Quem é Eduardo Cavaliere, o prefeito mais jovem da história do Rio
Prestes a completar um mês à frente da segunda maior cidade do país, carioca assume cargo equilibrando continuidade e autonomia em meio a desafios crônicos
O gabinete não deixa dúvidas sobre a troca de comando: o escudo do Vasco, marca registrada de Eduardo Paes, foi substituído na parede pelo emblema do Flamengo, time do coração de Eduardo Cavaliere. Na mesa e nas estantes, avistam-se retratos com a mulher e a filha recém nascida, uma foto ampliada do irmão mais velho, lutador de jiu-jítsu, em plena ação, além de terços e imagens religiosas e a caixa de uma garrafa de uísque escocês de 21 anos ornada com a ilustração da Praia de Copacabana. Outros detalhes vão ajudando a desvendar o ainda pouco conhecido e recém empossado prefeito, como um pote de remédio importado para azia (um mal-estar que o atormenta) e um bloquinho de papel contendo importantes nomes do poder escritos de próprio punho. Aos 31 anos, Cavaliere é o mais jovem alcaide carioca desde a fusão entre os estados da Guanabara e do Rio, em 1975 — superando, inclusive, o próprio Paes, que assumiu a cadeira aos 39. “Agora posso dizer que o melhor emprego do mundo é o meu”, diz ele, que usa uma camisa branca com o emblema da prefeitura, cutucando em tom de brincadeira o antecessor, que costumava afirmar o mesmo a interlocutores variados.
Diante do protagonismo que Paes sempre teve, mesmo sendo seu vice e braço direito, pouca gente tem ideia da trajetória do atual chefe do Executivo municipal, prestes a completar o primeiro mês à frente da segunda maior cidade do país. Seu pai, o comerciante Eduardo Gonçalves Pinto, morava no Leblon e era dono de uma loja de roupas em Madureira, onde conheceu Valéria, que trabalhava no caixa. Eles se casaram, moraram no subúrbio e depois a família voltou para a Zona Sul. Chegaram a viver por um tempo na Barra e no Recreio também, mas nunca deixaram de frequentar amigos e familiares do lado de lá do Túnel Rebouças — o próprio Cavaliere foi batizado na Igreja de São Jorge, em Quintino. O pai, morto recentemente, vítima de diabetes, ainda é forte referência — “era apaixonado pelo Brasil e muito crítico à nossa dificuldade de pensar grande”, lembra.
No Colégio Santo Agostinho, onde estudou por toda a vida, Cavaliere já despontava como líder de turma agregador, antecipando a vocação política — ainda que à época nem cogitasse tal possibilidade. Formou-se em direito pela Fundação Getúlio Vargas, onde foi bolsista e chamou a atenção de professores e colegas pela postura disciplinada e organizada. “Dudu é muito inteligente, precoce desde os tempos de escola, guiado por um senso de justiça e diplomacia”, derrete-se Valéria, a mãe. “Sou libriano com ascendente em libra. Tenho um perfil moderado e pragmático”, acrescenta o agora prefeito, que protagoniza outro feito inédito: desde a redemocratização, em 1985, nenhum vice havia assumido ou sido eleito para comandar a capital fluminense.
