De volta para o Centro: novos empreendimentos aquecem o Rio de Janeiro
Depois de anos de esvaziamento, o bairro recebe uma nova geração de empreitadas que quer fazer o carioca ficar — e voltar — às ruas históricas da cidade
Ao longo da história, o carioca ia ao Centro porque precisava. Ali estavam trabalho, comércio, bancos e repartições públicas.
A região era o coração econômico da cidade — algo que a abertura da Avenida Central, atual Rio Branco, no início do século XX, fez ganhar escala, com seus edifícios recheados de escritórios e uma infinidade de lojas no térreo.
Até que esse coração começou a bater mais devagar. A migração de atividades para outros pontos, o avanço da vida on-line e o baque da pandemia deixaram imóveis vazios e as ruas menos povoadas.
Pois agora, aos poucos, a equação se inverte. Bares descolados, restaurantes com chefs estrelados, lojas de design e galerias de arte começam a ocupar a área ociosa e a transformar a antiga arquitetura em parte da experiência.
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Com o empurrão de incentivos públicos, o Centro ensaia uma nova vocação: Ser um lugar onde não se vai por obrigação, mas por vontade.
“Em quase uma década operando por aqui, vejo um aumento constante da circulação de pessoas, principalmente de estrangeiros, por causa do turismo aquecido”, comenta o chef Lucio Vieira, que abriu o Lilia, na Rua do Senado, em 2017 e hoje já tem mais de quatro negócios na vizinhança.
Para ele, a chegada de novos empreendimentos desencadeia um salutar efeito dominó. “O movimento melhora até a segurança, que continua sendo uma questão. Muita gente ainda tem medo de vir aqui à noite”, observa.
Um dos epicentros do efervescente momento é justamente a Rua do Senado. Repleta de antiquários, brechós, bares e restaurantes, a via agora recebe pessoas não só em horário comercial, mas também mais tarde, sobretudo nos fins de semana, quando as rodas de samba lotam o asfalto.
“Sempre que temos um sábado livre, gostamos de vir para ver os móveis e aproveitar para comer”, conta o tarólogo Alexandre Santos, que passeava naquelas bandas com a esposa, Rayane do Rosário, no final de setembro.
Atraindo de jovens interessados em antiguidades a famílias comemorando aniversário, a “rua mais cool do mundo” em 2025, de acordo com a revista inglesa Time Out, mescla tradição e novidade.
Recém-inaugurado, o Quintal da Clementina fez de um velho estacionamento uma casa de show, homenageando mulheres que ajudaram a construir a história do samba.
Entre os sócios está Lucio Pacheco, à frente do bombado Beco do Rato, entre Glória e Lapa. Ainda em outubro, abrem as portas por ali o Feline, bar de vinhos que privilegia rótulos orgânicos, e o Madame Lee, focado em gastronomia oriental.
A Destilaria Maravilha e o Mercado Central, também na rua, consolidam a maré alta, que tornou o passeio pela rua um programa em si ó para comer, beber, ouvir samba, garimpar ou só dar uma andada mesmo.
Essa bem-vinda onda não é espontânea, mas fruto de esforço concentrado para repaginar aquela zona. A estratégia do programa Reviver, capitaneado pela prefeitura, é recuperar a região nas esferas social, econômica e urbanística.
Investidores são incentivados a restaurar construções que passam a ter novos fins, de moradias a centros culturais ou ateliês, e até mesmo estabelecimentos comerciais.
De 2021, quando foi sancionado o plano, até meados de 2026, 9 024 unidades habitacionais ganharam licença. Em agosto, o Reviver Centro Patrimônio Pró-Apac concluiu a recuperação de onze imóveis históricos da Rua do Teatro, que já começam a ganhar diferentes usos.
O Reviver Cultural, por sua vez, conta com 43 assinaturas de termos de adesão de projetos e orçamento de 6,3 milhões de reais para este ano. “A ideia é trazer a cultura de todas as partes da capital para o bairro”, afirma o secretário municipal Lucas Padilha.
Ele destaca entre os sucessos a Casa Proeza, na Rua do Ouvidor, que deu a largada com uma galeria voltada para fotografias no térreo e, diante do avanço das atividades e da popularidade, passou a ocupar o segundo andar com exposições.
“É positivo que a prefeitura incorpore propostas da sociedade civil. Essa postura propicia que se pense o futuro da cidade a longo prazo e sob ângulos diversos”, avalia o arquiteto e urbanista Rodrigo Azevedo.

