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Fabiane Pereira Por Fabiane Pereira, jornalista

Todo Carnaval tem seu fim

Carnaval no Brasil: de Roberto Da Matta a Russo Passapusso

Por Fabiane Pereira - Atualizado em 2 mar 2020, 14h16 - Publicado em 2 mar 2020, 14h15

Certamente este é o verso mais postado nas redes sociais neste período pós folia momesca. De tão postado, alguns postam pedindo para que não se poste mais os versos de Marcelo Camelo (foto). Mas sou adepta do clichê então voilá.

A palavra Carnaval vem do latim e significa “carnem levareou, em bom português, “abster-se, afastar-se da carne”. Embora não pareça, o Carnaval é uma festa cristã e, neste período, os cristãos exaltam a carne nos seus mais variados formatos – de PP a GG, amém.

Durante quatro dias (em alguns lugares dura mais tempo), os cristãos (e também os pagãos) dão mais importância ao corpo que ao cérebro, os instintos falam mais alto que a razão e o movimento é sexy.

O Carnaval é tão importante no Brasil que dizem que o ano só começa “pra valer” depois dele. A maior festa popular do planeta movimenta a economia, gera riquezas, promove a tolerância, supre a falta de convívio social e ajuda a enfrentar a pressão contemporânea.

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Impossível não se deixar levar pela alegria contagiante de adultos e crianças lotando as ruas da cidade ao som das marchinhas. Há aqueles que preferem madrugar para acompanhar os blocos ou para pular em volta de trios elétricos. Gosto dos que se emocionam com o resultado de um ano inteiro de trabalho ao ver sua escola pronta para disputar o título mas também me identifico com os deslumbrados pelo glamour dos camarotes que margeiam a Sapucaí.

Em que outra época do ano é permitido socialmente sair de casa vestindo apenas uma meia calça arrastão, maiô e plumas na cabeça? Ou beber uma cerveja com a Sininho e o Capitão América na mesma rua em que você acabou de trocar olhares maliciosos com o Pierrot?

O Carnaval é minha melhor resposta. Minha melhor resposta a seja o que for. O Carnaval é essencial na minha vida porque me conecta com o que há de mais profundo, mais vital e mais íntimo em mim. É político, libertário, tolerante, respeitoso, misturado, religioso, sexual. Mas é também, e sobretudo, amoroso, poético, musical e sofisticado. É daquelas coisas que purificam a nossa mesquinharia.

 

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Minha única crise com o Carnaval é que ele obriga a gente a ser (muito) feliz, extasiada, louca de alegria e bêbada. De manhã.

 

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Ele é carioca…

 

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Roberto Da Matta, um dos mais respeitados antropólogos do país, é também autor do clássico livro Carnavais, malandros e heróis” que em 2019 completou 40 anos.

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O que torna a sociedade brasileira diferente e única?”

O livro responde a essa questão indo ao cerne do dilema que faz do Brasil um país de grandes desigualdades. Para o autor, tanto o carnaval quanto seus malandros e heróis são criações sociais que refletem os problemas e dilemas básicos da sociedade que os concebeu. Mito e rito são dramatizações ou maneiras de chamar a atenção para alguns aspectos da realidade social dissimulados pelas rotinas e complicações do cotidiano. Roberto da Matta não é carioca da gema. Nasceu em Niterói mas há décadas mora na cidade e este livro é um dos patrimônios da nossa literatura. Recomendo a leitura.

 

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Pelo Brasil…

 

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Estive em Salvador na semana que antecedeu o Carnaval. Estava em Recife e como Salvador fica pertinho resolvi esticar minha estadia pelo Nordeste. Aterrissei na terra de todos os santos no domingo do Furdunço. Pra quem não sabe, Furdunço é uma espécie de grande bloco que atrai gente de todas as faixas etárias e classes sociais querendo reviver a folia tradicional com blocos sem cordas e artistas mais próximos do público. O evento conta com apresentações gratuitas de diversos artistas e acontece sempre no período de prévias carnavalescas de Salvador.

Uma multidão tomava as ruas mas eu estava focada em atravessar aquele mar de gente para pegar o Navio Pirata do Baiana System desde o começo. E assim foi. O Baiana é formado por Russo Passapusso (voz), Roberto Barreto (guitarra) e Seko Bass (baixo) e é a banda mais importante da minha geração. O trio bebe de diversas fontes: da cultura baiana, com a presença da guitarra baiana; da ancestralidade africana, com forte presença percussiva e da Jamaica, com os sound system. As letras politizadas atraem um público que se sente representado por aquele discurso e, ainda bem, tem sido cada vez maior. Se você ainda não foi a um show do Baiana, nêgo, então vá.

NOTA DE RODAPÉ: Em abril tem entrevista inédita e exclusiva com Russo Passapusso no meu canal no Youtube, o Papo de Música. Inscreva-se no canal

 

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