Rua Oto de Alencar e Praça André Rebouças

No bairro do Maracanã, uma rua leva o nome de Oto de Alencar, mas poderia chamar-se tranquilamente de rua dos estudantes Hora da saída. Estudantes lotam a Rua Oto de Alencar, via residencial no bairro do Maracanã, zona norte do Rio de Janeiro. por Pedro Paulo Bastos As ruas estavam mais alegres nessa manhã de segunda-feira, […]

No bairro do Maracanã, uma rua leva o nome de Oto de Alencar, mas poderia chamar-se tranquilamente de rua dos estudantes


Hora da saída. Estudantes lotam a Rua Oto de Alencar, via residencial no bairro do Maracanã, zona norte do Rio de Janeiro.

por Pedro Paulo Bastos

As ruas estavam mais alegres nessa manhã de segunda-feira, mais coloridas do que de costume. A vitória do Campeonato Brasileiro pelo Fluminense fez com que moradores e comerciantes expusessem na janela de seus apartamentos, nas fachadas de suas casas e nos vidros de seus carros a bandeira do time tricolor. Os jornais esportivos se sobressaíam com manchetes coloridas na banca de jornal que fica na Rua Oto de Alencar quase esquina com a Praça André Rebouças, no Maracanã. Um gaiato andava de um lado para o outro com um recém-comprado pôster do time a fim de que o conhecido da esquina, flamenguista fervoroso, desse uma checada no grande feito do seu Fluzão. Ele, claro, revidou o aceno com uma piada manjada, enquanto muitos outros têm levantado o dedo do meio sorridentemente como resposta a tantos outros gaiatos que vagam por tantas outras ruas e bairros.

O burburinho concentrava-se nessa esquina já comentada, a Rua Oto de Alencar com a Praça André Rebouças. Na verdade, não há nenhuma praça ali. É um largo com antigas casas pomposas e arborizadas – uma delas é, hoje, um centro cultural – e alguns edifícios antigos meio cinzentos pela falta de pintura. Há também uma pequena quitanda e muitos, muitos carros estacionados. O espaço livre do largo, que deveria ter sido aproveitado como área de lazer no passado ou como construção para uma praça de fato, é um baita de um estacionamento a céu aberto comandado por flanelinhas. Na primeira aparição de um cliente em potencial, a movimentação passa de morosa para hiperativa. Os papos de bola e de zombarias ficam de lado enquanto uma leva de estudantes uniformizados surgem pelos cruzamentos e calçadas.


A praça que é um largo. O panorama da Praça André Rebouças, onde funciona a Casa Moro Café e Cultura, em um elegante imóvel.


O início da rua. A banca de jornal, na esquina com a Praça André Rebouças, estava movimentada com pôsteres do Fluminense. No outro lado da calçada, uma turma do Pedro II animava o ambiente com risadas e conversas espirituosas.

A Rua Oto de Alencar está localizada em uma região de alta concentração de escolas, servindo até mesmo de fundos para algumas delas. Da categoria de escolas públicas grandes e tradicionais, aparecem quatro: Pedro II, Colégio Militar, CEFET e Ferreira Viana. Das particulares, uma se destaca: o Colégio Nossa Senhora da Ressurreição, de importância mais regional. Como já era próximo da hora de saída – ou como diria um simpático senhor que me cochichou em tom de reprovação: “essa é a hora da gazeta!” -, os estudantes utilizavam a Rua Oto de Alencar como uma extensão do pátio de seus respectivos colégios, com a diferença de que, ali, era permitido o encontro e a mistura de uniformes, posturas e relacionamentos, sem inspetores para coibir qualquer movimento inadequado aos padrões educacionais. A cena parece ser corriqueira, nem um pouco exclusiva do instante em que eu estive passeando por lá.

Cada fradinho, cada jardim, cada muro lhes era de serventia para algo. A área de passagem livre em frente a um ajardinado edifício residencial permitia a reunião de um bando de garotos desgrenhados com camisas-de-botão amarrotadas. A amizade que todos mostravam ter um pelo outro era exibida através de socos de mentirinhas e gravatadas. As meninas andavam em grupinhos; umas mais mirradas, outras mais corporalmente desenvolvidas. Saias transformadas em minissaias, meias brancas esticadas até o joelho, pés calçados em sapatilhas. Minha intenção era em prestar mais atenção nos elementos da rua do que neles, mas como disassociá-los, se toda a dinâmica da Rua Oto de Alencar estava regida por esses jovens?


Os apartamentos. A rua é harmonizada vertical e horizontalmente, embora os prédios sejam mais bem cuidados do que as casas.


