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A mãe de todos os grupos

Um olhar sobre os grupos de Whatapp de pais sobre a escola dos filhos na crônica de Leo Aversa

Por Leo Aversa - 24 jun 2017, 18h00
Adaptação da ilustração de adekvat/ISTOCK

— Pedrinho levou uma bronca na aula, vocês podem acreditar?

— Uma bronca? Como assim? De quem? Da professora?

— Essa mulher tá doida! Quem ela pensa que é?

— Pois é, olha a petulância: Pedrinho estava feliz da vida contando para a Valentina sobre o iPad novo e a atrevida chamou a atenção dele. Pode?

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— Essazinha é muito insolente…

— Pedrinho chegou chorando em casa! A mulher fez meu Pedrinho chorar!

— Vamos fazer um abaixo-assinado! Isso não pode ficar assim!

Não é um vídeo do Estado Islâmico, não é um aúdio do PCC. É um diálogo no Grupo de Mães no WhatsApp, a milícia da educação nacional.

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— Vocês leram o livro recomendado pela escola?

— Menina! Que horror! E não é que o lobo come a vovozinha? Absurdo! Valentina não dorme há três dias! Fica me perguntando se tem lobo aqui na Gávea, se o lobo vai comer a sua avó! E o psicólogo dela de férias! Tô desesperada. Alguém aí tem Ritalina sobrando?

— Mas que falta de sensibilidade dessa professora! Não vê que são crianças! Crianças!

— Soube que na outra turma passaram um desenho animado velho e superviolento. Já no começo a mãe do veadinho leva um tiro! Matam a mãe do veadinho! Além de velho e violento, homofóbico!

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— Foi bala perdida que matou? Foi? Essa violência tá incontrolável! Tão sabendo que tem quadrilhas rondando as escolas, né? Me passaram a notícia num outro grupo de Whats.

— Também recebi! Sequestram as babás e as mandam pra China de submarino, depois vendem os órgãos ao Paraguai e com o resto fazem hambúrgueres e salsichas. É verdade, tá na internet!

— Só as babás? Menos mau… quer dizer, que absurdo… Esses chineses são capazes de tudo, dizem que são esquerdopatas e bolivarianos! Já li vários textos no Face sobre isso.

O corpo de baile do grupo é composto de mães normais, mas as solistas da companhia são as mais sem-noção e surtadas. São as que dão o tom. Algo entre a superproteção e o alarmismo, com um perfume inconfundível de reacionarismo.

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—  Migas, e essa história de campeonato de futebol…? Pedrinho tá muito assustado! Ano passado ele foi o quarto colocado e chorou sem parar na entrega dos prêmios… Tive de ir ao shopping comprar um troféu pra ele ficar feliz.

— O professor de educação física é um ditador! Já falei mil vezes na escola que não deveria haver competição, muito menos vencedores, só medalha de participação.

— Isso! Senão fica um só feliz e o resto traumatizado! É muita crueldade! Como explicar para uma criança que ela não ganhou? Vamos fazer outro abaixo-assinado pra tirar esse professor desalmado!

— As crianças ficam abaladas pro resto da vida! Perdem a infância! Vi num site que isso já é uma doença diagnosticada, chama-se SDM, Síndrome da Derrota Mirim! Gravíssima! Nem Rivotril dá jeito! Tem de entrar direto no Prozac!

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Para as solistas, o mundo existe para frustrar suas crianças. A escola, então, nem se fala, só está lá para estragar a vida dos pequenos. Para elas, a função do Grupo de Mães no WhatsApp é evitar essa tragédia.

— Gente, vocês não sabem: Valentina hoje foi tomar um picolé na cantina e o picolé caiu no chão!

— Que absurdo! Como assim?

— Caiu da mão dela! Do nada!

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— Mas a professora não estava lá para pegar no ar? A escola não providenciou outro? O chão não estava esterilizado? Que loucura!

— Coitadinha! Ela tá bem? Levaram pro Copa d’Or? Quer o contato do meu psicólogo? Quer Ritalina? Rivotril? Tenho Prozac infantil também, sabor morango, Pedrinho adora.

— A pobrezinha tá em estado de choque, é claro, diz que não quer mais tomar sorvete na vida! Na vida!

— Inacreditável! Como permitem que algo assim aconteça! E com a mensalidade que a gente paga!

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— Brasil, né? Amiga minha que mora em Miami disse que lá isso jamais acontece.

— Isso aqui tá demais! Demais! Pra começar tem de acabar com picolé na escola, é só problema, só frustração, sorvete só em copinho. E com pratinho embaixo, pra garantir

— Isso, amiga, genial! Ainda bem que existe este grupo.

— Meninas, não vamos perder tempo: outro abaixo-­assinado! Isso não pode ficar assim!

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Leo Aversa é fotógrafo e colunista do site #colabora

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