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Patricia Lins e Silva Por Patrícia Lins e Silva, pedagoga Educação

Educação: o que trouxe a escola à atual crise de relevância

Nossa visão de mundo limita nossa capacidade de criar possibilidades inovadoras para a educação

Por Patricia Lins e Silva - 8 set 2020, 18h40

Futuro de segunda mão.      

         Todos já vimos fotos de cidades futurísticas, com prédios de arquitetura arrojada, altos, exóticos, que abrigam muitos escritórios, empresas, moradias e gente, com longas vias expressas cortando a paisagem com formas sinuosas, pontes maravilhosas e outras belezas. Algumas cidades asiáticas atuais correspondem a esse perfil. Mas é curioso que não parecem novidade, não chegam a nos surpreender, porque correspondem à representação interna que temos em nossas mentes do que seriam cidades do futuro.

         Segundo Sohail Inayatullah, Professor na Universidade da Australia e que faz pesquisas sobre educação no futuro, essa falta de estranheza, a sensação de déjà vu acontece porque essas cidades representam o que ele categoriza como um futuro ‘usado’, ultrapassado. Esses projetos de megacidades, na verdade, surgiram no século passado, no ocidente, e todos os prefeitos daquele tempo sabem a infinidade de problemas que geraram: ocupação territorial descontrolada, problemas de transporte público, de habitação, questões sanitárias graves e muitos outros. As grandes cidades continuam a atrair gente pela oferta de trabalho, mas ao preço de uma baixa qualidade de vida. As construções ousadas e monumentais, muitas vezes, deixaram de levar em conta uma série de problemas para que a vida nessas megalópoles fosse mais aprazível. Entre eles, a necessidade de manter ou criar áreas verdes entre as regiões mais poluentes e os bairros e as enormes distâncias entre o local de trabalho e as casas das populações menos favorecidas. Essas cidades atuais são, para Inayatullah, um exemplo de futuro ‘usado’.

         As imagens de futuro que exprimimos, em geral, chegam às nossas mentes pelo cinema, pelos seriados e filmes de televisão, por leituras diversas, pelo que vimos em algum lugar ou escutamos de outras pessoas. Portanto, é comum imaginarmos futuros ‘de segunda mão’. O conceito de futuro ‘usado’ ou de ‘segunda mão’, ou mesmo ‘vintage’, evoca nossa percepção de que muita coisa que nos pareceu algum dia ultra futurística, agora se afigura obsoleta.

         Essas cidades pavimentadas com muito asfalto, onde se imaginam carros movidos a combustíveis fósseis, num ambiente pouco acolhedor, inóspito à vida, vinculam nosso pensamento diretamente à atual crise global, com mudanças climáticas dramáticas, escassez de água potável, desigualdades econômicas e sociais, questões sanitárias etc. Reconhecemos um projeto de futuro ‘usado’, já que sabemos da necessidade de uma transformação importante no tipo de vida que levamos.

         A Educação e a escolaridade também estão no rol de exemplos de futuros ‘usados’ do professor Inayatullah. Sistemas educacionais com objetivos dos séculos passados, mesmas pedagogias de cima para baixo, separação dos alunos por idade, conhecimentos obrigatórios sem contexto, tudo isso trouxe a escola à atual crise de relevância. E não adianta ter introduzido novas tecnologias e novas situações sociais na escola porque não houve mudança de paradigmas. Compôs-se um futuro ‘vintage’, com uma nova mistura dos mesmos ingredientes.

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         Ter originalidade para fantasiar o futuro é difícil. Nossa visão de mundo, que se constrói na realidade em que vivemos, limita nossa capacidade de criar possibilidades realmente inovadoras de futuro para a Educação. John Moravec, no site Emergent Futures, diz que há uma crise de imaginação na Educação e na escolaridade porque até as escolas retratadas em filmes e programas populares de ficção científica, como Star Trek, Starship Troopers e até mesmo Ender’s Game, são iguais às de mais de um século atrás.

         O avanço das tecnologias digitais em sinergia com as ciências já provocou mudanças radicais nas necessidades da sociedade, o que obriga a uma reflexão séria sobre o que é e o que faz uma escola, como as novas gerações devem ser educadas para que participem do novo ambiente. Isso vai exigir muita inovação para confrontar as ideias sobre ensino e aprendizagem construídas no passado.

         Uma pesquisa rápida na internet dá acesso a diferentes experiências mundo afora que podem apoiar educadores e formuladores de políticas educacionais na construção de novas perspectivas. Muitos grupos estão pensando não apenas em maneiras diferentes de propor a Educação Básica e Superior, mas também discutem a ideia de Educação de uma forma bem mais extensiva. Conhecer o que outros pensam ajuda a ampliar a capacidade de criar. Mesmo com a globalização e o mundo conectado, as culturas continuam muito diversas e nem todas as ideias serão úteis para todos, mas a troca pode ajudar a conceber um ponto de partida num mundo com tão poucas certezas.

         Professores e alunos podem ser agentes de mudança ao mudarem a si próprios. Conta Moravec que três professores da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia, em Trondheim, ministram um curso de doutorado, ‘Reologia e fluidos não newtonianos’, em que eliminaram o uso de livros tradicionais, as aulas expositivas e os exames formais. Abordam o curso com o princípio heutagógico, que é aquele em que o aprendiz é responsável por procurar o conteúdo que precisa aprender, é o aprendiz que busca conhecimento. O professor é um facilitador do processo.

         Todos temos, pelo menos, algumas ideias de como poderia ser um futuro renovador para a Educação. É difícil descrever alguma coisa muito diferenciada, mas a troca de ideias pode fazer avançar, pelo menos, a criação de novos significados.

         É um bom exercício para todos os educadores imaginar o futuro da escola para além de um futuro “usado”, de “segunda mão” ou “vintage”.  

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