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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Fundamentalismos temem o conhecimento

A escola pode dedicar pelo menos um dia por semana às notícias da realidade para que os alunos analisem e discutam o mundo em que vivem

Por Patricia Lins e Silva 26 jul 2021, 11h33

Surfar nas ondas de informações da internet pode ser bem divertido para quem tem tempo, mas sabemos que também pode ser uma perdição para quem tem prazo de trabalho e não consegue resistir às correntezas e marolas variadas que nos desviam do rumo inicial e levam para outros universos. Para uma pessoa curiosa e dispersa, é uma tentação permanente, e muita gente se perde no mar sem fim da internet. Mas, com frequência, se encontra o que vale a pena (porque o mar não é pequeno) mesmo que não se chegue ao objetivo inicial.

Um dia, estava eu a procurar informação sobre um brinquedo para minha neta, e entrei numa dessas ondas, que todos bem conhecemos, e ela se desmanchou num vídeo com uma palestra do geneticista Craig Venter. Fiquei interessada porque sabia que ele era um dos pioneiros do mapeamento do genoma humano. Trabalhou paralelamente à  investigação e pesquisa oficial norte-americana e depois juntaram-se todos e concluíram uma das maiores façanhas da humanidade que foi o mapeamento genético humano. O evento só foi possível no prazo de menos de uma geração por causa da tecnologia digital. Os cálculos são tão complexos e colossais que só a capacidade de calcular e a rapidez de computadores poderiam dar conta. A genética é um assunto muito sedutor e fascinante. Pensar que cada gene tem um código específico para produzir um tipo de proteína que desempenha uma função determinada no corpo é de cair o queixo! E as consequências do mapeamento, como as possibilidades das terapias genéticas, mostram o tanto que será possível fazer para o bem da humanidade (e para o mal também…).

Numa das palestras a que assisti, Craig Venter faz refletir sobre um assunto que nos assombra agora e que tem a ver com o mundo erodido, inquieto e angustiado em que estamos vivendo. Diz Venter que a humanidade está temerosa do saber que construiu ao longo de séculos, teme o conhecimento que vem acumulando, sobre o cosmos, sobre o planeta, sobre os organismos, sobre o nosso organismo. A humanidade inventou a tecnologia digital que permite informação imediata – falsa ou não – sobre tudo o que acontece. Convivemos com guerras étnicas e religiosas, que achávamos que estariam ultrapassadas no século 21. Aprendemos nas telas que existe matéria escura no espaço, buracos negros, aquecimento global, nano-objetos, diferentes gêneros e a terapia genética pode levar a mudar as próprias formas de vida como as conhecemos. São possibilidades de um futuro muito distópico, estarrecedor, assustador. Essa informação mal compreendida não justifica, mas em parte pode explicar os fundamentalismos, as polarizações, os ódios e raivas como uma reação de temor e ilusão nostálgica de que o mundo era menos complexo, com menos ideias a analisar. Muita informação parece trazer muito saber mas não se pode esquecer que existe esse lado perigoso que contribui para cristalizar ignorâncias e incentivar as superstições. É preciso esclarecer as pessoas sobre o que acontece no mundo, é preciso que consigam analisar e pensar sobre as complexidades da nova realidade. O lugar ideal para o esclarecimento é a escola.

É na escola que as pessoas vão aprender a diferença entre superstição e ciência, vão poder perguntar sobre tudo a que assistem e escutam, tirar suas dúvidas. Vão aprender o que é polarização, discutir o que é fundamentalismo, aprender genética, matéria escura e muitas outras coisas. A escola poderia dedicar pelo menos um dia por semana às notícias do momento, com os alunos propondo os temas, contando o que viram e ouviram, com longas conversas e discussões. O professor faz parte do grupo e também tem assuntos além de fazer a mediação das discussões. Este tipo de atividade desenvolve a lógica, o respeito ao outro, a escuta, o pensamento crítico e tantas coisas possíveis. Todos os fatos que acontecem na vida se referem a muitas áreas de conhecimento, portanto a realidade é o currículo mais interessante e motivador.

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