Um e-mail enviado a Eduardo Paes em 2017, seguido de um bate papo em Washington, mudou o curso da história do advogado recém-formado. “Paes estava fora do poder, mas eu enxergava nele a capacidade de liderar um projeto de cidade e me coloquei à disposição para colaborar”, lembra Cavaliere. A parceria entre os xarás foi construída na alegria e na tristeza, entre vitórias e derrotas — em 2018, ele chegou a vender o carro para se dedicar à política voluntariamente, mas Paes perdeu para Wilson Witzel o páreo para o governo estadual. Em paralelo, na iniciativa privada, Cavaliere criou com outros sócios a Gabriel, startup de câmeras de segurança, da qual mais tarde abriu mão. Só em 2021, quando Paes retornou ao Palácio da Cidade, o pupilo exerceu seu primeiro cargo público, de secretário de Meio Ambiente e Clima, fato que reforça as coincidências com o antecessor, à frente da mesma pasta duas décadas antes, na gestão Cesar Maia. Visando ao pleito para deputado estadual no ano seguinte, o secretário passou a se vestir de verde diariamente. “As pessoas tinham que me conhecer nem que fosse pelo uniforme”, conta. A estratégia deu certo, mas ele deixou o mandato dois anos depois, para ser vice de seu mentor na “eleição do tetra”, referência interna ao quarto mandato de Paes, acumulando a Casa Civil. “Cavaliere representa a renovação da política fluminense, baseada na formação de quadros jovens, comprometidos com a transformação. Ele tem maturidade, preparo técnico e capacidade de liderança”, elogia Paes.
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A aposta de Cavaliere é na continuidade do plano estratégico elaborado até 2028, sinalizando uma gestão voltada para a execução do que foi iniciado, sem rupturas. “Prefiro ajustes a grandes viradas”, esclarece, enfatizando que o contato com Paes segue estreito, e como. “Nos falamos diversas vezes por dia”, diz. Na primeira agenda pública como prefeito, realizada no sábado seguinte à posse, sob um sol inclemente em Santa Cruz, Cavaliere confirmou a fama de gestor durão e exigente, alinhada ao jeitão do antecessor. Antes de apresentar o projeto sobre modernização do transporte na Zona Oeste e tratar do andamento das obras do Terminal Intermodal BRT Bairro Imperial, fez questão de circular pela área, conversar com o secretariado e fiscalizar tudo de perto. “Não estamos lançando nenhum projeto, apenas garantindo o andamento desta obra tão importante para a Zona Oeste. Eu vou fiscalizar e cobrar para que tudo saia no prazo esperado”, disse, durante a visita ao local, acompanhada pela reportagem de VEJA RIO. Áreas sensíveis, como mobilidade, segurança, população de rua e ordenamento urbano, estão no centro das atenções da prefeitura, que anunciou iniciativas ambiciosas. Na lista, a digitalização do Rio Rotativo via aplicativo Jaé, mudanças na atuação de guardadores de carros, a ampliação da Força Municipal e a modernização da frota de ônibus. Promessas como o estádio do Flamengo no Gasômetro e a conclusão do BRT de Santa Cruz dão a dimensão do grau de complexidade da agenda, que ainda inclui o Carnaval no rol de prioridades. “Em parceria com a Liesa, definimos o crescimento gradual do número de escolas no Grupo Especial. A meta é chegar a quinze até 2030”, adianta o alcaide.
Para dar conta de tantas pontas, a rotina começa cedo. E ele mostra tudo pelas redes. No primeiro dia útil no cargo, um post exibia o prefeito no gabinete, pronto para despachar às 6h em ponto. Morador de Ipanema, ele prevê se mudar ainda neste mês para a Gávea Pequena, no Alto da Boa Vista. A troca de endereço, vale dizer, é cercada de superstições, já que, “como vimos”, diz ele, não traz “boa sorte” ao governo não morar na residência oficial — Luiz Paulo Conde e Marcelo Crivella foram os únicos que não viveram lá durante a gestão e não se reelegeram. Casado com a também advogada Victoria Henriques desde 2023 — se conheceram em 2016 na faculdade, quando ele era monitor —, aproveita o tempo livre para curtir a filhinha, Maria Beatriz, a Mabê, de 8 meses. “É um bebê supertranquilo”, garante o pai.
No último domingo (12), depois de convocar os secretários para uma grande reunião pela manhã, ele voltou para casa e assistiu ao Fla-Flu na companhia da mulher e da menina, que tem como madrinha Isabela Paes, filha de Eduardo, de quem ficou muito amigo. Na disputa, o time do alcaide levou a melhor, por 2 a 1, para a frustração da primeira-dama, tricolor. “Ser casada com ele é entender que os dias são lotados de segunda a segunda”, diz ela. Ainda assim, Victoria não esconde o orgulho: “Dividi-lo com a população é um prazer. Sou de Brasília, mas carioca de coração, mãe de uma carioquinha e apaixonada por esta cidade”. E prova o que diz: além de pedalar na Floresta da Tijuca, ama praia, surfa na Macumba e nada no Arpoador. “Eu, no máximo, consigo dar uma corridinha na praia, quando dá”, brinca Cavaliere.
