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Teatro de Revista Por Blog Espetáculos, personagens, bastidores e tudo mais sobre o que acontece na cena teatral carioca, pelo olhar do crítico da Veja Rio

Ator consagrado, Bruce Gomlevsky fala sobre seu trabalho como diretor

Na matéria de capa da última edição de VEJA RIO, na qual eu enumerava trinta razões para ir ao teatro na cidade (leia aqui), um dos itens da lista coube à ascendente carreira do ator Bruce Gomlevsky como diretor. Em março último, inclusive, ele foi premiado pelo júri da Associação dos Produtores de Teatro do […]

Por rafaelteixeira - Atualizado em 25 fev 2017, 19h06 - Publicado em 4 jun 2013, 22h16

Na matéria de capa da última edição de VEJA RIO, na qual eu enumerava trinta razões para ir ao teatro na cidade (leia aqui), um dos itens da lista coube à ascendente carreira do ator Bruce Gomlevsky como diretor. Em março último, inclusive, ele foi premiado pelo júri da Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro pela direção do excelente drama O Homem Travesseiro. Já são sete peças no currículo, uma delas atualmente em cartaz: Pai, monólogo dramático de Cristina Mutarelli, com Rita Elmôr (na foto acima, com o próprio Gomlevsky). Também é dele a direção de Aos Domingos, drama de Julia Spadaccini, atração da Mostra Cena Carioca, no Galpão Gamboa, entre os dias 15 e 17 de junho, e que reestreia no dia 31 do mesmo mês, no Teatro Maria Clara Machado. Gomlevsky conversou com o blog sobre o seu trabalho como diretor. Confiram:

Como você começou a se interessar pela direção?

Aconteceu naturalmente, a partir do momento em que comecei a produzir e escolher meus próprios projetos. Comecei espontaneamente a me interessar por cada detalhe que compõe um espetáculo, pela luz, pelo cenário, pela dramaturgia e, sobretudo, pelo trabalho dos atores. O primeiro espetáculo que dirigi foi Zoo Story, de Albee, junto com Daniela Amorim, em 2004. Depois, dirigi Línguas Estranhas, do australiano Andrew Bovell, junto com Daniela Pereira de Carvalho. Em 2008, fundei minha companhia, Teatro Esplendor, na qual dirigi Festa de Família, de Thomas Vinterberg, Volta ao Lar, de Harold Pinter, e O Homem Travesseiro, de Martin McDonagh. Neste ano, dirigi Aos Domingos e Pai.

De que forma o seu conhecimento como ator ajuda — ou atrapalha — na função de diretor?

Meu trabalho de ator é fundamental para me ajudar a dirigir, pois acho importante conhecer por dentro o processo do ator e as implicações do ofício de atuar. Qualquer diretor deveria, em algum momento da vida, subir num palco e passar pela experiência de atuar. Dirigir me ajuda a respeitar o trabalho do diretor quando estou apenas atuando. Na arte, como na vida, é importante sair do próprio umbigo e experimentar o que o outro vive.

Como é dirigir a si próprio, como você fez em O Homem Travesseiro? Você prefere dissociar essas experiências em cada espetáculo ou se sente à vontade nas duas funções, simultaneamente?

Dirigir, produzir e atuar, como fiz em O Homem Travesseiro, é uma tarefa árdua, porém muito gratificante. Exige uma preparação e um método. Eu filmo os ensaios e começo a trabalhar com a minha assistente muito tempo antes de todo o elenco chegar. Não me vejo atuando e dirigindo em todos os espetáculos. Em alguns eu quero somente atuar, em outros apenas somente dirigir. Mas assumir as duas funções simultaneamente é ao mesmo tempo desafiador e muito gratificante.

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Como você se define como diretor?

Sou um diretor aprendiz. Quero achar sempre a melhor maneira de contar uma história, com honestidade, simplicidade, sem atrapalhar o autor e os atores. Estou a serviço deles. Acho que o diretor que pensa que tem estilo está sempre se autoplagiando. Quero sempre desafios, me colocar em risco. Aceito o “não saber” como pré-requisito fundamental pra arte, gosto de descobrir, como um cientista ou explorador, sem ideias prontas. Cada filme do Stanley Kubrick, apesar das semelhanças, parece ser dirigido por um outro diretor. A ideia é reinventar-se sempre.

O que você pode nos dizer sobre o seu trabalho em Pai?

Pai é a historia de Alzira Pontes Pastore, uma mulher brasileira, contemporânea, que teve a infelicidade de ter um pai opressor, abusador e ausente. O texto, muito bem escrito, nos remete a Carta ao Pai, de Kafka, pela honestidade e desnudamento com que a personagem se coloca, realizando um definitivo e inevitável acerto de contas com seu pai, no qual segredos, confissões, afetos, desafetos e ressentimentos vêm à tona. Fui convidado pela Rita Elmôr para dirigi-la e aceitei de imediato, pela qualidade do texto e pelo talento da Rita que, para mim, é uma das maiores atrizes da nossa geração.

Suas duas últimas peças como diretor, Aos Domingos e Pai, tratam de relações familiares. Apesar do tema comum, que diferenças você observa entre elas?

As duas peças tem a família e, sobretudo, o pai ausente como tema, mas são formas dramatúrgicas bem distintas, e diferentes maneiras de abordar o trabalho do ator. Em Aos Domingos, existe um approach quase cinematográfico em termos de interpretação. Em Pai, apesar do realismo ser a base, há uma tentativa em outras direções, muito pelas inúmeras possibilidades e ecletismo que a Rita traz como atriz.

Quais são os seus próximos projetos?

Tenho sempre muito projetos na cabeça. Neste ano, lanço um CD com composições próprias e estreio como ator um monólogo chamado Sexy Times, do Marcelo Pedreira. Quero fazer Hamlet, com direção do Mauro Mendonça Filho. E, com a minha companhia Teatro Esplendor, quero fazer Funeral, que é uma continuação de Festa de Família. Não consigo ficar parado.

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