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Manual de Sobrevivência no século XXI Por Analice Gigliotti, Elizabeth Carneiro e Sabrina Presman Psiquiatria

Que bem eu te fiz, para me quereres tão mal

Confiança e empatia, fundamentais na relação médico-paciente, ficam ainda mais em voga com a Covid-19 e as consultas on-line

Por Analice Gigliotti Atualizado em 23 jun 2021, 14h24 - Publicado em 23 jun 2021, 10h29

A relação médico-paciente está fartamente retratada na literatura (de Dostoievski a Dráuzio Varella), no cinema (“Patch Adams” e “Tempo de Despertar”, apenas para citar dois filmes) e na infinidade de séries médicas dos canais de streaming. Mas o que o público-leigo desconhece é que este é um dos pontos mais essenciais na prática do nosso ofício. “O primeiro remédio é o médico”, aprendi ainda na faculdade. A partir do momento em que um profissional de saúde atende as necessidades de um paciente, está estabelecido um relacionamento com diversas implicações: o paciente deposita a esperança na cura naquele profissional e o médico, por sua vez, assume responsabilidades acerca daquela pessoa. Esta dinâmica talvez seja o caráter mais bonito e gratificante da Medicina.

O assunto fica ainda mais palpitante em um momento que vimos tantos pacientes aos cuidados de profissionais de saúde, em todo o mundo. Se, por um lado, atingimos a trágica marca de 500 mil mortos de Covid-19 no Brasil, por outro lado, já passamos de 17 milhões de sobreviventes da doença. Seguramente, cada um deles tem uma história para contar da relação que foi – ou não – estabelecida com o corpo médico que o ajudou a atravessar uma doença tão sorrateira e oportunista, como a provocada pelo coronavírus.

De um modo geral, quando as expressões artísticas abordam o universo médico, elas se debruçam sobre fundamentos básicos da relação médico-paciente: a boa comunicação, a empatia, a confiança, o conhecimento dos limites profissionais e o consentimento informado (termo em que o paciente confirma estar informado sobre os riscos e consequências de determinada intervenção médica).

Porém, trata-se de uma relação de mão dupla: se os médicos tem suas responsabilidades, os pacientes também tem seus comprometimentos. Salvo esteja acordado entre as partes, o paciente deve evitar ligações muito frequentes para o médico ou cancelamentos de consultas em cima da hora. Profissionais de saúde se veem ainda diante de outros desafios, como o de administrar os pacientes que já vem “diagnosticados e tratados” pelo mais unânime – e falho – colega de profissão: o Dr. Google.

Todos estes conceitos que, de uma forma ou de outra, estavam bem estabelecidos antes da pandemia, foram chacoalhados depois do advento da Covid-19. As consultas on-line trouxeram outros códigos de conduta – todos fomos obrigados a nos acostumar, sem aviso prévio, a uma enxurrada de mensagens de WhatsApp, que sempre são enviadas com o desejo de serem respondidas o mais rápido possível. Se alguns se adaptaram rápido e sem sofrimento ao atendimento remoto, outros se ressentem do encontro presencial para se sentirem conectados, especialmente os de mais idade.

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Mas nem tudo são flores na relação médico-paciente. Embora o paciente precise de ajuda e o médico deseje honestamente ajudá-lo, não é raro que a relação seja conflituosa, como pode ocorrer em todas as relações humanas e em todas as profissões. Eventuais desencontros nesse convívio delicado podem resultar em pacientes agressivos ou exigentes em demasia. O médico precisa ter sensibilidade para compreender o que o paciente está comunicando com tal comportamento atípico. Muito provavelmente trata-se de indivíduos marcados por uma grande fragilidade ou pessoas com outros transtornos mentais, como bipolaridade, por exemplo, que precisam de auxílio profissional. Conseguir lidar bem com conflitos fortalece os laços na relação médico-paciente.

E é justamente nessa dinâmica que às vezes um paciente busca um médico para uma coisa e o especialista identifica a necessidade de ajudá-lo em outra porque muitas vezes o paciente não tem conhecimento sobre sua própria patologia. O grande médico e professor Adib Jatene dizia que “é preciso diferenciar o médico do técnico”. O técnico se interessa pela doença, o médico se interessa pelo doente: quem é aquela pessoa, o que ela sente, o que precisa e o que é possível fazer para aliviar seu mal estar.

Como afirmou o psicanalista húngaro Michael Balint, “toda doença é também veículo de um pedido de amor e atenção”. Portanto, o que decide se um paciente permanecerá acompanhado por um médico consiste mais na habilidade que este tem em lidar com o paciente do que nos seus eventuais conhecimentos científicos. Enquanto a medicina permanecer o encontro de dois seres humanos – mesmo que intermediados pela tecnologia – a empatia e a confiança continuarão sendo fatores preponderantes.

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Esses e outros pontos serão explorados, via Zoom, na live “Que bem eu te fiz, para me quereres tão mal: um desencontro na relação médico-paciente”, nesta 5ª feira, 24 de junho, às 19h30, com a participação do neurologista Paulo Niemeyer Filho, do presidente do Instituto de Medicina e Cidadania Luiz Roberto Londres e do médico cirurgião do INCA Eduardo Linhares, com moderação do psiquiatra Mauricio Tostes e coordenação do Dr. Flavio Cure, da Dra. Lorraine Veran, do Dr. Alfredo Guarischi e minha. Esperamos vocês.

Analice Gigliotti é Mestre em Psiquiatria pela Unifesp; professora da Escola Médica de Pós-Graduação da PUC-Rio; chefe do setor de Dependências Químicas e Comportamentais da Santa Casa do Rio de Janeiro e diretora do Espaço Clif de Psiquiatria e Dependência Química.

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