No Rio, desenvolvimento e conservação caminham na mesma direção
Negócio do futuro: do luxo imobiliário às hortas comunitárias, passando por startups e florestas preservadas, agenda ambiental impulsiona uma nova economia
Durante muito tempo, falar sobre sustentabilidade no Rio era quase sinônimo de ativismo, filantropia ou marketing verde. Pois a lógica se inverteu — e isso é bom para o planeta e para os negócios. Preservar passou a gerar receita, atrair investidores e abrir mercados. Em um mundo pressionado pela crise climática, a chamada economia verde deixou de ser mais um nicho de cifras acanhadas em meio a tantos para se transformar em uma das grandes fronteiras de crescimento do século XXI. Segundo o Fórum Econômico Mundial, o setor já movimenta 5 trilhões de dólares a cada ano, e avança. Empresas comprometidas com a transição sustentável tendem a escalar com o dobro da velocidade e podem valer até 15% a mais, refletindo a confiança dos investidores.
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Nessa dinâmica, o Rio larga em posição privilegiada. O conhecimento técnico acumulado em décadas de protagonismo no setor de óleo e gás desponta hoje como ativo estratégico para a construção de uma matriz de baixo carbono — ou seja, um modelo que reduz a dependência de combustíveis fósseis e prioriza fontes e tecnologias menos poluentes. “Poucas regiões do país concentram simultaneamente infraestrutura logística, centros de pesquisa, universidades de referência, indústrias e capacidade de investimento necessários para a transição energética”, avalia Carlos Eduardo Canejo, professor do mestrado em ciências do meio ambiente da Universidade Veiga de Almeida.
A energia solar, inclusive, é uma das fontes que mais se expandem no estado. “O Rio já ultrapassou 144 000 sistemas instalados, principalmente em telhados e pequenos terrenos”, aponta Hudson Mendonça, CEO do Energy Summit, principal evento global de inovação e empreendedorismo em energia e sustentabilidade, realizado em parceria com o prestigiado MIT, que ocupa a Marina da Glória de terça (23) a quinta (25). As florestas também ganham protagonismo como ativo econômico, com a emissão de títulos para quem as preserva. O potencial de negócios a ser explorado é vasto — e os exemplos que florescem no Rio mostram que desenvolvimento e conservação estão, enfim, caminhando na mesma direção.
O concreto da sustentabilidade
O mercado imobiliário já entendeu que as boas práticas geram economia em todas as pontas do negócio
Viver no meio da mata, numa casa ampla e indevassável, a uma distância considerável dos vizinhos. Essa é a proposta do exclusivo Opy Ubá, condomínio em fase de licenciamento na Gávea, Zona Sul. Com catorze residências distribuídas em terrenos de até 1 500 metros quadrados e VGV (valor geral de vendas) estimado em 140 milhões de reais, o empreendimento privilegia a madeira engenheirada, uma avançada tecnologia ecológica que reduz desperdícios, acelera a obra e pode diminuir os custos ao longo do processo. “O projeto prevê beirais para as janelas serem escancaradas mesmo sob chuva torrencial, permitindo a ventilação natural”, conta Miguel Pinto Guimarães, arquiteto à frente do projeto, ao lado de Sergio Conde Caldas e João Sousa Machado.
Habitações populares também podem ser menos poluentes e representar alívio para o bolso do morador, a exemplo do condomínio Comunidade do Aço, em Santa Cruz, Zona Oeste. Os 44 edifícios do complexo conquistaram a certificação preliminar Edge (Excellence in Design for Greater Efficiencies) no nível avançado. “Durante o processo para conquistar o selo, verificou-se redução de 64% no consumo de energia, 37% na demanda por água e 39% menos carbono incorporado aos materiais de construção”, observa Vinicius Benevides, diretor operacional da Dimensional Engenharia. Em São Gonçalo, uma fazenda de energia solar vai abastecer quatro prédios de Niterói a partir de 2027. “A conta de luz será até 20% mais barata em relação às convencionais”, diz o CEO da Habitare, Roberto Coutinho, que capitaneia a empreitada. No segmento corporativo de alto padrão, sustentabilidade significa competitividade. “Os imóveis tendem a preservar valor a longo prazo e são mais atrativos para locatários qualificados”, elenca Ana Durigon, gerente de sustentabilidade da Brookfield Properties, que tem o Ventura Corporate Towers, marco da arquitetura verde, no portfólio.
