Chacrinha

Nos últimos dez anos, a produtora Aniela Jordan, da Aventura, contribuiu para a formação de técnicos, atores e músicos capazes de dar conta de um gênero teatral que os americanos dominam como ninguém: o musical. A empreitada, que começou com a importação dos grandes sucessos da Broadway, aos poucos, passou a explorar a riqueza da […]

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Nos últimos dez anos, a produtora Aniela Jordan, da Aventura, contribuiu para a formação de técnicos, atores e músicos capazes de dar conta de um gênero teatral que os americanos dominam como ninguém: o musical.
A empreitada, que começou com a importação dos grandes sucessos da Broadway, aos poucos, passou a explorar a riqueza da MPB, encenando vida e obra de ídolos como Tim e Elis.

Agora, a ideia de trazer Abelardo Barbosa para o palcofoi de grande inspiração. A vida desse nordestino nascido em Surubim se confunde com a própria história do rádio e da TV brasileira. Chacrinha é a encarnação daquilo que temos de mais autêntico, louco e popular. Coube ao cenógrafo Gringo Cardia a autoria de um dos grandes trunfos do espetáculo: ambientar o primeiro ato — que vai da infância do pernambucano até seu estouro nas rádios cariocas — no universo cor de barro do cordel.

O contraste do agreste nordestino com o tecnicolor de auditório do segundo ato — que engloba a trajetóriado velho guerreiro na TV — faz a ponte entre as pastoras e as chacretes, o diabo e o mundo empresarial, o palhaço e o comunicador. Não há traço de amadorismo em Chacrinha.
Os belíssimos figurinos de Claudia Kopke são acabados com um rigor artesanal raro de se ver em cena e o coreógrafo Alonso Barros rege a massa com o rigor de Chorus Line e a soltura dos trópicos, enquanto o requintado score musical, comandado por Delia Fischer, é capaz de misturar em um mesmo dueto Beija-me com Fogo e Paixão. Difícil resistir.

O texto de Pedro Bial e Rodrigo Nogueira consegue ser apurado nos repentes e chulo na profusão de palavrões dos corredores de TV. O conhecimento de Bial das tensões que envolvem os que vivem de ibope acerta ao transformar o manda-chuva, José Bonifácio de Oliveira, no antagonista de Chacrinha. Não à toa, Saulo Rodrigues, o Boni da ficção, veste chifres de demônio no Cordel Encarnado da abertura. Sai-se com a impressão de que Boni é um homem tão importante para a saga do gênio quanto o próprio gênio.

A discoteca está toda lá: Biafra, Lady Zu, Gretchen, Sérgio Sampaio, Raul, Cazuza, Roberto, Titãs, Ultraje, Fábio Júnior, Nelson Ned, Carmen Miranda, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Mário Reis, Clara Nunes e outros tantos astros que fizeram parte da sua, da minha, da vida de todos nós. Ao público, resta o papel de macaco de auditório, que encarna com grande empenho.
A composição de Stepan Nercessian é de causar assombro. O ator nos faz esquecer que é ele quem existe ali, debaixo dos óculos, da voz e das fantasias do guerreiro. Trata-se de um caso raro de incorporação, possessão, ou carma. Stepan se recusa a entregar a mesa espírita que frequentou para chegar lá. O São Jorge gigantesco que venera no camarim talvez explique o milagre. Antes de ser acusada de nepotismo, declaro que meu cônjuge, Andrucha Waddington, dirigiu o espetáculo. Se arrisco falar bem
do santo de casa, é porque gostei imenso do que vi.

Leve a mãe, os filhos, o marido e a esposa. Tem palavrão, mas não tem peso, tem bunda, mas não tem vulgaridade, é para todas as idades. Chacrinhaé um baita musical made in Brazil.

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