Despoluir a Baía não é possível sem ciência e pressão social
Com resultados já mensuráveis, estudos inovadores da UFRJ mostram que a solução passa por estudos aplicados, monitoramento contínuo e mudança de comportamento
Margeada por sete municípios – Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Magé, Guapimirim, Itaboraí, São Gonçalo e Niterói – que abrigam em torno de dez milhões de habitantes, a Baía de Guanabara não recebe só água dos 35 rios que compõem a sua bacia hidrográfica, mas um considerável volume de esgoto e lixo.
Só em janeiro, o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) recolheu 586 toneladas de resíduos – principalmente de origem doméstica – nas dezessete ecobarreiras, impedindo que alcançassem a baía. Instalada às margens desse ecossistema, a Universidade Federal Situação preocupante: só em janeiro 586 toneladas de resíduos foram retiradas do ecossistema do Rio de Janeiro (UFRJ) tem contribuído para a busca de soluções, saídas dos seus laboratórios, para combater a poluição, que impacta a biodiversidade do estuário que sustenta atividades portuárias, pesqueiras e turísticas.
“São muitas as linhas de pesquisas desenvolvidas. A partir de diagnósticos precisos e iniciativas inovadoras, a UFRJ contribui para a recuperação da Baía de Guanabara e reforça a importância do investimento contínuo para um futuro sustentável no Rio”, avalia Daniela Uziel, diretora da Inova UFRJ, núcleo de inovação tecnológica da instituição.
Ao longo de um ano, experimentos envolvendo o cultivo de algas em seis tanques de 1 000 litros conseguiu reduzir, em praticamente 100%, a carga de esgoto presente nas águas da Guanabara. O próximo passo será posicionar uma balsa perto de um laboratório, após a concessão das devidas licenças ambientais, para que o estudo seja feito diretamente na baía.
“O que mata a vida na água é a poluição líquida, a mais difícil de se resolver. E as algas solucionaram esse problema”, comemora a professora Anita Valle, coordenadora do Laboratório de Bioquímica e Biotecnologia de Algas. Pesquisadores levaram também para os microscópios um conjunto de microrganismos cuidadosamente selecionados para formar um bioproduto capaz de degradar compostos do petróleo e, ao mesmo tempo, estimular o crescimento das plantas de manguezal. “Ao acelerar o processo biológico, conseguimos reduzir a contaminação, melhorar a qualidade do sedimento e criar condições para que o mangue se regenere mais rapidamente”, afirma Flávia Lima do Carmo, responsável pelo projeto.
A tecnologia, considerada de baixo custo, escalável e ambientalmente sustentável, está em fase de desenvolvimento científico e validação tecnológica. No segundo semestre, entra em operação a Plataforma Integrada de Monitoramento e Observação Meteoceanográfica, criada e desenvolvida por especialistas do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce), da Coppe/UFRJ, em parceria com a Secretaria estadual de Ambiente e Sustentabilidade (SEAS/RJ).
A intenção é analisar, diariamente, o derramamento de óleo, saídas de esgoto clandestino, e as condições oceanográficas e meteorológicas da Baía de Guanabara. “Faremos também uma caracterização social e econômica dos territórios do entorno, a fim de gerar informações sobre vulnerabilidade socioambiental associada às populações, criando mais um mecanismo de suporte a políticas públicas”, descortina o oceanógrafo e professor da UFRJ Luiz Paulo Assad.
A organização sem fins lucrativos BV Rio também se debruça sobre o ecossistema: atualmente, vinte pescadores ó a categoria profissional mais afetada pela poluição do mar ó participam do programa Pescando Resíduos. “Duas vezes por semana, eles saem para retirar lixo. O que pode ser reciclado vai para uma cooperativa e o que não pode, segue para um aterro”, explica Pedro Succar, especialista em economia circular da BV Rio.
Iniciativas como essas, além do projeto de despoluição capitaneado pelo governo do estado, são fundamentais, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. E tudo começa pela consciência: nem empresas nem a população podem despejar dejetos neste ecossistema.
Maré de sujeira
Objetos encontrados pelo projeto Pescando Resíduos datam de até 50 anos atrás
Saco de leite: Década de 1970
TV De Tubo: Anos 1980
Garrafa de refrigerante: Anos 1990