Mercado frutífero
Os números da economia verde no Rio
31 startups verdes atuam exclusivamente com soluções sustentáveis no ecossistema da inovação, movimentando 270 milhões de reais por ano
144000 sistemas de energia solar instalados, principalmente em telhados e pequenos terrenos
28549 veículos elétricos compõem a frota fluminense, impulsionando a expansão da infraestrutura de recarga
228000 hectares de vegetação nativa de floresta podem entrar no mercado de Cotas de reserva Ambiental
20000 empreendedores do agro foram mapeados nas favelas fluminenses
18000 empregos poderiam ser gerados com a restauração de 46000 hectares de áreas degradadas da Mata Atlântica
Em busca de aceleração
Grandes empresas buscam soluções para os desafios reais, e as startups que resolvem esses — e outros — problemas de forma criativa recebem milhões em investimentos
No campo da inovação carioca, 31 startups atuam exclusivamente no nicho da sustentabilidade e somam um faturamento aproximado de 270 milhões de reais anuais. “O tema, hoje, é uma agenda transversal, que diz respeito a todas as startups. Grandes empresas de energia e infraestrutura buscam soluções para desafios reais”, atesta o CEO do Porto Maravalley, Daniel Barros. Uma das aceleradas no hub de inovação carioca, a Delta Entech, fundada há três anos, recebeu 1 milhão de reais de investimento para criar soluções rápidas para acidentes ambientais. “Montamos dois tipos de filtro capazes de remover óleo, metais, cloro, bactérias e protozoários da água. Ainda há outro, usado em chaminés industriais para eliminar gases tóxicos do ar”, detalha a fundadora da empresa, Fabíola Maranhão, nascida em Duque de Caxias.
Consolidado há quase uma década na gestão de resíduos, o Minha Coleta nasceu na Baixada Fluminense e expandiu a atuação para 22 estados. Desde a criação da empresa, 250000 toneladas de resíduos foram processadas — o equivalente a cerca de 100 piscinas olímpicas cheias — e, recentemente, o projeto recebeu aporte de 1 milhão de reais para acelerar novas tecnologias de economia circular. “A plataforma integra geradores de resíduos, operadores de coleta, cooperativas, recicladores e indústrias”, diz Eduardo Nascimento, CEO do Minha Coleta.
A transição energética é para já
A frota de carros elétricos cresce exponencialmente e a economia para os motoristas pode fazer a diferença no fim do mês
Com sede na capital fluminense, a Axia Energia (antiga Eletrobras, privatizada em 2022) vendeu sua última usina térmica no ano passado e virou a maior empresa de geração de energia 100% renovável do Hemisfério Sul. “Buscamos retornos consistentes para os acionistas e para a sociedade por meio de projetos vinculados a uma economia de baixo carbono”, pontua Camila Gualda, vice-presidente de governança e sustentabilidade. A companhia também é parceira da prefeitura no Rio AI City — a Elea já anunciou aporte de 550 milhões de dólares no projeto —, que prevê a implantação de um complexo de data centers com foco em inteligência artificial e terá o desafio de suprir a demanda para um consumo elevado de energia elétrica a partir de 2028.
Em outra frente, a empresa abastece um eletroposto — para recarga de carros elétricos — na Cinelândia. Graças a esse ponto, 2 100 veículos trafegam mensalmente com fonte renovável eólica. “Para um motorista de aplicativo, a economia pode chegar a 4 000 reais no fim do mês”, avalia Pedro Schaan, CEO da Zletric, responsável pela operação. Ele acrescenta que a tendência é que mais pontos de recarga sejam abertos nos próximos meses, não só em prédios residenciais, mas em áreas de grande circulação. “Vai virar rotina, algo a ser feito enquanto o carioca está na academia ou no supermercado”, acredita. Hoje, 28 549 veículos elétricos circulam pelo estado — número que cresce mês após mês.
Alto valor Agregado
Itens que iriam parar no lixo viram matéria-prima para a indústria da moda, conhecida por ser a que mais desperdiça no mundo, fazendo girar uma economia de milhões
Para saltar dos atuais 90 milhões de reais de faturamento para 120 milhões em 2027, a Fuel investe na produção de óculos sob demanda, evitando estoque, algo possível com as armações feitas de acetato de celulose, derivado da fibra de algodão reaproveitável. Da fábrica no Riachuelo, Zona Norte, sai parte dos produtos que abastecem setenta lojas em todo o país. “A sustentabilidade é a espinha dorsal da rede, tornando-se uma cadeia produtiva para termos um crescimento orgânico”, explica Miguel Zabotinsky, fundador da grife, com produção anual de aproximadamente 150000 peças.
