Uma década de mergulhos! Descubra os bastidores do AquaRio
O que começou como um projeto desacreditado virou uma atração de milhões de visitantes, com pesquisa científica e conservação da vida marinha
“Um ato de loucura”, é como Pablo Morbis, CEO do Grupo Cataratas, definia a construção de um aquário no Rio de Janeiro. Antes de se tornar realidade, em 2016, o burburinho corria por rodas de biólogos marinhos na cidade — mas a maioria deles recebia o projeto com desconfiança.
“Nem minha mulher e nem o antigo prefeito, Eduardo Paes, acreditavam”, conta Marcelo Szpilman, idealizador, fundador e diretor-presidente do AquaRio.
Contra todas as apostas, no entanto, o biólogo conseguiu um financiamento milionário com o Grupo Cataratas e a concessão de um velho frigorífico abandonado de 26 000 metros quadrados na Zona Portuária, que começava a receber atenção pela promessa de outra incerta iniciativa: o Porto Maravilha.
Durante as obras, que duraram quatro anos, os recursos iam majoritariamente para a construção e, com isso, a equipe ficava reduzida. “Foi muito sofrido. Eu e o Matheus Félix, atual biólogo-chefe, carregamos nas costas todas as caixas d’água, canos e filtros”, relembra o diretor-técnico do AquaRio e do AquaFoz, Rafael Franco.
O esforço deu resultado e, em 2015, as primeiras pesquisas, feitas em parceria com a UFRJ, começaram a tomar forma e, em 9 de novembro de 2016, o AquaRio abriu as portas.
Mas, junto da consolidação do sonho, veio outro obstáculo: manter saudáveis 10 000 animais de 350 espécies. A estrutura por trás do maior aquário marinho da América Latina é tão grandiosa quanto a atração em si.
Por trás do que o público vê, há uma quantidade impressionante de fios, canos e maquinário. “Pergunto sempre onde está o vazamento da vez”, brinca Szpilman. Os equipamentos exigem atenção 24 horas.
Só para o grande tanque, onde fica a maior parte dos tubarões e arraias, são necessárias vinte bombas gigantescas para garantir a circulação da água — sem contar o complexo sistema de filtragem, que varia entre o industrial e o manual, dependendo do tamanho do aquário.
O prédio tem ainda uma área administrativa, um vasto espaço de quarentena para os animais, cozinha para preparar a alimentação dos bichos e salas veterinárias, que incluem locais de cuidado e necrópsia — além de um laboratório e um setor dedicado à aquicultura.
As equipes hidráulica e elétrica operam em harmonia com um time de experientes veterinários e biólogos, sempre atentos à saúde dos indivíduos e à qualidade dos 4,5 milhões de litros d’água. No telhado, há 2 000 painéis solares.
“O consumo é absurdo e ele alimenta só 30% do total. Vale ressaltar que hoje utilizamos 100% de energia limpa”, garante a diretora de sustentabilidade e segurança do trabalho, Talita Uzeda.
Desde a concepção, o intuito do AquaRio é conscientizar sobre a importância de preservação da vida marinha, sem perder de vista o lucro. “Acreditamos que o turismo pode ser sustentável”, explica Morbis, o CEO do Grupo Cataratas.
Dentro do plano de negócio, já estavam programados projetos assistenciais, como visitas gratuitas para alunos de escolas públicas e parcerias com universidades, além dos trabalhos científicos, um dos cernes da iniciativa.
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Ao longo desta primeira década, pesquisas com a participação de funcionários da instituição resultaram em 78 artigos, 23 teses ou dissertações e 116 resumos apresentados em congressos. Hoje, mais de trinta estudos estão em andamento.
Ao todo, o projeto também já cuidou de novecentos animais provenientes de apreensões relacionadas ao tráfico, entre eles os famosos axolotes.
“Não tem 1 real público investido na construção, então não basta a preservação, o equipamento precisa ser rentável. Lembro de calcular que seriam necessários 700 000 visitantes por ano. No primeiro ciclo de abertura, conseguimos 1,4 milhão”, orgulha-se Szpilman.
Desde 2016, o público do show aquático supera 9,5 milhões. O aquário não funciona sem o centro de conservação, que, por sua vez, só é viabilizado pelo aparato turístico — como dizem na biologia, é uma relação de mutualismo.
Grande parte da equipe acompanha esse êxito desde os primórdios. “Estava no último período da faculdade de biologia marinha e soube que havia vagas para um trabalho voluntário: limpar as ossadas de uma baleia. Vim e nunca mais saí”, conta a bióloga de manejo Angélica Lima Vasques, em referência ao proeminente esqueleto exposto no saguão.
O AquaRio se tornou um complexo de entretenimento — ganhou um Museu de Cera, recebeu a experiência imersiva Mar de Espelhos e o Globo Experience, parque temático da emissora de TV.
A recepção calorosa de cariocas e turistas fez nascer o irmão caçula: o AquaFoz, em Foz do Iguaçu, no Paraná.
Para celebrar o aniversário novas atrações devem aterrissar no AquaRio, como uma caixa de areia interativa com realidade aumentada, que permite ao público criar ilhas, praias, oceanos e continentes com as próprias mãos.
A administração também anunciou um investimento de 10 milhões de reais em conservação marinha. O que começou como pura ousadia se tornou um verdadeiro patrimônio carioca.
A CIÊNCIA FAZ MILAGRES
Feitos históricos do maior aquário da América Latina
Criticamente ameaçada de extinção, a raia-borboleta se reproduziu em ambiente controlado pela primeira vez no AquaRio, projetando a instituição internacionalmente e possibilitando um estudo que aponta a Baía de Guanabara como um berçário desses animais.
Habitante dos manguezais do Rio e do litoral brasileiro, o cavalo-marinho-de-focinho-longo é mais um animal ameaçado de extinção, que se reproduz multiplamente no local.
O embranquecimento de corais se tornou tema de uma pesquisa em parceria com a UFRJ, que estuda o uso de probióticos extraídos de indivíduos que sobreviveram ao fenômeno para criar uma espécie de “vacina” que proteja outras colônias.
Em andamento desde 2024, em parceria com a UFRGS, do Sul, um estudo avalia a criopreservação e a inseminação artificial de corais no assentamento de espécies do litoral brasileiro.
O nascimento inédito de tubarões freycineti em 2023 e 2025 ampliou o conhecimento sobre a biologia reprodutiva da espécie.
Indivíduos do peixe xaréu-amarelo que vivem no grande tanque oceânico desde 2015 atingiram tamanho superior aos já registrados na natureza.






