Cirurgias íntimas ganham espaço entre mulheres em busca de autoestima
Especialistas, no entanto, alertam para riscos de submissão a padrões de beleza; ainda há constrangimento por parte de algumas pacientes, o que reforça o tabu
A região íntima feminina, por muito tempo escondida até das próprias donas, entrou definitivamente no rol dos cuidados estéticos. A procura por procedimentos desse tipo disparou no Brasil, líder mundial nesse perfil de cirurgia há mais de uma década, segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (Isaps). A principal intervenção, ninfoplastia (redução dos pequenos lábios), passou de 12 870 em 2015 para 20 334 em 2020, alta de 58%. Uma análise da Universidade de São Paulo aponta que o país chegou a quase 29 000 cirurgias íntimas em 2023. No mundo, a procura por intervenções de rejuvenescimento da vulva cresceu 20% entre 2022 e 2024, segundo o relatório global da Isaps.
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Nos consultórios cariocas, a mudança também é perceptível. “Tratei a flacidez da pele genital e percebi que o tratamento melhora a elasticidade e aumenta a hidratação. Também senti mais frescor e tonicidade”, conta Quitéria Chagas, rainha de bateria do Império Serrano e paciente do dermatologista Cássio Serafini, que atende em Ipanema. “Isso é extremamente positivo. Uma mulher conseguir dizer que sente dor, ressecamento, desconforto, alteração de sensibilidade ou incômodo com alguma alteração no próprio corpo representa um ganho de autonomia”, avalia a dermatologista Daniela Alvarenga, com consultório no Leblon. A médica, no entanto, faz um alerta: a vulva não precisa se submeter a determinado padrão de beleza ou juventude.
O assunto ainda envolve constrangimento. Uma carioca de 51 anos que prefere não se identificar reduziu o clitóris e preencheu os grandes lábios com gordura. “A motivação foi melhorar minha autoestima. Se o meu breve relato puder inspirar alguém a se cuidar, fico muito feliz”, limita-se a dizer a paciente da cirurgiã plástica Irene Daher, cujas consultas são em Botafogo. “Na pandemia, as mulheres ficaram mais em casa e passaram a se incomodar com essas questões, e as postagens em redes sociais mostraram que há solução”, explica Irene, chefe do serviço de cirurgia plástica do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, acrescentando que costuma realizar cinco preenchimentos e duas ninfoplastias por semana.
A empresária Arivania Trajano, 46, recorreu à ninfoplastia depois de anos sofrendo com o atrito dos pequenos lábios ao usar roupas apertadas e biquíni. “O incômodo foi embora”, celebra. “Gravidez, emagrecimento, menopausa e reposição hormonal podem afetar a região íntima, mas só agora estamos falando sobre isso”, pontua Cássio Serafini. “As pacientes estão mais dispostas a procurar ajuda para aquilo que antes simplesmente suportavam porque faltava informação”, constata o cirurgião plástico Rogério Capobianco, que atende na Barra.
Entre o desejo de se cuidar e a cobrança para se encaixar existe um limiar delicado. A professora do Instituto de Psicologia da Uerj Anna Paula Uziel vê ganhos importantes quando a mulher busca resolver fatores que afetam sua qualidade de vida. Em paralelo, a pressão estética pode transformar o envelhecimento e características anatômicas naturais em defeitos. “O corpo também acaba sendo um lugar para medir o sucesso”, observa Anna. “A cosmética ginecológica precisa urgentemente de mais ciência, ética e regras”, ressalta a ginecologista e cirurgiã Samantha Condé, presidente da Academia de Medicina do Rio de Janeiro, com consultório em Copacabana. Ela chama a atenção para ciladas nas quais os tratamentos são realizados sem indicação clara, com publicidade agressiva, que cria expectativas irreais. Daniela Alvarenga faz coro: “Às vezes a melhor conduta médica não é realizar um procedimento, mas explicar que aquilo faz parte da anatomia.” Entre ser livre ou virar refém de padrões estéticos, a nova fronteira da cirurgia íntima exige justamente o que tanto faltou durante muito tempo: informação.
Mitos e verdades
As principais dúvidas acerca dos procedimentos
Existe idade certa para realizá-los?
Mito. Não há uma idade ideal. A indicação depende da queixa e da avaliação individual.
Toda alteração na região íntima precisa de tratamento?
Mito. A anatomia feminina apresenta grande diversidade. É preciso avaliar se existe realmente algo a ser modificado.
Menopausa pode mudar a região íntima?
Verdade. As alterações hormonais podem provocar ressecamento, perda de elasticidade e desconforto, mas isso não significa que a mulher deve aceitar os sintomas.
O tratamento é sempre estético?
Mito. Dependendo do caso, o objetivo pode ser melhorar conforto, lubrificação, escape urinário, função sexual ou qualidade de vida.
Sono, hormônios e alimentação podem influenciar o tratamento?
Verdade. A saúde dos tecidos também está relacionada a fatores hormonais, metabólicos e nutricionais, que devem ser investigados.





