O Convite extrapola as telas e vira assunto em mesas de bar e sessões de terapia
Em cartaz nos cinemas, filme de Olivia Wilde com Penélope Cruz, Edward Norton e Seth Rogen coloca no centro da conversa os dilemas do desejo e da vida a dois
Há filmes que terminam quando sobem os créditos. O Convite, em cartaz nos cinemas, não é um deles. O longa deixou as salas escuras para virar assunto em mesas de bares pela cidade, grupos de WhatsApp, redes sociais e sessões de terapia. No Rio, a conversa se espalhou: afinal, até onde vão o amor, o desejo e a tolerância dentro de um casamento? A pergunta, curiosamente, está longe de ser nova. No início do século passado, o dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-1956) escreveu O Casamento do Pequeno Burguês, peça encenada pela primeira vez há exatos cem anos, em Frankfurt. O texto retrata uma relação decadente e escancara os valores morais da classe média, que entram em colapso à medida que o espetáculo avança. “É uma comédia dramática que questiona os limites dessa instituição chamada casamento e o que é natural do ser humano, como o desejo, a racionalidade e o inconsciente individual ou coletivo, num momento que a Alemanha estava de cabeça para baixo”, contextualiza Márcio Rodrigo Ribeiro, professor de cinema e audiovisual da ESPM, lembrando que a estreia causou “escândalo e furor” perante à sociedade alemã conservadora entre a 1ª e a 2ª Guerra Mundial.
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Um século se passou e a tônica proposta por Brecht segue viva: em O Convite, um casal normativo convida os vizinhos descolados para jantar em seu apartamento e o encontro expõe as vulnerabilidades dos dois relacionamentos. “Os personagens são maravilhosamente humanos. Não há mocinhos ou vilões. As cenas fazem a gente refletir sobre como nos comportamos em casal. É isso que faz ser interessante”, pontua Ribeiro. Lançado em 28 de junho nos Estados Unidos, o filme dirigido por Olivia Wilde, que também integra o elenco, ao lado de Penélope Cruz, Edward Norton e Seth Rogen, arrecadou, até meados de agosto, 45 milhões de dólares. Vários fatores ajudam a explicar a repercussão: os diálogos afiados, as situações reconhecíveis e a maneira como o roteiro coloca na mesa questões que costumam ficar escondidas na intimidade — sexo, desejo, frustração, monogamia e a dificuldade de conversar. “O filme surtiu muito efeito no consultório e entre pessoas que me escrevem no Instagram. O maior desafio que os casais vivem hoje é a possibilidade de abrir a relação para a não monogamia. E o principal problema enfrentado é a falta de tesão. Eles podem se amar profundamente e não ter mais vontade de transar um com o outro”, observa a psicanalista Regina Navarro Lins, cujo livro mais recente se chama, justamente, Não Monogamia (editora Record).
Escolados na arte de discutir a relação, a famosa “DR”, o casal Maria Flor, 42, e Emanuel Aragão, 44, junto há onze anos, adotou a troca de cartas como estratégia para melhorar a comunicação. Durante 180 dias, a atriz e o psicanalista, deixaram textos datilografados na mesa de cabeceira um do outro, com intervalo de quinze dias para elaborar as respostas. No meio do caminho, a crise piorou, mas eles também se deram conta de que o processo daria um livro. No final de junho, lançaram O Amor Ainda É Possível? (editora Planeta), com previsão de adaptação para o teatro no ano que vem. “Uma das principais questões da nossa relação, e que o filme também trata, é sobre como a gente põe na conta do outro a frustração pelo que deu errado”, elabora Aragão, enquanto prepara um “café hipster”, como Flor define. “Nada é 100% estável. Nas cartas, a gente tinha uma regra que era dizer para o outro coisas não conversadas. Aí o buraco ficou mais fundo e a gente quase se separou. Relacionar-se é encarar as profundezas”, reflete a atriz, que admite se identificar com os personagens centrais de O Convite. Talvez esteja aí parte da explicação para o barulho que o filme vem fazendo: ao colocar na tela conversas que tantos casais evitam ter em casa, ele acaba levando o público a continuar a discussão depois. No cinema, no bar, no celular ou no divã, o assunto permanece — porque, quando a ficção acerta em uma ferida real, fica difícil simplesmente mudar de assunto.
Um jantar cheio de verdades
Curiosidades sobre o longa do momento
A produção, de baixo orçamento, é estimada em 12 milhões de dólares. O acumulado de bilheteria, portanto, é quase 300% superior ao que foi gasto.
O longa é o terceiro filme dirigido por Olivia Wilde, que não pretendia atuar neste, mas foi convencida pelo colega Seth Rogen. Ela também comandou os sets de Booksmart (2019) e Não Se Preocupe Querida (2022).
Exibido pela primeira vez no Festival de Sundance, nos EUA, O Convite teve os direitos de distribuição adquiridos em 72 horas pela O2Play, dos sócios brasileiros Fernando Meirelles e Andrea Barata Ribeiro.

Essa é mais uma aposta do descolado estúdio de cinema independente americano A24 — também responsável por Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo (2022), Moonlight (2016) e pela co-produção da série Euphoria (2019), da HBO.

Aclamado pela crítica, o longa foi comparado a clássicos de Woody Allen sobre as agruras da vida a dois, como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa.