Com faturamento de 26 milhões de reais nas quatro lojas em solo carioca, a Oficina Muda surgiu em 2015, quando Larissa Greven encontrou, num bazar, caixas com roupas que iriam para o lixo. Comprou tudo, deu nova cara às peças e, atualmente, vende 150 000 itens de upcycling por ano: “É possível ser estratégico, reduzir desperdícios e atrair investidores e parceiros”, enfatiza a fundadora. Na vertente slow fashion, a designer Denise Faertes fatura em média 200 000 reais por mês, o equivalente a um faturamento anual próximo de 2,4 milhões de reais, produzindo jaquetas, calças e casacos em seu ateliê em Laranjeiras a partir de fitas e sobras de tecidos. A seleta clientela se dispõe a pagar em torno de 10 000 por um modelito. “Tem alto valor agregado pela originalidade, exclusividade e por ser feito a mão”, detalha a estilista.
Não basta ser cinco estrelas
Seja no hostel boutique ou hotel de luxo de frente para a praia mais famosa do mundo, as práticas ecológicas atraem hóspedes dispostos a pagar mais
O Grand Hyatt, na Zona Sudoeste, investiu 25 milhões de reais numa série de ações, a começar pelo aquecimento da piscina com reaproveitamento de energia. A propriedade opera com 100% de fontes renováveis e o paisagismo, composto por espécies nativas, é irrigado com água de reúso. “É um bom negócio porque o retorno não está apenas na economia de recursos, mas na eficiência e na modernização”, contextualiza o diretor de operações Raphael Hoelz. Diminuir resíduos é outra bandeira verde na hotelaria carioca. “Além de evitar o desperdício, hotéis ecológicos atraem um público disposto a pagar tarifas mais altas”, relata Alfredo Lopes, presidente do HotéisRIO, sindicato da categoria. No Ipanema Inn e no Arpoador, localizados na Zona Sul, 92% do lixo é reciclado ou vira adubo — o equivalente a 75 toneladas de resíduos desviadas dos aterros sanitários por ano. “A produção própria de alimentos, como iogurtes e manteigas, foi fundamental na redução do uso de embalagens plásticas”, destaca Daniel Gorin, gerente-geral dos empreendimentos. A política é plástico zero no Santa Teresa MGallery, que usa sacos de papel até nas lixeiras. No Emiliano, 90% dos lençóis que seriam descartados passam por upcycling, transformando-se em pijamas. Parte da venda é revertida para a ONG Solar Meninos de Luz. Já o JW Marriott, também na Praia de Copacabana, cultiva no terraço as ervas que aparecem nos pratos. A possibilidade de ver tucanos no jardim é um dos atrativos para os hóspedes do Jo&Joe. “A equipe foi treinada para não deixar ninguém incomodar a fauna”, explica a gerente-geral do hostel boutique do Cosme Velho, Bianca Chaves. O empreendimento recebeu cerca de 40 000 hóspedes em 2025, muitos atraídos justamente pela experiência de imersão na Mata Atlântica.
Exemplos na palma da mão
Artistas e ativistas para seguir e se inteirar sobre a causa ambiental
Ney Matogrosso @neymatogrosso
Ativista reconhecido em prol da fauna, foi um dos primeiros a ter uma RPPN no estado, em 2010, em Saquarema.
Dira Paes @dirapaes
Nascida em Abaetetuba, no Pará, a atriz é uma conhecida defensora da Amazônia e dos povos originários. No mês passado, ela emprestou sua voz para a campanha Escute as Aves da Mata Atlântica, a fim de mobilizar a sociedade em defesa do bioma, um dos mais ameaçados do país.
Eva de Mello @evademello
A educadora ambiental pretende conscientizar os seguidores sobre as pegadas que os humanos largam no planeta. Em um dos vídeos, ela mostrou todas as embalagens de higiene bucal que guarda desde 2022, como um lembrete visual.
