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Lelo Forti Por Lelo Forti, mixologista

Não existe vida sem um balcão de bar

Bar é a celebração da vida. O consolo do perdedor, o pódio do vencedor, o lenço dos que partiram, o charuto dos que chegaram. É sinônimo de vida

Por Lelo Forti - Atualizado em 6 Maio 2020, 13h10 - Publicado em 5 Maio 2020, 13h30

Não sei qual vai ser nosso normal depois que tudo isso passar. Não faço ideia o que vai acontecer, mas, confesso que não saberei viver sem um balcão de bar.

Acreditem, não tem nada a ver com o fato de ser minha profissão, ou meu ganha-pão, ou até mesmo pelo álcool. Não é. Se fosse somente isso, poderia eu beber meu estoque caseiro, minhas garrafas colecionadas ao longo dos últimos vinte anos. Estou bem abastecido por longos anos.

Falo na contramão disso. Bar é sinônimo de festa. Celebração da vida. É onde as pessoas são, somente, pessoas. Médicos, advogados, pedreiros, juízes, balconistas, não importa. Bar é sinônimo de happy hour, de encontrar os amigos, fazer novos futuros amigos, é ser chamado pelo nome pelo garçom, é conhecer os funcionários, é entender a dinâmica do balcão. Bar é ver um bartender entregar um Dry Martini seco, com três azeitonas para uma pessoa e conviver pacificamente com outro cliente que só quer tomar um cafezinho. Bar é amendoim com casca, ovo frito, squab e satay.

Bar é sinônimo de afrouxar gravatas às 17 horas, é o Olimpo para quem não quer competir, é o local de encontros e lugar de experimentação etílica, gastronômica e humana.

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É onde se ouve as piores cantadas, as melhores piadas. O balcão de bar, como disse Cazuza, é a igreja de todos os bêbados, mas é também o altar dos desesperados, o ponto de partida do artista, do boêmio, do escritor, do poeta. Nenhuma bebida do mundo é tão boa (ou ruim) como a servida no balcão de um bar.

Um mundo sem balcão de bar é um mundo muito ruim. Que mundo seria este sem um balcão pra chamar de seu? Em todos os corações humanos existe um balcão de bar favorito. O que seria viver sem um torresmo do bar do Bigode em Juíz de Fora, ou sem um chope do Jobi, regado de resenha e paqueras mil?

Eu não quero viver num mundo sem um bar. Bar é um acontecimento. É onde nascem projetos arquitetônicos e nossas músicas. Pare e analise: não existiria “Garota de Ipanema” se não existisse um bar. Tom Jobim nunca teria conhecido Vinícius de Moraes numa igreja.

Filas no caixa, filas pra pagar, aglomeração de cotovelos sobre o balcão, fila pro xixi. Nada disso tem importância quando estamos num bar. Conhecemos pessoas, nos apaixonamos. Pedimos ao garçom entregar um recadinho, escrito em um guardanapo na mesa ao lado, junto com um Negroni, ou um Apple Martini.

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Depois da roda, o bar é nossa maior invenção. Foi o lar de Picasso e onde Ernest Hemingway teve suas maiores inspirações, após rodadas intermináveis de conhaque, Daiquiris e Mojitos.

Foi no bar que nasceu Cazuza, Renato Russo, Zeca pagodinho, Madonna, Bruce Willis. Foi no balcão de bar, onde nasceram nossos maiores clássicos. Negroni, Daiquiri, Blood Mary, Dry Martini, Boulevardier, Sidecar, etc. Já imaginou um mundo sem eles?

Acabei de assistir ao filme “Yesterday” (2019), do diretor Danny Boyle. Após sofrer um acidente, um cantor e compositor acorda em uma estranha realidade em que ele é a única pessoa que lembra dos Beatles. Com as músicas de seus ídolos, ele se transforma em um grande sucesso, mas a fama tem seu preço.

Foi vendo esse filme, muito divertido, que me inspirei a escrever esta crônica. Como seria então um mundo sem os Beatles, coca-cola e bares? Seria um mundo Puramente “Covidiano”, onde eu não gostaria estar.

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Sou uma pessoa que se adapta facilmente. Poderia, ou melhor, abriria mão de quase tudo que possa ocasionar aglomeração. Deixaria de frequentar teatros, cinemas, shows, estádios de futebol e até a praia por o tempo que for necessário.  Mas viver num mundo sem um bar é viver na escuridão, no limbo do ócio, beirando ao distúrbio cerebral e à loucura.

Cada indivíduo tem seu(s) motivo(s) e argumento(s) de sobra pra estar no bar. Como explicar que uma pessoa é capaz de percorrer grandes distâncias, correndo alguns riscos só para beber um Oldfashioned no seu balcão favorito, e se recuse a sair de casa pra ir até a esquina comprar algo necessário para sua casa?

Muitas são as doses consumidas no balcão de um bar: do álcool ao bate papo, do Bolovo a leitura acompanhada de uma taça de espumante.

Quer a verdade sobre um indivíduo? Não marque uma reunião ou analise seu currículo. Melhor, convide-o para uma rápida chegada no balcão do bar. Rapidamente você terá todas suas respostas.

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Essa magia é única, eficaz e extremamente necessária para o equilíbrio humano. Freud explica, Darwin indica e Eisntein consumia.

Não sei você, mas quando os especialistas de saúde, governantes ou até mesmo Deus, liberarem a reabertura dos bares, convido você a me acompanhar se puder. Me considero privilegiado em poder vivenciar esse novo mundo, onde só sobreviveremos com novos hábitos, mas o bar será nosso refugio imediato, pois a demanda reprimida por um balcão é quase insustentável.

Deu vontade de beber seu drinque favorito? Te espero, assim que pudermos.

Cheers.

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