As iniciativas para tornar a arquitetura do Rio menos hostil
Praças, viadutos e algumas calçadas ainda espantam pedestres e pessoas em situação de vulnerabilidade, mas segurança e acolhimento podem caminhar juntos
Extremamente ativo nas redes, o Padre Júlio Lancellotti denuncia com frequência casos de aporofobia — a aversão a pessoas em situação de vulnerabilidade — em diversas partes do país.
No início de 2021, o sacerdote quebrou, a marretadas, paralelepípedos instalados sob um elevado em São Paulo.
Em dezembro do ano seguinte, foi promulgada a lei federal batizada com seu nome que proíbe a chamada arquitetura hostil, a prática que se vale de estruturas pensadas para afastar as pessoas das praças, viadutos e calçadas.
Um mês antes de tais artifícios serem vetados, o empresário Denis Monsores estacionava o primeiro de três foodtrucks que hoje formam o Largo do Viaduto, sob o Engenheiro Noronha, em Laranjeiras.
“Era uma área suja, cheia de lixo. Ninguém queria circular por ali”, relembra ele, que adotou o espaço junto à Fundação Parques e Jardins, levando iluminação, banheiros e novo piso. “Um dos moradores veio trabalhar com a gente, conseguiu alugar um quartinho e agora empreende um pequeno negócio”, orgulha-se Monsores.
No entanto, logo atrás das operações comandadas por ele ainda há pedregulhos para afugentar quem busca um lugar coberto para passar a noite.
Tornar as metrópoles mais amigáveis, sem que isso signifique tropeçar em questões de segurança que tanto afetam a população, é um desafio compartilhado por urbanistas e poder público.
“Ninguém ganha enchendo essas áreas de pedra. Não há solução única, mas todas passam pela ideia de trazer movimento”, defende o vereador Pedro Duarte, presidente da Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara.
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A cidade se vende para o mundo como acolhedora, calcada nos braços abertos de seu maior símbolo, o Cristo Redentor, mas pipocam por diversos bairros bancos com divisórias centrais ou estreitos demais, como nos pontos de ônibus; sistemas de irrigação em marquises – que, aliás, vêm sendo demolidas por alguns condomínios -; e até vasos de plantas ocupando o passeio, como os cinquenta que um síndico de Copacabana espalhou em frente ao seu prédio, na esquina das ruas Santa Clara e Tonelero.
“O termo arquitetura hostil é contraditório, porque os projetos arquitetônicos existem para incluir”, observa Sérgio Magalhães, doutor em urbanismo e secretário municipal de Habitação responsável pela implementação do Favela-Bairro, nos anos 1990.
O Censo de População de Rua de 2024, divulgado em janeiro deste ano, apontou 8 200 pessoas sem-teto na capital fluminense, um aumento de 4,2% em relação a 2022.
O tema motivou uma ação do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública da União, que pediram à Justiça que a prefeitura apresentasse, com urgência, um plano de ação para o acolhimento da população vulnerável.
Sobre o assunto, em nota, a administração municipal limita-se a informar que, de janeiro a maio, “as equipes especializadas da Secretaria municipal de Assistência Social realizaram 87 656 atendimentos a pessoas em situação de rua, com 28 931 acolhimentos para unidades da rede socioassistencial”, destacando que o trabalho é contínuo e “baseado na construção de vínculos, na escuta qualificada e na oferta permanente de serviços”.
O planejamento de longo prazo para contornar essa situação, pelo visto, não tem previsão de sair do papel.
Símbolos da priorização dos carros em detrimento de pedestres, os viadutos geram poluição visual e sonora.
As áreas embaixo deles costumam ser abandonadas e inseguras. Em Buenos Aires, Cidade do México e Tóquio já há até lojas e restaurantes revitalizando esses espaços (veja abaixo), o que inspirou o vereador Pedro Duarte a elaborar um projeto-piloto para o Saint Hilaire, na Lagoa.
“A ideia é desenvolver um modelo econômico que possa ser levado a outras regiões”, explica ele, acrescentando que a Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos (CCPar) faz, no momento, um estudo de viabilidade.
Enquanto isso não acontece, outra política pública se mostra promissora.
É o programa Paradas, iniciativa da prefeitura para implantar bases de apoio a motociclistas e ciclistas profissionais.
Três das doze unidades previstas já estão em funcionamento, em Botafogo, Barra e Cidade Nova.
Os entregadores podem descansar, usar o banheiro, esquentar suas refeições e carregar celulares.
“Na inauguração da unidade do Paulo de Frontin, um morador fez questão de agradecer, falando que devido à iluminação e ao movimento ele havia perdido o medo de buscar a filha num ponto de ônibus ali perto”, conta Luciano Sabino Júnior, gerente de relações governamentais da 99, que vem investindo 50 milhões de reais em estratégias de requalificação urbana pelo Brasil – o Rio é o maior beneficiado até agora.
Que mais caminhos se abram para que toda a população se sinta, de fato, abraçada.
Selo internacional
Exemplos de soluções adotadas em metrópoles estrangeiras
Cidade do México. Além de estabelecimentos comerciais sob o viaduto da Avenida Rio San Joaquin, outra iniciativa de intervenção urbana, chamada Via Verde, espalhou cerca de 60.000 metros quadrados de jardins verticais nas pilastras de um elevado de 27 quilômetros de extensão.
Buenos Aires.
A elevação das vias do trem Mitre liberou área significativa nos bairros de Belgrano e Palermo, em 2019 e, quatro anos mais tarde, o projeto Via Viva, sob investimento da ordem de 45 milhões de dólares, modificou aproximadamente 70 000 metros quadrados de área, integrando natureza, postos de exercícios físicos, ciclovias, lojas e restaurantes.
Tóquio.
Por lá, é comum ver lojas, bares, restaurantes e outros empreendimentos sob estações de trem. Embaixo do viaduto de Shinjuku, por exemplo, fica um moderno complexo de compras e gastronomia integrado à estação de mesmo nome. A menos de dez minutos dali, há um núcleo similar na parte baixa de outro elevado ferroviário, o Omoide Yokocho.