No novo Centro, a ideia é não ter vontade de ir embora tão cedo. Os negócios que estão brotando na paisagem embaralham as fronteiras entre comer, beber, trabalhar, ouvir música e ver arte.
E, se a experiência render uma boa foto ou um vídeo para as redes, tanto melhor. No Beco do Bragança, na Rua da Candelária, que desponta como um dos novos points, a galeria Vidadura mistura festas com discotecagens temáticas, mostras de artes plásticas e bazares de prints e serigrafias.
A poucos passos dali, o Firma junta gastronomia e pocket shows, funcionando como escritório criativo. “Como a região central sempre teve uma cultura corporativa, é necessário refletir sobre formas de trazer um público de fora também para se divertir aqui”, explica David Coelho, proprietário do Mergulho Bar, inaugurado em maio.
No entorno, a rua toda entra na brincadeira: bingos, rodas de samba e choro tomam o espaço público, e tudo vira programa. “Esse modelo antigo de esperar o cliente vir não funciona mais, o estilo de vida carioca mudou muito. Quanto mais a gente convidar artistas de variados nichos e áreas para oferecer experiências interessantes, maiores serão as chances de furar bolhas e atrair gente”, arremata.

Nesta tão animada fase, a arquitetura deixou de ser pano de fundo para se converter em parte do negócio. Casarões e prédios antigos são escolhidos de propósito por empreendimentos que trabalham com itens usados, design e curadoria retrô, como a Tapilogie, especializada em tapetes.
“Vendemos peças que dialogam com o visual do imóvel, então fez muito sentido abrir a loja física num espaço amplo, onde é possível receber bem as pessoas e clicar os objetos para o site e as redes sociais”, diz a fundadora, Mariana Wakim.
O tamanho também cabe na conta. O sobrado de 240 metros quadrados custa uma fração do que sairia área equivalente em bairros como Copacabana ou Leblon. “Seria inviável alugar uma loja desse tamanho na Zona Sul”, reconhece Mariana.
Na vizinha Casa Capioca, que vende móveis vintage, o endereço pesa na decisão por outro motivo — a sensação de segurança.
A proprietária Marina Caroni aponta a proximidade com o Distrito Naval, um complexo da Marinha, como vantagem. “Os oficiais passam por aqui fardados, o que nos deixa tranquilos para trabalhar. Eu me sinto mais segura do que na rua onde moro, em Ipanema.”
Para o cliente, a compra pode vir acompanhada de um rico passeio pela história da cidade. “É o único bairro em que há prédios modernistas, coloniais, art déco, clássicos. Tudo do Brasil está representado aqui, e essa reutilização é a melhor decisão para um futuro sustentável”, pontua a cenógrafa Gigi Barreto, que costuma emendar o passeio pelas lojas com um drinque no Mergulho Bar.
E o movimento começa a se espalhar. Depois de Beco do Bragança e Rua do Senado ganharem novos negócios e vida própria, outros trechos do Centro antes esquecidos ensaiam nova vocação.
Na Rua da Carioca, o primeiro Polo Cervejeiro do Rio foi inaugurado oficialmente em setembro, reunindo seis brewpubs, que produzem e comercializam cervejas artesanais. Mais três devem abrir em breve.
“Cada estabelecimento tem uma proposta, e isso gera um ambiente muito mais colaborativo do que de concorrência”, avalia Sérgio Fonchaz, proprietário do Horda, que dá a partida oficial no sábado (10), depois de eventos de soft opening.
A casa vai servir as cervejas da Sundog, feitas a partir de receitas tradicionais e internacionais. O objetivo é transformar a visita em uma agradável experiência gastronômica. “Criamos um lugar onde pessoas com atitudes, faixas etárias e rendas diferentes podem fazer um tour e provar cervejas locais, como acontece nos Biergärten de Munique, na Alemanha.”
Por trás do projeto há ambição maior: Fazer do centro histórico também um destino turístico, como acontece pelo mundo todo. “Aqui, quem vem de fora fica muito na Zona Sul, e a gente acredita que isso pode mudar”, aposta o empresário.
A nova cartografia do Centro já chama a atenção dos forasteiros. Em junho, a mineira Mascate escolheu o Beco das Carmelitas para sua primeira incursão pela região, em parceria com o Jurema Bar e o Brasa Jurema, levando para a rua sua linha de drinques enlatados e o bombado Xeque-Mate, à base de rum, guaraná, limão e mate.
“O público jovem e mais alternativo gosta de lugares históricos e valoriza a rua, o que tem tudo a ver com a nossa marca”, afirma o sócio-proprietário Matheus Cardoso. E a sacudida ali promete ser maior.
No Beco das Sardinhas, na Rua Miguel Couto, Raphael Vidal — responsável pelo renascimento do Largo da Prainha, na Zona Portuária, e à frente da Cotovelo, na Rua da Carioca — prepara quatro novas casas para abrir ainda em 2026: Fumeiro Santa Rita, Galeto Comendador, Bife Gracioso e Pensão.
Na Rua da Lapa, o Emigrante Music Bar irá abrir as portas em um casarão de 117 anos, uma sociedade entre o mixologista Lelo Forti, do Blue Blazer, e o empresário peruano Marco Espinoza, do Lima e Cantón.
Na Rua Gomes Freire, a lógica é parecida — chegar onde a rua já começa a dar sinais de vida. O Fatchia, com matriz na Glória, abre filial por ali neste mês, com funcionamento diurno, venda de LPS, discotecagem e um piano elétrico Fender Rhodes no palco.
“Nessa via tem a padaria Araucária e o coreano Kim Pocha, que estão sempre cheios. Achei que era um bom momento para vir pra cá”, relata Rodrigo Facchinetti, sócio de Jonas Aisengart e Edu Araújo.

