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Daniel Sampaio Por Daniel Sampaio, advogado e memorialista Memórias do Rio Antigo

Um circo lírico: conheça a história do Theatro Imperial Dom Pedro II

Há exatos 150 anos, surgia um dos mais importantes palcos da história do nosso país, uma casa de óperas que se transformava em picadeiro

Por Daniel Sampaio 21 jun 2021, 18h52

Em 20 de junho de 1871, era inaugurado o Theatro Dom Pedro II, na Rua da Guarda Velha, no 7, atual Avenida Treze de Maio, entre o Largo da Carioca e a Cinelândia. Essa luxuosa casa de espetáculos foi construída no mesmo local onde, desde 1857, funcionava o “Circo Olympico”.

O açoriano Bartholomeu Corrêa da Silva, dono do estabelecimento, construiu o teatro a pedido do Imperador D. Pedro II, que queria na Corte mais um teatro lírico que não devesse nada às casas de ópera do Velho Continente.

Bartholomeu encarregou-se da construção do novo teatro, mas decidiu respeitar o histórico circense do lugar. O projeto do Theatro Dom Pedro II trazia uma ideia ousada. A nova casa de espetáculos, feita sob medida para apresentações de ópera, transformava-se em um circo equestre, com a simples remoção do piso de madeira onde ficava a plateia, que tinha o formato de ferradura. O picadeiro do antigo circo continuou no mesmo lugar e, por cima dele, colocava-se um assoalho de madeira fina, onde a plateia era montada e desmontada.

Essa novidade acabou, para surpresa de Bartholomeu, criando um efeito interessante e muito bem-vindo. O assoalho e o teto, ambos de madeira, criavam uma ressonância acústica interessante, que fazia do Theatro Dom Pedro II um dos melhores lugares do mundo para se ouvir o canto dos virtuosos cantores de ópera.

Meses antes da grande estreia, o teatro já havia sido aberto ao público. Um baile de carnaval que aconteceu em 19 de fevereiro de 1871 deu aos cariocas uma prévia do que seria aquele lugar lendário. Na noite de inauguração, uma companhia lírica italiana encenou a ópera “Guilherme Tell”, de Rossini. E a partir daí a Corte ficou apaixonada pelo belíssimo teatro que havia acabado de ganhar.

O Theatro Dom Pedro II era deslumbrante. Uma construção suntuosa, apesar de feita com precaução e austeridade por Bartholomeu, que ia dando continuidade às obras à medida que recebia seus proventos oriundos do “Circo Olympico”. Possuía uma porta central e, logo acima, janelas francesas que se repetiam ao longo da estrutura, assim como suas belas fachadas. A sala principal era pintada de branco e dourado e dava acesso à plateia e aos camarotes.

A Tribuna Imperial erguia-se sobre a porta principal de entrada, ocupando a largura de 4 camarotes. Nela, as cadeiras eram de jacarandá, com encosto de 3 cortes. O assento era de palhinha e os pés de cachimbo (características dos móveis em uso pelos anos de 1860).

Em 03 de setembro de 1875,  passou a se chamar Theatro Imperial D. Pedro II por decreto imperial.

Ao longo das décadas, o Theatro Imperial D. Pedro II recebeu os maiores nomes da ópera mundial, como Enrico Caruso, Domenico Santenelli, Maria Durand, Cinira Polônio e Sarah Bernhardt. Também a Cia. Espanhola da Revista Velasco, a Cia. Lírica de Angelis, entre tantas famosas, passaram também por lá.

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Foi lá no Theatro Imperial Dom Pedro II que o mais tarde aclamado maestro italiano Arturo Toscanini regeu uma orquestra pela primeira vez na vida, em 15 de julho de 1886. O jovem Toscanini era violoncelista da Companhia que apresentava “Aída”, de Verdi, no teatro e, no dia da estreia do espetáculo, o regente adoeceu. Toscanini regeu a ópera sem partitura, de cor e salteado.

Em 1890, nos primeiros meses da Primeira República, o teatro foi reinaugurado com o nome de Theatro Lyrico, nome que manteve até os seus últimos dias.

A fase final da demolição do Theatro Lyrico, em 1934 -
A fase final da demolição do Theatro Lyrico, em 1934 – CTAC/Reprodução

O incansável Bartholomeu faleceu em 1917. E apenas 17 anos depois disso, o seu grande legado para a cultura do país seria para sempre apagado da nossa cidade. Desde 1925, já se falava em demolir o teatro e outras construções, a fim de abrir espaço para o projeto do Largo da Carioca e da Av. Treze de Maio, “para beneficiar o livre trânsito de veículos em ponto crucial da cidade”, segundo justificativa oficial da Prefeitura do então “Districto Federal”, na gestão de Alaor Prata.

Em 1934, finalizou-se a demolição deste icônico palco carioca, em momento de transição entre o governo provisório e o governo constitucional de Getúlio Vargas. Na época, o Distrito Federal era comandado pelo Prefeito Pedro Ernesto, médico e político pernambucano, o primeiro chefe do Executivo local a ser eleito, mesmo que indiretamente, pela Câmara.

Um dos pretextos para essa controversa demolição, que foi um dos últimos atos de um melancólico processo histórico de apagamento da memória, iniciado nos primeiros anos da década de 1920, foi a de que, no lugar do Theatro Lyrico, funcionaria um escritório da Caixa Econômica — algo que nunca ocorreu. O vazio deixado pelo Lyrico tornou-se um estacionamento.

Durante esse processo, outros marcos históricos, arquitetônicos e afetivos da cidade, localizados no Largo da Carioca, foram destruídos. Como exemplos, podemos citar o inconfundível edifício-sede da Imprensa Nacional, posto abaixo nos anos 40, na gestão do Prefeito Henrique Dodsworth. Algumas décadas antes, havíamos perdido o Hospital da Ordem da Penitência, em 1905, na gestão Pereira Passos. Na mesma área, ficava o belíssimo Chafariz da Carioca, antiga fonte da época de D. João VI que trazia água fresca, limpa e potável, diretamente do Rio Carioca, passando pelos Arcos da Lapa. O Chafariz da Carioca, um dos únicos chafarizes da cidade a contar com intervenções do arquiteto francês Grandjean de Montigny, já estava desativado há alguns anos e foi demolido nos anos 20, durante a gestão de Alaor Prata.

A fim de avançar com os planos urbanísticos do Centro, as Prefeituras levaram adiante o projeto de expandir o Largo da Carioca e de finalizar a continuidade da Av. Treze de Maio, mesmo que custasse a perda de prédios da época Imperial, tão importantes para a construção da nossa identidade.

O nosso Theatro Lyrico, uma joia que ganhou o nome do Imperador, e muito bem administrada pelo incansável Bartholomeu, foi mais uma preciosidade de nossa cidade e de sua cultura que nunca mais veremos. Fica apenas guardada na memória.

*Daniel Sampaio é advogado, memorialista e ativista do patrimônio. Fundou o Instagram @RioAntigo e é presidente do Instituto Rio Antigo.

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