Mas ele não se limita à corridinha, não. Instado a falar sobre seu roteiro na cidade, primeiro brinca com um discurso — “meu assessor disse que era para contar que eu só ia à igreja e à padaria”. A real mesmo ele dá logo depois: “Gosto de um pouco de tudo. Da missa aos domingos à roda de samba e museus, passando por programas ao ar livre, um verdadeiro presente nesta cidade”. Quando consegue, ainda desbrava trilhas, assiste a lutas (hábito que herdou do irmão mais velho) e adora jogar futebol, “mas evito, para não me machucar”. Não faz terapia, apesar de recomendar “para todo mundo”. Em casa, a trilha sonora varia entre samba — é mangueirense de coração — , bossa nova, rap, trap — “são coisas da minha geração” — e até gospel católico, que aparece entre as mais tocadas em sua retrospectiva no streaming de música. Em maio de 2025, durante a visita do arquiteto burkinabé Francis Kéré, vencedor do Pritzker e responsável pelo projeto da Biblioteca dos Saberes, sua primeira obra na América do Sul, Cavaliere fez um périplo pelos lugares que gostaria de apresentar a ele. O tour abrangeu da Pequena África ao Museu do Amanhã, passando pelo MAR, do Palácio Capanema ao Real Gabinete Português de Leitura, da Quinta da Boa Vista à Pedra do Sal, e ainda teve, ufa, Jardim Botânico, Parque Lage, Cristo Redentor e o Sítio Roberto Burle Marx. “É um dos jardins mais bonitos do mundo, mas muito pouco explorado. Sempre indico aos amigos”, diz Cavaliere. “A gente tem uma riqueza natural e uma diversidade cultural. Tudo isso é um pouco de Rio de Janeiro.”
Herdeiro político de Eduardo Paes, Cavaliere chega ao cargo respaldado por uma base consolidada, mas precisa provar que é mais do que uma extensão do projeto que o conduziu até ali. “Ele tem espírito de comando e forte senso de responsabilidade pública. Está preparado”, confia Paes, que se lançou oficialmente como pré-candidato ao governo estadual. Logo nas primeiras semanas da nova gestão, um episódio deu uma mostra da sensibilidade dos temas com os quais o novo prefeito vai lidar daqui para a frente: o atropelamento de uma mãe e um menino que estavam de bicicleta elétrica em uma via de grande movimentação na Tijuca reacendeu críticas recorrentes à desorganização, à falta de fiscalização do trânsito e à convivência conflituosa entre modais na cidade. A resposta foi rápida, com a prefeitura lançando um decreto e anunciando mudanças para tentar amenizar o problema (veja o quadro abaixo). O mais jovem prefeito da história do Rio começa o mandato diante da delicada equação de se mover entre a continuidade, sem parecer mero coadjuvante, e firmar uma marca própria em meio a enroscos urbanos superlativos. Não é missão para amadores.
E agora, Cavaliere?
Soluções em curso para alguns problemas crônicos da cidade
Saneamento
Apenas 65% do esgoto do município é efetivamente tratado, de acordo com o SNIS/Trata Brasil
Apesar de a responsabilidade ser estadual — a concessionária Águas do Rio atua em 124 bairros da capital fluminense —, Eduardo Cavaliere destaca os recentes avanços na Zona Oeste, onde o serviço foi municipalizado em 24 bairros. Desde 2012, a cobertura de coleta e tratamento de esgoto passou de 5% para 62%, beneficiando cerca de 2 milhões de pessoas, de Deodoro a Guaratiba, afirma o alcaide. A meta é universalizar o serviço na área sob gestão municipal até 2032.
