Dança das tesouras: acompanhe o vaivém de quem faz a cabeça dos cariocas
Entre alfinetadas, mudanças de endereços e disputas por clientes fiéis, o universo dos salões de beleza de luxo vive uma temporada de ebulição na cidade
Quando o cabeleireiro Fil Freitas anunciou que voltaria a atender no Crystal, foi um ti-ti-ti nos grupos de WhatsApp da Zona Sul carioca. Há nove anos, ele abriu em Ipanema um salão com seu próprio nome, o Fil, frequentado por famosos como Rômulo Estrela, Chay Suede e Amora Mautner, alguns atrás do corte e outros do louro mais cobiçado da cidade – Freitas ficou famoso por seu “paraffin blond”. “Eu só queria voltar a ser artista”, desabafa ele. “Cuidava do front, dava treinamento, atendia clientes de outros profissionais… Cansa, né?”. Agora, ele atende a cada quinze dias em São Paulo e quer voltar a maquiar. “Comecei em backstages de desfiles, aprendi com Max Weber e Ricardo dos Anjos”, conta. A balayage custa em torno de 2 000 reais no atual endereço. Apesar dos rumores, Freitas e os ex-sócios garantem que não houve rompimento, apenas “um encerramento de ciclo.” “Seguir novos caminhos profissionais foi uma decisão dele. Temos um carinho grande por tudo que construímos juntos”, declarou de forma protocolar Cadu Dutra, fundador do antigo Fil, rebatizado de Casa 94. “Estamos em pleno funcionamento, investindo em tecnologia e promovendo talentos internos”, complementa.
A saída de Fil é concomitante a várias movimentações em salões de beleza badalados do Rio. O próprio Crystal, que durante anos ocupou uma casa em Ipanema, foi para o Leblon. O Laces saiu do Rio Design Leblon e se instalou no Shopping Leblon. Recentemente, o Care, irmão e vizinho do Crystal, informou à clientela que terá de se mudar depois de 23 anos no mesmo endereço. A proprietária do imóvel morreu, e as herdeiras venderam o espaço. “Elas queriam que a gente saísse em um mês. Recebemos até ação de despejo”, exaspera-se Ivani Werneck, a Pimenta, fundadora do Care. “Tínhamos acabado de renovar o contrato de aluguel. São 96 funcionários, não dá para fechar as portas de um dia para o outro.” Na Justiça, conseguiu um prazo maior para a mudança, e a abertura do novo ponto, no número 105 da Rua Redentor, está prevista para 31 de maio. “Era importante achar uma casa, porque nosso conceito é de wellness. Os clientes gostam disso. O Crystal, ouvi dizer, está sofrendo. Nem todo mundo gosta de ficar num subsolo”, diz Pimenta, que levará a tiracolo a tropa francesa Mandy, France, Emilien, além de João Alves, Mauro Bretas e toda a turma. Nomes como Fernanda Torres, Walter Salles, Dira Paes e até Paulo Guedes (“Ele corta com o Judy, mais tradicional”, diz Pimenta) terão de ajustar o GPS em 350 metros. Por lá, os cortes partem de 350 reais e as luzes de 1 700.
Se a procura por um canto em Ipanema ou Leblon tira o sono de alguns, para outros isso está longe de ser um problema. Lisa Gal abriu uma sala na Rua México, no Centro, depois de fazer fama no Salão Azul. E Amadeu Marins, um dos coloristas mais requisitados do momento, atende há cinco anos na Cinelândia. “Vi muita gente torcer o nariz quando disse que abriria um salão no Edifício Odeon, mas eu não tinha grana para abrir em Ipanema. Sempre fui disruptivo”, justifica. São 410 metros quadrados que recebem, por exemplo, Camila Pitanga, Gigi Barreto e Alice Wegmann. Uma balayage pode chegar a 2 300 reais. “Minha linguagem é vintage com códigos contemporâneos”, explica Marins, que se prepara para abrir um espaço num hotel de luxo e põe de pé uma parceria com o nutrólogo Rafael Costa Pinto e o hairstylist Vini Kilesse. Instalado na bucólica Urca, o ateliê de Kilesse fez escola ao oferecer um lugar reservado, sem manicures e depiladoras. Tirar uma foto no espelho com o mago das tesouras — a exemplo de retratos com Marjorie Estiano, Débora Bloch e Malu Galli, por exemplo — virou objeto de desejo.
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Na mesma linha, o estúdio de Tiago Parente, em São Conrado, segue a linha “butique”, livre de manicures. Conhecido por ser o hairstylist de Bruna Marquezine, Juliana Paes e Sheron Menezes, “Ti”, para os íntimos, fez o visagismo de Nathalia Dill e Agatha Moreira para a próxima novela das 9, Quem Ama Cuida. “A equipe de arte me diz se a personagem é fashionista, cafona, pobre ou rica, aí eu crio o visual”, descreve o português, que chegou ao Rio em 1999 e passou por vários salões da Zona Sul até abrir o próprio negócio no Leblon. Sua clientela é cativa, vai aonde ele for, e um corte com a sua assinatura parte de 980 reais “Quando cheguei aqui, os salões chiques eram o New Marité e o Jambert”, lembra. Ipanema ainda equilibra tradição e modernidade. Os descolados, por exemplo, migram para o Salão Tudo, de Carla Biriba: “É a extensão da minha casa, com um toque meio industrial”, define a responsável pelas madeixas de Bruna Linzmeyer e Débora Nascimento. Opção não falta, mas há que se ter bala na agulha para sentar em uma dessas cadeiras.