O retrato que emerge do Centro sugere que não se trata apenas de euforia passageira, mas de um movimento robusto que resulta da combinação de políticas públicas com investimento da iniciativa privada.
Ao mesmo tempo que as medidas governamentais possibilitam a recuperação de imóveis e estimulam o surgimento de negócios, os empresários são atraídos pelas características únicas da região — da arquitetura e do generoso tamanho das lojas à boa oferta de transportes.
“Eu cresci ouvindo meu avô dizer que essa área era careta, mas a realidade agora é completamente diferente. As pessoas realmente buscam novas experiências”, diz o designer Antônio Maurício, proprietário da loja de móveis autorais Cabiúna, também instalada no Beco do Bragança.
“Existe uma solidariedade entre os empreendedores. Quando abre um negócio, a gente compreende os desafios, arregaça as mangas para somar, e todo mundo sai ganhando”, celebra Marina Caroni, da Casa Capioca. Como se vê, o Centro segue pulsando firme e mostrando por que é, sim, o coração do Rio.

Em transformação
A recuperação de imóveis e a chegada de novos negócios ao Centro
9 024 Unidades imobiliárias licenciadas nos últimos cinco anos
1528 Somente em 2026
84 Projetos aprovados pelo Reviver Cultural, que conecta imóveis ociosos a galerias, livrarias, estúdios, teatros e outros negócios ligados à arte
43 Já assinaram contrato
29,3 milhões de reais é a movimentação estimada para o primeiro ciclo do Reviver Cultural, que também projeta 350 empregos diretos
Onde a coisa acontece
Becos e ruas ganham novidades e começam a formar circuitos próprios
Beco do Bragança

