Despoluir a Baía não é possível sem ciência e pressão social

Com resultados já mensuráveis, estudos inovadores da UFRJ mostram que a solução passa por estudos aplicados, monitoramento contínuo e mudança de comportamento

Por Renata Busch 13 fev 2026, 07h50
Panoramic view of Rio de Janeiro.
Situação preocupante: só em janeiro 586 toneladas de resíduos foram retiradas do ecossistema  (Gonzalo Azumendi/Gettyimages/Divulgação)
Continua após publicidade
Despoluir a Baía não é possível sem ciência e pressão social Priorizar nos meus resultados Google

Margeada por sete municípios – Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Magé, Guapimirim, Itaboraí, São Gonçalo e Niterói – que abrigam em torno de dez milhões de habitantes, a Baía de Guanabara não recebe só água dos 35 rios que compõem a sua bacia hidrográfica, mas um considerável volume de esgoto e lixo.

Só em janeiro, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) recolheu 586 toneladas de resíduos – principalmente de origem doméstica – nas dezessete ecobarreiras, impedindo que alcançassem a baía. Instalada às margens desse ecossistema, a Universidade Federal Situação preocupante: só em janeiro 586 toneladas de resíduos foram retiradas do ecossistema do Rio de Janeiro (UFRJ) tem contribuído para a busca de soluções, saídas dos seus laboratórios, para combater a poluição, que impacta a biodiversidade do estuário que sustenta atividades portuárias, pesqueiras e turísticas.

“São muitas as linhas de pesquisas desenvolvidas. A partir de diagnósticos precisos e iniciativas inovadoras, a UFRJ contribui para a recuperação da Baía de Guanabara e reforça a importância do investimento contínuo para um futuro sustentável no Rio”, avalia Daniela Uziel, diretora da Inova UFRJ, núcleo de inovação tecnológica da instituição.

Ao longo de um ano, experimentos envolvendo o cultivo de algas em seis tanques de 1 000 litros conseguiu reduzir, em praticamente 100%, a carga de esgoto presente nas águas da Guanabara. O próximo passo será posicionar uma balsa perto de um laboratório, após a concessão das devidas licenças ambientais, para que o estudo seja feito diretamente na baía.

“O que mata a vida na água é a poluição líquida, a mais difícil de se resolver. E as algas solucionaram esse problema”, comemora a professora Anita Valle, coordenadora do Laboratório de Bioquímica e Biotecnologia de Algas. Pesquisadores levaram também para os microscópios um conjunto de microrganismos cuidadosamente selecionados para formar um bioproduto capaz de degradar compostos do petróleo e, ao mesmo tempo, estimular o crescimento das plantas de manguezal. “Ao acelerar o processo biológico, conseguimos reduzir a contaminação, melhorar a qualidade do sedimento e criar condições para que o mangue se regenere mais rapidamente”, afirma Flávia Lima do Carmo, responsável pelo projeto.

Continua após a publicidade
Flavia Carmo credito Leandro Joras UFRJ.jpg
Flávia Lima do Carmo: Análise de um bioproduto capaz de degradar compostos do petróleo (Leandro Joras/UFRJ/Divulgação)

A tecnologia, considerada de baixo custo, escalável e ambientalmente sustentável, está em fase de desenvolvimento científico e validação tecnológica. No segundo semestre, entra em operação a Plataforma Integrada de Monitoramento e Observação Meteoceanográfica, criada e desenvolvida por especialistas do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce), da Coppe/UFRJ, em parceria com a Secretaria estadual de Ambiente e Sustentabilidade (SEAS/RJ).

Continua após a publicidade

A intenção é analisar, diariamente, o derramamento de óleo, saídas de esgoto clandestino, e as condições oceanográficas e meteorológicas da Baía de Guanabara. “Faremos também uma caracterização social e econômica dos territórios do entorno, a fim de gerar informações sobre vulnerabilidade socioambiental associada às populações, criando mais um mecanismo de suporte a políticas públicas”, descortina o oceanógrafo e professor da UFRJ Luiz Paulo Assad.

Luiz Paulo Assad credito Leandro Joras UFRJ.jpg
Luiz Paulo Assad: Professor vai monitorar derramamento de óleo e saídas de esgoto clandestinas (Leandro Joras/UFRJ/Divulgação)
Continua após a publicidade

A organização sem fins lucrativos BV Rio também se debruça sobre o ecossistema: atualmente, vinte pescadores ó a categoria profissional mais afetada pela poluição do mar ó participam do programa Pescando Resíduos. “Duas vezes por semana, eles saem para retirar lixo. O que pode ser reciclado vai para uma cooperativa e o que não pode, segue para um aterro”, explica Pedro Succar, especialista em economia circular da BV Rio.

Iniciativas como essas, além do projeto de despoluição capitaneado pelo governo do estado, são fundamentais, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. E tudo começa pela consciência: nem empresas nem a população podem despejar dejetos neste ecossistema.

pescadores na baía credito Jonas Feitosa.jpeg
Pescando Resíduos: Projeto na Baía de Guanabara busca por objetos que poluem a água (Jonas Feitosa/Divulgação)
Continua após a publicidade

Maré de sujeira

Objetos encontrados pelo projeto Pescando Resíduos datam de até 50 anos atrás 

Saco de leite: Década de 1970

Continua após a publicidade
saco de leite dos anos 1960 credito Juliana Miranda.jpeg
Saco de leite: Objeto da década de 70 e encontrado na baía (Juliana Miranda/Divulgação)

TV De Tubo: Anos 1980

TV de tubo encontrada na baía credito Juliana Miranda.jpeg
TV de tubo: Aparelho de 1980 foi achado pelos pescadores (Juliana Miranda/Divulgação)

Garrafa de refrigerante: Anos 1990 

refrigerante crush credito Juliana Miranda.jpeg
Refrigerante Crush: Projeto encontrou garrafa dos anos 90 (Juliana Miranda/Divulgação)

 

Publicidade

Essa é uma matéria fechada para assinantes.
Se você já é assinante clique aqui para ter acesso a esse e outros conteúdos de jornalismo de qualidade.

Domine o fato. Confie na fonte.
15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas

15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

Revista em Casa + Digital Completo
Impressa + Digital
Revista em Casa + Digital Completo

Informação de qualidade e confiável, a apenas um clique.
Assinando Veja você recebe semanalmente Veja Rio* e tem acesso ilimitado ao site e às edições digitais nos aplicativos de Veja, Veja SP, Veja Rio, Veja Saúde, Claudia, Superinteressante, Quatro Rodas, Você SA e Você RH.
*Assinantes da cidade do RJ

A partir de R$ 29,90/mês