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Utopia

Acabo de ler Trópicos Utópicos, do Eduardo Gianetti, livro que faz uma reflexão crítica ao ideal racional e produtivo do Ocidente e relembra as qualidades da nossa tão desmerecida colonização portuguesa. Gianetti reafirma os valores de uma miscigenação que só se deu aqui graças a colonizadores ibéricos que, ao contrário dos protestantes do norte europeu, […]

Por Daniela Pessoa Atualizado em 25 fev 2017, 17h21 - Publicado em 1 out 2016, 01h18

ISABELLE BARRETO

Acabo de ler Trópicos Utópicos, do Eduardo Gianetti, livro que faz uma reflexão crítica ao ideal racional e produtivo do Ocidente e relembra as qualidades da nossa tão desmerecida colonização portuguesa.

Gianetti reafirma os valores de uma miscigenação que só se deu aqui graças a colonizadores ibéricos que, ao contrário dos protestantes do norte europeu, se desenvolveram em contato com culturas exóticas, vindas da África e do Oriente.

Essa permissividade não proibiu o batuque dos africanos e assimilou a natureza festiva e contemplativa dos índios. O livro resgata Gilberto Freyre e convida a refletir sobre a possibilidade de sermos mais do que subocidentais com complexo de vira-lata.

Li Casa Grande e Senzala quando era muito nova e me lembro do impacto de ver a escravidão pelo avesso, de descobrir a potência dos africanos, sua cultura, sua alegria e da pena que tive das sinhás portuguesas, que viviam doentes, parindo os filhos dos senhores de engenho. A obra me fez olhar para a força criadora, fundadora da nossa herança negra.

Depois, eu soube que Gilberto Freyre havia caído em desgraça, e que a versão sensual, dançante da relação entre senhores e escravos mais servia para expurgar a culpa dos brancos do que para reconhecer a dívida social para com os afro-brasileiros.

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Entristeci e guardei Gilberto Freyre para mim.

E qual não foi minha surpresa ao ver Gianetti trazê-lo à tona. Somos um país racista, violento, triste, desigual, não há dúvida, mas não só.

Trópicos Utópicos dedica-se ao Brasil apenas no terço final, depois de uma série de pequenos ensaios que esmiuçam as lacunas mal preenchidas pela crença na ciência e na tecnologia, passam pelo mistério da fé, exploram o esgotamento dos recursos naturais do planeta e denunciam a concentração de riqueza.

Numa das passagens mais bonitas do livro, um jornalista pergunta a Mahatma Gandhi sua opinião sobre a civilização ocidental e o indiano responde que “seria uma boa ideia”. Do alto dos 5 000 anos de história da Índia, Gandhi tem a ousadia de se referir à Europa como uma sociedade imberbe.

Gianetti propõe algo semelhante: uma desobediência civil às regras de imitação, ao mais do mesmo da globalização. É um livro utópico, o título já denuncia, mas, numa hora em que todas as ilusões caíram por terra, urge recuperar um ideal futuro, quimérico de país.

O livro me causou uma epifania parecida com a que experimentei na cerimônia de abertura da Olimpíada. Um misto de consciência ecológica com redescoberta do caráter nativo. Não é nada concreto, é um sentimento romântico de pertencimento, de diferença, de propriedade, que talvez se chame cultura.

Nem todos a têm. E os que têm deveriam prezar por ela.

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