Cariocas 60+ viram influencers e dão um sonoro ‘tchau’ ao etarismo
Talentos da maturidade acumulam seguidores, fecham contratos de publicidade e reinventam a imagem da terceira idade com muito bom humor na internet
Quem disse que depois dos 60 a vida fica sem graça? Nas redes sociais, uma turma de cariocas 60+, 70+ e até 90+ está fazendo o contrário: dança, malha, paquera, fala de sexo, experimenta looks, frequenta bares, organiza bailes e, de quebra, acumula fãs e ainda faz “publis”, como são chamadas as propagandas no universo dos aplicativos. A tendência começou lá fora, com personagens como a americana Baddie Winkle, que já tinha mais de 3 milhões de seguidores quando desembarcou no Rio, aos 89 anos, para conhecer o Cristo, assistir a uma partida de vôlei em Ipanema e cair no samba. Baddie morreu no ano passado, aos 97.
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Antes dela, Iris Apfel, que morreu aos 102 em 2024, já havia transformado óculos de armações enormes, estampas e maximalismo em manifesto contra a invisibilidade dos idosos nas redes. Hoje, a maior expoente é Lillian Droniak, a Grandma Droniak, de 96 anos, seguida por mais de 15 milhões no TikTok, onde distribui conselhos amorosos e identifica sinais de alerta em homens de comportamento tóxico ou abusivo. Bem-humorada, ela até estabelece regras para o próprio funeral. “Comecei a fazer vídeos para animar as pessoas que me seguem, mas acaba que me divirto muito também”, conta Ary Fontoura, 93 anos e dono de um séquito de 7,3 milhões de seguidores no Instagram. Na carteira de clientes de suas “publis” aparecem gigantes como Carrefour, Uber e Cif.
Se a internet ajudou a colocar a velhice no feed, ela também mudou o reflexo do espelho — e o que não faltam por aqui são exemplos de quem decidiu envelhecer sem se aposentar da própria imagem. Monica Cavalcanti, 61, criou o @60enova para compartilhar detalhes do seu processo de emagrecimento após ganhar 12 quilos na pandemia. Mais de 200 000 pessoas acompanham sua rotina de treinos e cuidados com a alimentação e a pele. Afinal, envelhecer não significa abrir mão do corpo, da vaidade ou da autoestima. “Quero ser uma velha que dança, carrega a própria mala e toca fogo no parquinho”, avisa.
Claudia Abrahão, que fará 70 anos em março, virou referência de estilo no @60maisfashion, criado após uma gerente de loja lhe dar uma “bronca” porque ela era muito estilosa, mas não tinha Instagram. Claudia mistura estampas e combina cores com seus mais de cem pares de sapatos e cinquenta óculos — distanciando-se de qualquer manual de etiqueta etária. “Uso o que eu quiser”, dispara.
Aos 93, Leda Ribas entrou nesse universo quase sem querer e viu seu perfil saltar de menos de trezentos para 10 000 fãs num único dia, graças a um vídeo em que se divertia no jazz no Armazém Cardosão, em Laranjeiras, publicado na surdina pelo neto — hoje já são 100 000 admiradores. Tanto sucesso lhe alçou ao posto de estrela da campanha de jeans da Cantão. “Nunca imaginei ser modelo ou influencer”, conta Leda, que usa em seus vídeos o bordão “coisas que jovens há mais tempo podem fazer no Rio.” Para a antropóloga Aline Gama, professora da Uerj, há uma ruptura importante nessa representação. “Não são a Dona Benta ou a Tia Nastácia fazendo bolo para os netos. Os idosos de hoje estão na academia, no teatro com as amigas, jantando fora”, observa.
Mais do que posar para a câmera, os influencers 60+ estão interessados em ocupar espaços. Kika Gama Lobo, 61, transformou a própria separação, as dificuldades financeiras, o tratamento de um câncer e o processo de envelhecimento em conteúdo e experiências. É colunista de VEJA RIO, lançou três livros, um podcast e uma festa voltada ao público maduro (leia-se, 50+), com a pista cheia de gente dançando Abba, Donna Summer e Michael Jackson. “As pessoas curtem como se estivessem com 14, 15 anos”, pontua a jornalista.
Fazer com que idosos entendam que existe vida fora de casa é a missão da octagenária Helô Reis, que há 25 anos criou um baile para espantar a tristeza após a morte do marido. O projeto, gratuito, reúne cerca de trezentos participantes a cada edição. “É um lugar para conversar, interagir e fazer amizades. Muitos deles eram sozinhos e, por passar a frequentar, tiveram a autoestima fortalecida”, diz ela. Karla Travaglia, 62, socióloga e sanitarista da Fiocruz, comprova a tese na prática: depois de perder marido, pai e cunhado para a Covid-19, encontrou nos bailes um caminho para voltar a sorrir. “Helô me resgatou”, resume.
Fernanda Vicentini, professora de conteúdo e redes sociais da ESPM, observa que o fenômeno joga luz a uma geração que vive mais, é ativa e perdeu o medo das novas tecnologias. “A vitalidade independe da idade, mas da maneira como as pessoas encaram a vida”, afirma. Leda, sem precisar de teorias, dá a melhor legenda para tudo isso: “A idade está na cabeça de cada um”. Ela está coberta de razão.
XÔ, ETARISMO!
Como os influencers 60+ mantêm a cabeça jovem
Ary Fontoura, 93 anos, @aryfontoura. “Acho que o segredo da longevidade é manter o bom humor. Além disso, meu trabalho exige curiosidade e uma necessidade constante de reinvenção. Mantenho uma rotina de exercícios e procuro viver o presente.”
Mônica Cavalcanti, 61 anos, @60enova. “Vou à academia de cinco a seis vezes por semana, cuido da alimentação e encaro a musculação como investimento para continuar independente.”
Claudia Abrahão, 69 anos, @60maisfashion. “Não peço licença a ninguém para me vestir. Invento minhas próprias regras e uso a moda como forma de expressão, sem obrigações.”
Leda Ribas, 93 anos, @ledaribasr. “Sair de casa é o principal. Gosto de dançar e frequento bares, museus, teatro e cinema com os amigos. Descobri recentemente o prazer de experimentar coisas novas, como posar para fotos.”
Kika Gama Lobo, 61 anos, @kikagamalobo. “O importante é estar cercada de gente. O isolamento é um dos maiores inimigos da maturidade. Minha agenda social passa longe da aposentadoria.”
Helô Reis, @bailedahelooficial. “A dança e a convivência são os antídotos da solidão. Só de me arrumar e sair de casa já sinto a autoestima melhorar.”







