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Fernanda Torres Por Blog Blog da atriz Fernanda Torres

Barata Ribeiro 716

Eu estava numa reunião de trabalho na casa de Domingos de Oliveira, quando o diretor pôs para rodar, no computador, seu último filme: Barata Ribeiro 716, sobre sua juventude boêmia num apartamento de Copacabana. O filme lembra o despertar de Domingos como cineasta, com Todas as Mulheres do Mundo e Edu Coração de Ouro. A elegância do preto […]

Por Daniela Pessoa Atualizado em 25 fev 2017, 17h35 - Publicado em 25 mar 2016, 01h00

Isabelle Barreto

Eu estava numa reunião de trabalho na casa de Domingos de Oliveira, quando o diretor pôs para rodar, no computador, seu último filme: Barata Ribeiro 716, sobre sua juventude boêmia num apartamento de Copacabana.

O filme lembra o despertar de Domingos como cineasta, com Todas as Mulheres do Mundo e Edu Coração de Ouro. A elegância do preto e branco e o enquadramento refinado, de quem aprendeu com Truffaut, com planos que nunca seguem o bê-á-bá da cartilha e se baseiam mais na subjetividade dos personagens do que na historinha para contar.

Caio Blat guarda uma semelhança assombrosa com o jovem Domingos e entendeu em profundidade o romantismo febril do autor, sua fé no amor, na amizade, no encanto pelas mulheres e pela poesia.

Depois de um coma alcoólico, o herói desperta na cama, rodeado pelos companheiros que o acudiram durante o colapso. Emocionado, beija cada um dos presentes na boca, rapazes e moças, para concluir, em off, que vivera ali um dos momentos mais tocantes de sua passagem na Terra.

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O apartamento ferve em intermináveis festas captadas em sequências dionisíacas. O militante consciente chega de São Paulo para converter os cariocas alienados. Jango mudará o país, diz ele. A turma escuta atenta, mas logo retorna ao arrasta-pé, à dolce vita das tertúlias existenciais, que é o que de fato a seduz.

A dor da paixão simultânea por três beldades, a traição da esposa com o melhor amigo, a confusão criativa do escritor, o embate com a família que sonha para ele uma vida decente e o saudosismo que explode em tecnicolor ao final da fita, numa praia ideal, onde o alter ego do autor assiste a seu bando desaparecer do quadro até abandoná-lo sozinho, ao sabor da memória.

Foi muito impressionante olhar para Domingos, na poltrona de seu escritório, admirando a si mesmo na tela; e ver aquela obra carregada de um frescor adolescente, dona de uma liberdade narrativa que não encontro em nenhum jovem diretor. Domingos traz a nouvelle vague na alma, intacta, gauche, como sempre foi por aqui.

A esbórnia de Barata Ribeiro 716 termina com o golpe de 64, o mesmo que quem viveu garante estar vivendo de novo. Um detalhe que dota a película de uma pertinência inquietante.

Hoje, somos todos políticos, sociais, econômicos, mas Domingos ensina que o existencial paira sobre todas as verdades. O que fica é a consciência do tempo, do amor, da arte e dos laços de afetividade.

Os letreiros finais de Barata Ribeiro 716 rodavam na tela quando o celular na bolsa tocou. Meu cônjuge avisava que Sergio Moro havia divulgado o grampo entre Lula e Dilma. Voltei para casa em meio à convulsão social mas trazendo Domingos no coração.

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