Após desabamento, Bar do Zé entra na Justiça por posse de terreno na Glória
Disputa por terreno ao lado do estabelecimento ganhou força após desabamento que mantém o tradicional ponto de encontro fechado desde março
Interditado pela Defesa Civil nesta segunda (22) após um novo desabamento registrado na última semana, o Bar do Zé, tradicional ponto de encontro da Glória há mais de quatro décadas, enfrenta uma batalha judicial para tentar retomar suas atividades. A família de José Anselmo Filho, o Seu Zé, busca na Justiça o reconhecimento da posse de um terreno vizinho, na Rua Barão de Guaratiba 47, que considera essencial para a retirada dos escombros e a reconstrução do estabelecimento, fechado desde março.
Segundo a família, o terreno é utilizado há mais de 44 anos como área de apoio ao funcionamento do bar, localizado no número 49 da mesma rua. O espaço armazenava mesas, cadeiras, garrafas e outros materiais necessários à operação do negócio. Moradores, clientes e frequentadores do bairro iniciaram um abaixo-assinado em apoio à família, afirmando reconhecer Seu Zé e sua esposa, Maria Ivonete Ribeiro Anselmo, a Dona Nete, como possuidores históricos da área. “Meus pais estão no bar desde 1982, mas o terreno já era utilizado dessa forma pelo comerciante anterior, o Seu Rocha. Nunca foi um espaço residencial”, afirma a jornalista Mércia Ribeiro, uma das filhas do casal.
Segundo Mércia, a situação começou a se agravar após uma mulher chamada Cláudia, que alega que o terreno seria quintal de sua casa, começou a retirar árvores e vegetação existentes no local. “Numa madrugada, ela colocou um portão com cadeados e começou a arrancar o abacateiro e outras árvores. Três dias depois da retirada da vegetação e dos pedregulhos, a parede sofreu um forte impacto lateral e acabou ruindo”, relata. O conflito ganhou novos contornos após esse desabamento, ocorrido em 27 de março de 2026. Os proprietários do bar sustentam que essas obras comprometeram a estabilidade estrutural do imóvel vizinho e contribuíram para o colapso de parte da construção. Engenheiros contratados pela família apontaram riscos na área e recomendaram medidas de segurança.
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A preocupação aumentou nos últimos dias após um novo desabamento registrado na última quinta-feira (18). De acordo com a família, o muro existente no terreno apresenta risco de tombamento. “Chamamos a Defesa Civil porque o muro pode cair. Na sexta-feira à noite, o Corpo de Bombeiros chegou a isolar a área por causa do risco, mas o isolamento acabou sendo retirado depois”, afirma Mércia. Nesta segunda (22), a Defesa Civil também avaliou e interditou o local.
A família informa que está buscando uma liminar para obter acesso ao terreno e iniciar a retirada de cerca de 300 metros cúbicos de entulho. “Precisamos entrar na área para remover os escombros com acompanhamento técnico e recuperar toda a lateral do bar, da fachada até a região dos banheiros. Sem isso, não há como começar a reconstrução”, diz.
A disputa envolve ainda ações judiciais movidas por outras pessoas que também reivindicam a posse do terreno. Além de Claudia, um homem identificado como J. Clarismar, conhecido como Mazinho, ingressou na Justiça alegando exercer posse sobre o espaço. A família do Bar do Zé contesta as duas reivindicações e afirma que nenhum dos autores teria mantido ou utilizado o terreno ao longo dos anos.
Desde o desabamento, o bar permanece fechado. Equipamentos, móveis e mercadorias continuam entre os escombros, enquanto a família acumula prejuízos financeiros e enfrenta incertezas sobre o futuro do negócio. Segundo os proprietários, a definição judicial sobre a posse do terreno é considerada essencial para viabilizar a retirada segura dos destroços e a elaboração de um projeto de recuperação do imóvel.
Outro episódio que gerou indignação entre familiares e apoiadores foi a pintura de um muro onde havia um grafite em homenagem a Seu Zé. A intervenção apagou uma obra criada por artistas locais e vista por frequentadores como símbolo da ligação do comerciante com a rua e com a comunidade da Glória.
Por estar localizado em uma Área de Proteção do Ambiente Cultural (APAC), qualquer intervenção no imóvel depende de cuidados técnicos e autorizações específicas dos órgãos de preservação. A família afirma que pretende reconstruir o estabelecimento, preservar sua história e garantir a continuidade de um dos bares mais conhecidos da região.





