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Carioca garimpa imagens do Rio e reconstrói a história da cidade

Músico e jornalista Rafael Cosme revisita o passado através de fotos e negativos. Achados vão virar livro

Por Pedro Tinoco - Atualizado em 22 Maio 2020, 19h17 - Publicado em 1 Maio 2020, 08h00

Um raro consenso nos dias de hoje é que nada será como antes. “Vivemos na incerteza sobre o futuro por causa da pandemia, mas, na verdade, já estávamos aprisionados no presente, grudados nas redes sociais sem parar para respirar”, observa o músico e jornalista Rafael Cosme, 35 anos. Ele tem um antídoto para esse mal contemporâneo, que aplica com frequência e recomenda: revisitar o passado. Pesquisador compulsivo, o carioca Cosme começou a mergulhar na história de sua cidade por hobby, emprestou método à rotina e a transformou em trabalho com desdobramentos promissores.

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Um passeio por slides e negativos digitalizados: imagens surpreendentes de um Rio que não existe mais Acervo Rafael Cosme/Reprodução

Nas suas incursões, resgatou as curiosidades deliciosas e a informação inédita que abastecem os projetos Sonho Rio e O Passado É um Ponto de Luz. O primeiro, um livro, viaja, entre os anos 1957 e 1989, por points, programas e passeios que já não existem mais. Com seu título poético, o segundo é um original garimpo de slides e negativos que, digitalizados, revelam imagens surpreendentes.

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Praia de Copacabana: antes dos quiosques, havia as barraquinhas Acervo Rafael Cosme/Reprodução

Sonho Rio consumiu cinco anos de consultas à Hemeroteca Digital, portal de periódicos da Biblioteca Nacional. “Li tudo o que encontrei publicado sobre a cidade entre as décadas de 50 e 80 do século passado”, conta Rafael Cosme. Com esse farto material, o autor criou seu guia nostálgico de um Rio extinto, uma colagem de notícias e crônicas sobre o lazer carioca no passado.

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A lista, com mais de 500 lugares – restaurantes, boates, salas de cinema -, inclui um périplo pela Copacabana no ano dourado de 1957, passagens sobre a curta vida da boate Maxim’s, plantada na Torre do Rio Sul na década de 80, e relembra a Gelorama, pista de patinação no gelo instalada no terreno da Igreja Nossa Senhora da Paz no verão de 1963. “Padre Leovegildo também queria construir um aquário, mas a ideia não foi adiante”, informa Cosme. Na batalha para publicar a obra, ele apresentou os originais ao jornalista e escritor Nelson Motta, que ficou encantado. “O Ruy Castro leu uns trechos e quase chorou, eu também. Não é nostalgia, é história”, escreveu Motta, em um texto de recomendação. “A tarefa de editar o livro está em ótimas mãos profissionais”, adianta Rafael.

Barra da Tijuca: até o começo da década de 70, bairro era um areal em que famílias passavam apenas os fins de semana Acervo Rafael Cosme/Reprodução

Outro filhote de sua arqueologia carioca, o projeto O Passado É um Ponto de Luz nasceu de um hábito pré-pandemia e ganhou visibilidade no Instagram. A paixão pela história da cidade fez de Cosme um frequentador assíduo de feiras de antiguidades, como as da Praça Quinze, da Glória e de São Cristóvão, além da Rua do Lavradio. Nos últimos quatro anos, ele comprou sem parar lotes de slides Kodachrome e rolos de negativo a um passo de ir para o lixo. “Vou atrás daquele vendedor que estende um tapete com uns cacarecos no chão e olho tudo”, conta. Mirando no escuro, na maioria das vezes, achou as relíquias que passou a publicar em sua conta no Instagram (@villlalobos) e que ilustram esta reportagem. Fotos de amadores e álbuns de família descartados, nas palavras do pesquisador, “guardam respostas sobre a cidade, o que as pessoas faziam, vestiam, como se comportavam nos bares e nas praias, além de paisagens únicas”.

