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Leia na crônica de Fernanda Torres

Por Fernanda Torres 27 mar 2017, 20h18

Tenho nojo de nuggets, blanquete de peru, tênder de Natal, de hambúrgueres, quibes e croquetes de caixinha, além de salsichas em geral. Sempre desconfiei de que a gororoba prensada a máquina escondia a origem duvidosa do que era vendido como carne. Agora, veio a confirmação.

Vi, num filme, um sugador que chupava a cartilagem, os olhos e os tendões de uma galinha recém-descarnada, para serem triturados e utilizados na confecção da lista acima. Nem o composto de carne humana de Soylent Green, velho filme apocalíptico com Charlton Heston, me deu tanta aversão.

Rita Lobo tem razão quando diz que não podemos transformar comida em elemento químico, mas basta uma volta pelo corredor de qualquer supermercado para ter agravada a paranoia de que todo alimento é veneno. Envoltos em atraentes embalagens, desfilam pães esfarelentos de bromato, morangos artificialmente agigantados, margarinas transgênicas, biscoitos com corantes cancerígenos e aberrações chamadas chester.

O chester.

A ideia de uma ave possuidora de um peito mais avantajado do que o das demais não é das mais sedutoras. O nome me fazia crer que o superfrango era uma invenção dos gringos, como o refrigerante e a comida em lata. Mas um amigo americano, surpreso com a iguaria, garantiu que não existe chester nos Estados Unidos. O galináceo é uma invenção 100% made in Brazil e inflado a hormônio, para atingir proporções massísticas em velocidade acelerada. Quem se habilita?

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Ensopados, guisados e sopas de entulho, a tradicional feijoada, a açorda portuguesa, e muitos pratos típicos que utilizam restos, nasceram da necessidade. Na falta de carnes nobres, valia-se da criatividade para dar sabor às sobras e da pimenta para disfarçar o gosto. As carnes faisandées, não sei se o confit de canard se enquadra nelas, provam que algum grau de putrefação pode até servir ao paladar. Grandes descobertas gastronômicas devem muito à luta contra o desperdício.

A insalubridade e a ganância, no entanto, pertencem a outro departamento.

No filme A Grande Aposta, de Adam McKay, sobre a especulação desenfreada do mercado financeiro, que culminou na crise de 2008, o cozinheiro Anthony Bourdain explica que o peixe passado, o mexilhão já desmaiado e o camarão malcheiroso podem ser picados, temperados e reapresentados com a refinada alcunha de bouillabaisse. Da mesma forma, ativos financeiros fétidos foram reembalados e oferecidos aos clientes dos bancos com o selo AAA. Deu no que deu. Aqui, a cabeça do porco preservada em formol serviu a sem-vergonhice idêntica e compromete, agora, o consumo e a exportação da carne brasileira.

O ministro da Justiça, Osmar Serraglio, aquele que acha que índio não precisa de terra, foi pego, em grampo, sondando o “grande chefe”, Gonçalves Filho — fiscal agropecuário e superintendente do Ministério da Agricultura do Paraná —, sobre as batidas no frigorífico Larissa.

Serraglio deve ser daqueles que acham que o problema não é do presunto, mas do excesso da fiscalização.

Fora com essa corja!

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