A turma da gazeta? A concentração de estudantes é alta pela Oto de Alencar. Em cada trecho ou canto da rua é possível encontrar um grupinho nessa hora da manhã. À direita, o Colégio Ressurreição, o único particular em meio aos públicos-tradicionais, como o Pedro II e o Militar.

Fora a arquitetura mista da rua, composta por algumas casas centenárias e mais contemporâneas, prédios de classe-média e muitos muros pichados, o grande atrativo da rua é a sua arborização. As amendoeiras são altas, promovendo sombras extensas nos dias escaldantes, enquanto convivem com árvores de folhas mais exóticas e palmeiras que não cresceram mais do que três metros. Uma jaqueira exibia toda orgulhosa os seus frutos, cuidadosamente protegidos pelo porteiro do prédio em frente. Os canteiros, singelos, não foram moldados com base em nenhum projeto paisagístico recente. As plantas foram simplesmente crescendo através dos anos, e se hoje estão bonitas, isso é graças à ação da mãe-natureza, que sabe harmonizar perfeitamente onde começa o espaço de uma urtiga e onde termina o de uma trapoeraba roxa. E o melhor, influencia até mesmo na forma como elas se interagem, resultando num bonito visual.

O olhar de pescoço erguido não alcança só as folhas e galhos das árvores da rua; acaba-se avistando o topo das fachadas também. Nas casas centenárias, muitas delas mal conservadas, os respectivos anos de construção já não aparecem, embora edifícios como o do número 34, por exemplo, surpreendam o pedestre com adoráveis azulejos azulados emoldurados por camadas onduladas artisticamente trabalhadas em massa branca. Numa das janelas, uma daquelas namoradeiras, que até pouco tempo atrás era o tipo de artesanato mais badalado de Tiradentes, em Minas Gerais, dava o toque especial para deixar o conjunto da obra ainda mais aconchegante e elegante. Mesmo com toda a pompa aérea, é preciso tomar cuidado para não esbarrar com o que está pela frente. De novo, os estudantes!


Paisagismo. Em meio a uma variedade de árvores e flores, mostro aqui uma jaqueira, cuidadosamente mantida pelo porteiro do prédio em frente, e hibiscos-amarelos caídos pelo asfalto.


Panoramas. O edifício no número 34, com o topo semi-coberto por azulejos azulados – herança lusitana. Em seguida, o passeio livre, tomado, apenas, por um casal de estudantes.
Love is in the air, já diria o refrão da música de John Paul Young


O final da rua. Na calçada, mesas e cadeiras da padaria e mercadinho Alvorada, que fica na esquina com a Rua General Canabarro, de onde sai um cheiro maravilhoso de frango rodando na maquineta.

Expulsas por algum carro que precisou estacionar no lugar onde estavam, um grupo de três meninas agora estão sentadas com as pernas esticadas pelo chão no recuo que serve de entrada/saída para a garagem de um edifício. Parecia-me tão incômoda a posição em que estavam que achei graça justamente por estarem tão à vontade, com Coca-Cola despejada em copos de plástico em punho. Dou uma olhada em volta e o número de adolescentes aumenta. Os do Colégio Militar seguem impecáveis com suas boinas e sapatos engraxados, mais bem comportados que os do Pedro II. Alguns deles paravam em frente à padaria na esquina com a Rua General Canabarro só para ver aqueles frangos tostados de cheiro delicioso e inconfundível rodando na maquineta. Quase em frente à jaqueira, um jovem casal se amassava, aos beijos, contra a grade verde que vinha sendo pintada de branco a poucos metros de distância por um porteiro. Fiquei quase uma hora pela Rua Oto de Alencar. Em nenhum momento vi suas bocas desgrudadas.

Peguei minha bicicleta de volta para casa, desviando-me da garotada e de outros ciclistas que vinham na contra-mão. Dei um adeus para uma senhora que tinha me parado anteriormente para conversar sobre a vida, detendo a bicicleta novamente para recolher gentilmente a bandeira tricolora que havía voado da mão de um garoto sardento, com uniforme de colégio que não identifiquei. Pedalei recordando meus tempos de estudante, em especial de uma crônica que li, naquela época, do Affonso Romano de Sant’Anna chamada “Porta de Colégio“. Resgatei o livro na minha prateleira assim que cheguei em casa, quando me surpreendi logo com o primeiro parágrafo, que resumia bem tudo o que eu havia sentido nesse passeio pela Rua Oto de Alencar. Lá, tive uma percepção muito mais humana do que urbana, como é de praxe. “Passando pela porta de um colégio, me veio uma sensação nítida de que aquilo era a porta da própria vida. Banal, direis. Mas a sensação era tocante. Por isto, parei, como se precisasse ver melhor o que via e previa.”

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