Violência
Estimativas da UFF e da plataforma Fogo Cruzado apontam que mais de 50% do território da cidade tem algum nível de influência da milícia ou do tráfico de drogas
A principal aposta é na Força Municipal de Segurança, divisão armada da Guarda Municipal, com inteligência e planejamento, voltada principalmente para combater roubos e furtos. A meta é chegar a 1 200 agentes nas ruas até o fm do ano e alcançar 4 200 até 2028. Outro eixo é o reforço tecnológico: o número de câmeras da Central de Inteligência, Vigilância e Tecnologia em Apoio à Segurança Pública (Civitas Rio) deve dobrar, chegando a 20 000, com uso de análise de dados para orientar as ações. A gestão ressalta, no entanto, que a segurança pública é atribuição do governo estadual e que as iniciativas municipais têm caráter complementar.
Desordem urbana
Flanelinhas ilegais e uso irregular das vias estão entre as queixas recorrentes dos cariocas
A gestão municipal pretende enfrentar a atuação irregular de flanelinhas com apoio da bilhetagem eletrônica pública e da digitalização do estacionamento rotativo. Com o Rio Rotativo Digital, a cobrança informal nas ruas vai passar a ser enquadrada como crime de extorsão, ampliando a capacidade de fiscalização e controle.
Mobilidade ineficiente
Cariocas gastam até 2h30 por dia em deslocamentos, como aponta estudo da FGV e do IBGE
A prefeitura priorizou a recuperação do sistema BRT, que hoje transporta mais de 600 000 passageiros por dia, e agora mira a requalificação dos ônibus regulares. Um dos pilares é o controle da bilhetagem eletrônica com o sistema Jaé, além de novas licitações que já preveem a chegada de 500 novos ônibus à Zona Oeste ainda neste ano. A meta é renovar toda a frota até 2028.
Segurança viária
O aumento de motos e veículos elétricos em ciclovias e vias públicas se tornou um grande problema e vem causando acidentes
No Decreto nº 57.823, o prefeito proibiu a circulação de bicicletas elétricas e patinetes elétricos em vias com velocidade máxima superior a 60 km/h. A medida foi publicada no Diário Oficial no dia 6 de abril, uma semana após a morte de mãe e filho em um acidente na Tijuca, e busca reduzir riscos em vias de maior velocidade. Os veículos autopropelidos, sem pedal, vão precisar de placa — e seus condutores, de habilitação. No entanto, o Detran-RJ afirma que não pode emplacar esse tipo de transporte, já que o sistema de registro de veículos é nacional, regulamentado pelo Conselho Nacional de Trânsito (Contran) e administrado pela Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran).
Fora do gabinete
As preferências do mais jovem prefeito do Rio
Livro. “Walden ou A Vida nos Bosques (1854), de Henry David Thoreau (1817-1862). Uma obra da literatura mundial que faz uma reflexão sobre o tempo e a necessidade de desacelerar, algo cada vez mais urgente.”
Autor. “Machado de Assis (1839-1908), especialmente por causa de Dom Casmurro, meu segundo livro preferido. Machado tinha uma forma única de retratar a alma humana.”
Comida. “Quer me fazer feliz? É só me dar caldo verde e carne assada com nhoque.”
Música. “Samba e bossa nova. Mas admito que sou eclético e também curto rap nacional. Ouço música o tempo inteiro.”
Filme. “Ensina-me a Viver, do Hal Ashby, é uma referência afetiva. Uma história sobre a morte vira um filme sobre a vida. E é dever de todo brasileiro assistir a Ainda Estou Aqui.”
Esporte. “Gosto de correr e de jogar futebol, mas evito, para não me machucar. Como espectador, jiu-jítsu, sempre.”
Qualidade. “Ser uma pessoa moderada e leal aos meus princípios.”
Defeito. “Tem muita gente para apontar, então prefiro não responder.”