Marcos Palmeira @marcospalmeiraoficial
O ator é proprietário da fazenda Vale das Palmeiras, em Teresópolis, Região Serrana, referência em produção orgânica de hortaliças, frutas e laticínios. O filho de Zelito Viana disse a VEJA que o que falta para transformar a consciência das pessoas é educação e exemplos práticos para manter a floresta de pé.
Fe Cortez @fecortez
Fundadora do projeto Menos 1 Lixo, em uma década a ativista ambiental evitou que mais de 2 milhões de descartáveis virassem lixo. Ela é palestrante, escritora e mobilizadora social.
Giovanna Nader @giovannanader
A atriz e ativista criou o Projeto Gaveta, para incentivar a troca de roupas esquecidas no armário e apresenta o podcast O Tempo Virou, no qual recebe convidados para bate-papos descontraídos sobre conscientização ecológica.
A floresta não espera
Preservar a natureza é fundamental no contexto da emergência climática, mas também pode trazer compensação financeira
O médico carioca Bernardo Furrer, de 69 anos, comprou o primeiro terreno em Nova Friburgo, na Região Serrana, há 45 anos e logo se assustou com a ocupação desordenada no entorno. Virou, então, ativista ambiental e proprietário de duas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs), que somam 160 hectares preservados. Em novembro de 2025, ele foi a primeira pessoa no país a receber as Cotas de Reserva Ambiental (CRAs), títulos previstos no Código Florestal para compensar quem preserva além das exigências legais. “É um reconhecimento da sociedade e um incentivo para aqueles que ainda não protegem a natureza”, defende. No estado, a estimativa é de que até 228 000 hectares de vegetação nativa possam ingressar nesse mercado de compensação ambiental, movimentando 22,8 milhões de reais por ano. “Já a restauração de 46 000 hectares das Áreas de Preservação Permanente (APP) que foram degradadas pode gerar 18000 empregos”, relata Roberta Del Giudice, diretora de Florestas e Políticas Públicas da BVRio, bolsa de valores ambiental. Dependendo do estágio de recuperação, cada hectare restaurado pode capturar entre 50 e 200 toneladas de carbono por um ativo de alto valor. Para sensibilizar sobre o assunto, a TotalEnergies e o Instituto Moleque Mateiro mantêm o Floresta para Todos, e levam crianças e jovens para aprender sobre educação ambiental em meio à natureza.
Da favela vem a esperança
Projetos como o Hortas Cariocas e o Favela Agro provam que é possível dar vida nova a terrenos ociosos, implementando corredores de biodiversidade que geram empregos, reduzem o calor e fazem as pessoas comerem bem
Laranja-lima, mamão formosa e aipim. Esses são alguns dos alimentos cultivados na horta comunitária do Morro do 77, em Padre Miguel, Zona Oeste. A variedade comprova que limpar o espaço onde até 2023 funcionou um lixão faz diferença para a população. “São 80 quilos de frutas e 200 hortaliças produzidas por três moradores, remunerados, da comunidade”, afirma Mauro Ferreira, educador ambiental e supervisor do local, integrante do programa Hortas Cariocas, mantido há duas décadas pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente. “Trabalhamos com o plantio de alimentos orgânicos, gerando emprego e renda para a população. Além disso, terrenos ociosos são transformados em corredores de biodiversidade, amenizando o calor”, destaca Lívia Galdino, titular da pasta. Hoje, o projeto reúne 82 unidades espalhadas pela cidade, gera renda para 305 agricultores e produz 72 toneladas de alimentos por ano. Para ampliar o potencial que vem da terra, a Central Única das Favelas (Cufa) e o Favela Holding puseram de pé, no ano passado, a plataforma Favela Agro, para unir grandes e pequenos produtores. “Mapeamos 20 000 empreendedores do agro nas favelas fluminenses. A ideia é que possam aprender com quem já tem mais conhecimento e tecnologia e aplicar no dia a dia”, descortina o CEO Marcus Vinicius Athayde. O primeiro evento do Favela Agro está previsto para 2027. Mais do que produzir alimentos, iniciativas como essas mostram que as soluções para uma cidade mais resiliente podem brotar justamente dos territórios historicamente negligenciados.
Fórum VEJA Rio + Verde é uma realização da Editora Abril com apoio institucional da Prefeitura de Araruama e apoio da Prefeitura do Rio de Janeiro / Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima.





