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Tulio Brandão Por Tulio Brandão, jornalista atento a cidades sustentáveis Em busca da linha fina entre a transformação urbana e o patrimônio natural

Complete a lista, carioca

Um ensaio reduzido do patrimônio que jorra de todos os poros e cantos do Rio de Janeiro

Por Tulio_Brandão Atualizado em 18 jun 2021, 18h59 - Publicado em 18 jun 2021, 16h48

A luz prateada das manhãs de primavera, a bruma de maresia em dias quentes de mar gelado, o tapete de folhas do outono na Praça Paris, o pôr-do-sol com aplauso no Arpoador, o pôr-do-sol com pastel de camarão em Guaratiba, o mergulho em Ipanema nos dias de maré roxa, as ondas certas da Prainha, a vista do caminho para Grumari, a gigante Pedra da Gávea, os banhos de cachoeiras nos maciços da Tijuca e da Pedra Branca, as nossas inúmeras florestas encantadas de Mata Atlântica.       

O suor brilhante do puxador de samba no ensaio da escola, o sorriso iluminado da passista que reina na Sapucaí, a cerveja na estátua do Bellini antes do jogo do Maraca, o concreto quente do velho estádio, a cadeira fria do novo estádio, os shows no andaime do velho Circo, os shows na pista do novo Circo, o samba que se espraia pela Lapa, o transe dos bailes funks, a resenha no boteco de short e chinelo, o chope gelado em dia quente, a democracia praiana, a mania da intimidade, o abraço gratuito, o sorriso fácil.

O ambulantes de praia de passo firme e voz potente, a tia generosa que convida para o churrasco farto na laje, o trabalhador que transborda alegria dentro do vagão apertado de trem, o cliente de chinelo no restaurante e no cinema, a jogadora sarada de altinho, os anônimos que ficam famosos, os famosos que viram anônimos, os garimpeiros do mar, os surfistas do Arpex, os garis, os guardadores, os jornaleiros, a eterna caminhante da orla, os ciclistas da madrugada, o vendedor de fitas cassetes de jazz, os livreiros da Carioca, a foliã da Pedra do Sal.   

O biscoito Globo, o mate de galão, o cachorro quente Geneal, o camarão na moranga das Vargens, o queijo coalho, a água de coco, o angu do Gomes, o cachorro quente do Oliveira, o podrão (e por que não?), o frango assado das padarias, a feijoada da Tia Surica, o torresmo do Bode Cheiroso, os bolinhos do Aconchego, o bacalhau do Adegão Português, a codorna do Feio, o picolé do Morais, a kafta do chileno, as batidas do Osvaldo, o tacacá da Rose, os bolinhos de aipim da Baiana.  

Esta lista é apenas um ensaio reduzido do patrimônio que jorra de todos os poros e cantos do Rio de Janeiro. É, também, uma provocação ao carioca da gema mais orgulhoso de seus valores fundamentais – para que ele preencha este incompleto catálogo com suas ricas memórias pessoais. Afinal, listas são feitas para lembrarmos e celebrarmos a existência de quem ficou de fora e merece um lugar na história.

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O texto vale também como uma tentativa de estimular, no Rio, uma espiral positiva que nos afaste cada vez dessa mistura tenebrosa de milícia, violência, fundamentalismo religioso, falta de educação e desordem pública tão recorrente nos últimos anos. Até porque está em curso uma batalha em torno da alma carioca.

Quem somos nós? Certamente somos tudo o que dizem, do pior ao melhor. A luta será sempre enaltecer e fortalecer o que há de mais construtivo em nossa cultura e em nossos valores, para quem sabe recolocar o barco do natural do Rio no prumo, sem perder nossa essência de vista.

A ideia desta coluna surgiu quando lia sobre a civilizada Copenhague. A capital dinamarquesa vibra em frequência particular – o povo local tem orgulho de cultivar prazeres simples, como celebrar um café ao ar livre com amigos. É algo distante do luxo, da pompa, e em comum com o francês savoir-vivre eles cultivam apenas o prazer da conversa fluida. Os dinamarqueses se orgulham de seus hábitos de custo baixo e buscam declaradamente a felicidade das pequenas coisas. A este espírito, a esta forma de viver, deram o nome de hygge (pronuncia-se “ruga”).

Há algo em comum com o carioca-raiz: a felicidade encontrada na simplicidade. Mas temos, claro, grandes diferenças, para o bem e para o mal. É preciso deixar no passado as regras de falsos malandros que só nos afundaram, como “levar vantagem em tudo”, e valorizar os hábitos e a cultura que realmente inspiram o mundo.

Os dinamarqueses concentram seus valores na expressão “hygge”. Que expressão resume o melhor do espírito do habitante do Rio? Talvez a palavra já exista. Basta que o gentílico da cidade vire, com muita propriedade, um adjetivo com novas notas semânticas: “carioca”.

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