”: Masculinidades em Cena, com Eduardo Moscovis, Ícaro Silva e Ismael dos Anjos, acontece no dia 31 de maio, às 14h. O Paradoxo do Fracasso, com Andrei Mayer, será em 30 de maio, às 16h45.
O Amor Está no Ar: a Nova Comédia Romântica, com Eliane Giardini, Clarisse Goulart, Renata Sofia e Anita Barbosa, ganha o palco em 28 de maio, às 10h. Cidade das Artes, Barra. A partir de R$ 600,00. Ingressos pelo https://www.rio2c.com/tickets.