Situado na região entre as praças XV e Mauá, com os principais acessos entre a Rua Primeiro de Março e a Rua da Quitanda, a área reúne estabelecimentos ligados à decoração, como a Tapilogie, a Cabiúna e a Casa Capioca; à gastronomia, com o Mergulho Bar e o Firma; e às artes plásticas, com a galeria Vidadura e o Estúdio Noturna, de tatuagem. Rodas de samba e choro, bingo e pocket shows também acontecem por ali. Em breve, abrirá a nova sede da loja de LPs Prainha Discos.
Beco das Sardinhas
Localizado na Rua Miguel Couto, abriga desde estabelecimentos tradicionais, como o Bar Ocidental e o Restaurante Esquimó, até outros mais novos, a exemplo do Capiau. Em breve, quatro novas empreitadas de Raphael Vidal serão abertas na área: O Fumeiro Santa Rita, o Galeto Comendador, o Bife Gracioso e o Pensão.
Rua da Carioca


Nova iniciativa de ocupação, o Primeiro Polo Cervejeiro do Rio tem seis cervejarias inauguradas no formato brewpub, com cervejas artesanais e petiscos, e em breve receberá mais três. Fazem parte do projeto: Arkan Beer, Cervejaria Candanga, Martelo Pagão, Piedade Cervejaria, Cotovelo e Vírus Bier. Neste sábado (10), a Horda também inicia suas atividades.
Rua do Senado


Considerada “a rua mais cool do mundo”, a região nos arredores da Lapa abriga diversos antiquários, brechós, ateliês, centros culturais, rodas de samba e tem se destacado também pelas opções gastronômicas. Quintal da Clementina, Feline e Madame Lee se somam aos já amados pelos cariocas e turistas Lilia, Labuta, Armazém Senado, Mercado Central e Destilaria Maravilha.
A equação do Centro
O que a região tem que os outros bairros não têm
Fácil acesso
Estações de metrô e VLT, farta oferta de ônibus e vias urbanas conectam diferentes regiões ao bairro.

Preço mais baixo
Aluguéis mais baratos e incentivos do programa Reviver permitem projetos mais ambiciosos.
História à porta
A beleza de monumentos como o Theatro Municipal, o CCBB , os Arcos da Lapa e a Praça Mauá faz das ruas parte da experiência.


Arquitetura com identidade
Prédios influenciados por escolas como art déco, modernismo e neoclassicismo dão identidade aos negócios.
Espaço de sobra
Casarões e imóveis comerciais de grandes dimensões permitem operações que seriam inviáveis em bairros mais caros.
Público diverso
A proximidade das barcas e do aeroporto Santos Dumont e a concentração de atrações turísticas garantem um fluxo diversificado de moradores e visitantes.
Idas e vindas
Da fundação da cidade ao atual movimento de reocupação
Século XVI
A cidade começa aqui

Fundado em 1565 por Estácio de Sá, o Rio teve seu núcleo urbano transferido para o Morro do Castelo em 1567. A região deu origem ao atual Centro e concentrou as primeiras estruturas administrativas, militares e religiosas.
Século XIX
Chegada da corte e capital do império
A chegada da família real portuguesa, em 1808, transformou o Rio em sede da corte e, depois, capital do império. A instalação da família no Paço Real, na Praça XV, impulsionou mudanças na paisagem urbana.
Início do século XX
A cidade se moderniza
O Centro passou por uma modernização inspirada no urbanismo parisiense, com objetivo de se afastar do passado colonial, abrir grandes vias e sanear a região. É também no período que têm início as obras do Theatro Municipal, inaugurado em 1909.
Século XX
O centro perde espaço
A transferência da capital para Brasília, em 1960, a expansão da cidade para outras regiões e o avanço dos serviços on-line contribuíram para reduzir o protagonismo do Centro e acelerar seu esvaziamento.
Pós-pandemia
Uma nova vocação
Com o programa Reviver, incentivos públicos estimularam investidores da iniciativa privada a começar negócios no Centro, resultando na chegada de novos centros culturais, restaurantes e edifícios residenciais.








