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Maria Ribeiro: “Eu me despedi, triste e a distância, como deve ser”

Atriz e escritora fala sobre como a notícia do fechamento de uma maternidade, em tempos de pandemia, mexeu tanto com ela

Por Maria Ribeiro - Atualizado em 17 jul 2020, 21h48 - Publicado em 17 jul 2020, 06h00

De todos os adesivos que já colei no peito — e em 44 anos foram muitos e dos mais diversos, do impeachment do Collor a #MariellePresente —, aquele em que estava escrito “carioca” talvez tenha sido, até aqui, o que exibi com menos propriedade e alteração cardíaca. Não que me falte amor pela cidade. Ao contrário. Amo o Rio de Janeiro com todo o amor que se pode conceder a uma cidade, mas sempre achei que o que realmente importava nas, digamos assim, “historinhas de cada um” eram, em primeiro lugar, os personagens e, só muito depois, a direção de arte e o cenário.

Jardim Botânico, Humaitá, Lagoa, Gávea, Itanhangá: todos esses lugares — bairros onde morei e cujos CEPs ainda sei de cor — sempre se confundiram no meu HD com as memórias de quem estava ao meu lado diante de suas paisagens: Paulo, Vanessa, João, Rafael, Aninha, Bento, Jo, Otavio. Nunca, até então, havia imaginado que um dia choraria o fim de um estabelecimento pela sua própria trajetória, como se uma súbita dose de humanidade fosse capaz de emprestar vida ao cômodo de uma casa demolida ou a um pedaço de concreto prestes a virar pó.

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Mas aconteceu. E foi no dia 1º de junho deste ano tão marcante. Em meio a todas as perdas que a pandemia nos trouxe (“Viver é perder um pouco a cada dia”, já dizia a escritora americana Elizabeth Bishop), e como se um endereço morto pudesse ser velado com quase a mesma deferência com que se vela um amigo querido, eu me despedi, triste e a distância — como deve ser —, do 5º andar da Casa de Saúde São José.

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Leio jornal físico. Gosto do cheiro do papel, da ordem e do tamanho das palavras escritas, gosto de pensar em todo o processo e em toda a cadeia de profissionais que resultaram na minha relação diária com aquele filtro do mundo. O amor táctil, como uma vez escreveu Caetano Veloso ao falar sobre livros e maços de cigarro. Sei que estou errada, que é antiecológico e antigo — e agora ainda perigoso! —, mas é incrível como algumas experiências nos revelam a nós mesmos.

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Ainda adolescente e passando alguns meses estudando na França, uma das coisas de que mais sentia falta no Brasil era exatamente a leitura dos jornais. Um dia, ao ir à Varig da Avenida Champs-Élysées para resolver a data da minha passagem aérea, descobri que havia jornais cariocas na sala de espera… O Globo e o Jornal do Brasil! Que alegria inesperada, meu Deus! Que acontecimento grande, e ao mesmo tempo aparentemente tão simples e pequeno e, sobretudo, tão simbólico… A partir dali, passei a ir quase que diariamente à loja da companhia aérea…

Mas não tenho mais a menor ideia de como fui parar em 1993, se o assunto era contemporâneo e completamente outro… Se isso não é déficit de atenção, eu não sei o que é… Ah, sim, lembrei! Porque foi justamente diante do meu exemplar impresso de O Globo que li a notícia sobre o fim da São José.

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Bom, primeiro que não foi “o fim” da Casa de Saúde. Foi só o fim dos começos. Exatamente pra que haja mais fins… e também ainda não acabou, só acaba no dia 1º de agosto. Até lá podem nascer alguns Joaquins, algumas Antônias, Júlias, Letícias ou Ritas. Depois, não. Depois, ninguém mais vem ao mundo naquele pedaço do Humaitá, combinado? A justificativa? Ah, a justificativa é que a população envelheceu, a taxa de natalidade diminuiu… E parece que a pandemia também não ajudou muito.

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Mas por que o anúncio do fechamento de uma ala de um hospital — nem é um hospital inteiro! — me pegou tanto? E me deixou tão identificada com o termo “carioca”? Bom, seria óbvio — e é — dizer que minha comoção se deve a um fato puramente narcísico: meus filhos nasceram na São José, e durante muitos anos contei a cada um deles a história milimétrica do especialíssimo dia em que os vi pela primeira vez… João e Bento nasceram em uma esquina da Rua Humaitá com a Rua Macedo Sobrinho, e eu não posso me abster do fato de que, de alguma forma, nasci junto com eles.

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E neste momento em que temos saudade de tudo — ao menos é como me sinto — e que imploro aos céus, às terras e às águas que o Estação Botafogo não feche suas portas da esperança, descubro que a cidade em que vivo é também um órgão do meu corpo, e que algumas despedidas têm doído bem. São questões desimportantes? Talvez. Mas meu filho mais novo todos os dias me diz quantos brasileiros morreram, e tenho visto sua infância ir ficando cada vez mais longe desde que esta tragédia começou.

Portanto, o fim daquele lugar mágico onde os recebi em meus braços me faz mais velha também, e não me refiro a idade. Torço pra que a gente ainda possa ver juntos um filme na sala 1 do Estação da Voluntários da Pátria, quem sabe até em um festival de cinema. Sabe Festival de Cinema?

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