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Joá: fotos jogadas no lixo ganham nova vida nas mãos do músico e jornalista apaixonado pelo passado Acervo Rafael Cosme/Reprodução

À beira da Avenida Atlântica, ainda com uma pista só, o calçadão de Copacabana exibe carrocinhas no lugar dos quiosques. São Conrado com a orla nua, sem prédios, e a Barra, então um areal deserto, estão no caminho para o paraíso perdido de Grumari. No Leme dos anos 40, subir ao topo do Morro da Babilônia era um programa legal, sossegado e seguro. Esses são alguns achados entre mais de 3 000 fotos já catalogadas por Rafael Cosme. “A Barra, até o começo da década de 70, era um refúgio como Petrópolis, um lugar distante, destino de passeios de fim de semana”, diz. O material postado surpreende e também emociona. Aconteceu com uma família que aparece em fotografias de um festejo do Réveillon de 1977. “É uma série sensacional: começa no apartamento, a turma desce para a praia e se diverte até o amanhecer do dia 1º. A filha de uma das retratadas acabou reconhecendo a mãe ali e entrou em contato comigo. Foi uma choradeira”, lembra Cosme. Em outra incursão, na Rua do Lavradio, o garimpeiro do Rio Antigo esbarrou com o cantor Milton Nascimento em retratos sem nenhuma pista sobre fotógrafo ou época: “Fiquei horas vendo os slides, centenas deles, dei de cara com um rosto familiar, e era o Milton”, diz. Arrematou os cinco slides do artista quando jovem por 5 reais.

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Copacabana: banhista se delicia com ‘piscininha’ na areia em foto redescobertaMilton, o próprio, não disfarçou a surpresa com a descoberta. Em carta, agradeceu a Cosme e a Marina Amaral, a restauradora do material, e afirmou que os registros são os únicos conhecidos do período que passou nos Estados Unidos, em 1968, para gravar o disco Courage. “Ao ver essas fotos, eu tive uma sensação indescritível sobre a existência, o tempo… É como se fosse uma volta mesmo, sabe? Jamais pensei que viveria uma surpresa dessas em pleno 2020. Que história!”, escreveu o músico.

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Outros garimpeiros da iconografia já trouxeram à luz aspectos desconhecidos de cidades mundo afora. Uma referência nesse campo é a arqueologia incansável praticada pelo fotógrafo francês Thomas Sauvin, que criou o projeto Beijing Silvermine, em 2009. Desde então, Sauvin exibe fotos reveladas a partir de 850 000 negativos que, ao longo dos anos, amealhou em um lixão na periferia de Pequim e que descortinam ângulos desconhecidos da nervosa capital chinesa. Por sua longa ligação com a fotografia, o Rio é um desses lugares amplamente retratados em todos os tempos e, portanto, de uma riqueza rara para caçadores de imagens como Rafael Cosme.

No dia 16 de janeiro de 1840, apenas cinco meses após a invenção da daguerreotipia, Louis Comte já apresentava esse pioneiro processo fotográfico aos cariocas. O abade francês, viajante da corveta Oriental, produziu fotos do Largo do Paço, nas quais se destaca o inconfundível chafariz do Mestre Valentim, e assim inaugurou a tradição: a cidade e suas transformações foram minuciosamente documentadas por fotógrafos como Revert Henrique Klumb, George Leuzinger, Marc Ferrez e Augusto Malta – para citar os pioneiros mais ilustres. Seus retratos estão por aí, em acervos acessíveis pela internet e, como sabemos, até a barraquinha mais humilde de uma feirinha de antiguidades pode reservar surpresas. Em tempos de incerteza, o passado ilumina um bocado e, se não cura, dissipa nossas angústias.

Outros retratos
Em imagens na internet, a história de uma cidade para lá de fotogênica

Marc Ferrez/coleção Gilberto Ferrez/Instituto Moreira Salles

O portal Brasiliana Fotográfica surgiu há cinco anos como uma parceria entre o Instituto Moreira Salles e a Biblioteca Nacional. É dedicado à reflexão sobre acervos fotográficos e alimentado pelas vastas coleções das duas instituições, que incluem registros de Marc Ferrez — acima a Praia de Copacabana, atual Posto 6, em 1895. O projeto cresceu e hoje abriga outros arquivos.

Projeto do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Portal Augusto Malta franqueia a produção do mais importante cronista visual da cidade na primeira metade do século XX, Augusto Malta (1864-1957), primeiro fotógrafo oficial da prefeitura do Rio.

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Nas redes sociais, principalmente no Facebook e Instagram, pululam contas dedicadas ao Rio que passou — tem até uma chamada Foi Um Rio Que Passou. Outras dicas de links atraentes são Fragmentos do Rio Antigo, Memórias do Subúrbio Carioca, Memória Carioca Original e O Passado do Rio.

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