Fúnebre

Leia na crônica de Fernanda Torres

Foi-se o tempo do cadáver em casa, com as crianças e os cachorros em volta, das gargalhadas fora de hora e das lamúrias em torno do morto. Tempo para testemunhar o ar pétreo da feição, a palidez, a rigidez, o resfriamento e o sumiço da alma.

No início de maio, Ludmila Popov deixou este mundo. Ucraniana, sobrevivente dos horrores de Stalin e prisioneira de guerra dos nazistas, ela passou a infância e a adolescência na Polônia, entre campos de trabalho forçado e de refugiados, até obter asilo no Brasil.

No calor tropical, tornou-se uma mulher deslumbrante, e foi escolhida, junto com Florinda Bulcão, para ser a aeromoça do primeiro voo da PanAm entre o Rio e Nova York. Na inauguração de Brasília, desceu a rampa do Planalto carregando um pau-brasil. Formada em direito, elegeu-se deputada.

Ludmila estava internada no Hospital Copa Star, no Rio de Janeiro, onde faleceu, depois de uma luta de catorze anos contra o câncer. A sobrinha estava presente.

Uma vez constatado o óbito, o filho pôs-se a caminho, enquanto a sobrinha corria até a casa da tia, a fim de escolher o derradeiro traje. A defunta foi deixada com a cuidadora que, havia mais de ano, olhava por ela.

Não durou meia hora, a sobrinha retornou, mas o quarto já estava vazio. Transferida para a geladeira, Ludmila foi encontrada nua, dentro de um saco plástico preto, sobre uma cama metálica. Operários realizavam uma obra no recinto, com furadeira e martelo.

Os familiares a vestiram no ambiente inóspito, e eu os encontrei no Memorial do Carmo, onde ela seria velada e cremada.

O crematório também tinha pressa. O padre da igreja ortodoxa acelerou, como pôde, a missa de corpo presente, o caixão foi levado por dois funcionários e, para minha surpresa, não foi permitido a nenhum parente acompanhar a cremação.

Como manda o protocolo, Ludmila desapareceu por uma porta e ficamos algo perdidos, abraçando-nos no hall, com uma sensação de incompletude e vazio. A perda reduzida a questões práticas de como se livrar do corpo. Supremo materialismo.

Meu pai morreu em casa. Eu me lembro dele deitado no quarto e do meu filho de 8 anos tocando o avô; da fotografia que tirei do meu irmão segurando o sobrinho de meses no colo, com seu Fernando ao fundo; do velório extenso e do belo discurso do meu irmão, antes do caixão deslizar sobre a esteira do crematório.

Esses momentos me ajudaram a enterrá-lo.

O Copa Star é um hospital cinco-estrelas bem equipado. Rapazes de luvas brancas recebem os clientes, e um piano, sem pianista, toca melodias finas na recepção. Apesar dos supérfluos, não há espaço, ali, para a finitude.

Talvez ninguém morra no Copa Star e Ludmila tenha sido exce­ção. Talvez o Memorial do Carmo caminhe para ser tornar um forno drive-thru, onde se despacha o ente querido, dando tchauzinho pelo vidro do rabecão.

O luto, hoje, é considerado doença medicável pelo FDA. Não demora, os velórios serão realizados em farmácias, e os benzodiazepínicos tomarão o lugar da hóstia.

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  1. André Moura

    Espero que os calmantes não tomem o lugar de Cristo na vida de ninguém. É lamentável o que acontece nas capelas atualmente. A despedida, por vezes, se torna tormento…