Zé Ricardo: “Driblamos o algoritmo”
Vice-presidente artístico da Rock World, empresa que cuida do Rock in Rio, dá detalhes sobre a criação do line-up e analisa o mercado de shows na cidade
Com apenas 15 anos, José Ricardo Santana de Farias trabalhava como office boy de um banco quando viu um anúncio que mudaria sua vida: o grupo Queen viria pela primeira vez ao Rio, na estreia de um festival, em 1985. Com muita economia, conseguiu comprar o ingresso e ali, durante o show, tomou a decisão de que viveria de música.
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Dito e feito. Quatro décadas depois, e agora conhecido como Zé Ricardo, ele se tornou peça-chave na construção do Rock in Rio. Vice-presidente da Rock World, empresa também por trás do The Town, em São Paulo, o cantor e compositor — que iniciou a carreira tocando com Moraes Moreira, formou banda com Davi Moraes, filho do músico, e lançou discos solo — faz a curadoria de praticamente todo o evento onde tudo começou.
Entre uma ida e outra à Cidade do Rock, na Barra, o responsável por ter transformado o Palco Sunset em um lugar de desejo conversou com VEJA RIO sobre a edição que começa na sexta (4).
O que mudou na maneira de montar o line-up? Antes, cada palco tinha um diretor artístico e eles eram independentes. Hoje tento construir uma narrativa única. Eles mantêm sua individualidade e características, mas todos dialogam. A curadoria é orgânica e vai além de dados e pesquisa de mercado: envolve intuição, olhar para o que acontece na música e proximidade com artistas e empresários. Por isso, driblamos o algoritmo com tanta eficiência.
Ter dois dias voltados para o rock é uma resposta a quem critica a falta do gênero no evento? Fazer curadoria demanda uma autoestima bacana. O fã não aceita que não tenha seu ídolo, mas compra o ingresso mesmo assim — como no meme “Eu vim, mas vou reclamar o tempo todo”. Se o festival fosse inteiro voltado para o rock, ia ter muita queixa também. Meu objetivo é apresentar coisas novas e fazer com que o público saia diferente de como entrou.
Como chega a combinações como Stray Kids e Jamiroquai? Na edição passada, tivemos uma noite só de trap, e os pais acabaram sofrendo um pouco. No The Town, corrigi isso chamando a Lauryn Hill para o dia do Travis Scott. Neste ano, vamos contemplar no Palco Mundo o k-pop, que é um movimento cultural muito forte, e no Sunset fizemos uma programação mais soul. E com certeza haverá integração dos dois.
Você já disse que sonha em trazer Adele, Beyoncé e Rihanna. O que impede? A escolha dos headliners depende muito mais de disponibilidade e logística do que simplesmente dinheiro ou vontade. Sempre que convido um artista, a resposta inicial é “quero”. Mas isso envolve centenas de pessoas, aviões, caminhões e uma estrutura que às vezes não consegue se adaptar às nossas datas. Já perdemos grandes nomes por incompatibilidade de agenda
Por que estamos vendo tantos shows sendo cancelados por falta de quórum? A situação econômica do país e um período de incertezas, como a proximidade das eleições, mexem com a venda de ingressos — e isso já vem acontecendo há quase um ano. Além disso, a oferta no Brasil ficou um pouco desenfreada. As pessoas compram no cartão de crédito e, em algum momento, as parcelas se acumulam. Houve um boom das experiências ao vivo no pós-pandemia e talvez estejamos vivendo uma volta à realidade.
Muitos nomes internacionais não estão mais vindo ao Rio. A que atribui isso? Esse é um movimento antigo, que voltou, depois de ter sido corrigido no pós-pandemia. A cidade não tem o mesmo poder aquisitivo de São Paulo para sustentar shows que precisam vender 70000 lugares. O Rock in Rio é uma exceção: existe um desejo consolidado de ir, independentemente até de saber quem estará lá.
Como é sua relação com o Roberto Medina? Sou o responsável por traduzir suas vontades e sonhos. Ele participa ativamente da criação do line-up, mas nunca recebi ordens para colocar uma ou outra atração. Quando o Sunset estourou, em 2013, eu disse que estava com um bolo no estômago e não conseguia nem dormir. Ao que ele respondeu: “No dia que você perder isso, acabou”. Ele é um visionário e criou uma cidade onde as coisas realmente dão certo.
Já teve que defender a escolha de um artista? O que você acha que pensaram quando falei que ia juntar Sepultura e Zé Ramalho? Ou que ia trazer o BaianaSystem, antes de ser uma banda estourada, com uma transexual angolana chamada Titica? Usei o Sunset para trabalhar questões humanitárias, dando preferência a minorias. Quero colocar as pessoas para pensar sobre seus medos e preconceitos. A função da arte é tirar as pessoas de uma realidade limitadora. Fazer isso num festival mainstream é um grande privilégio.
Por isso ficou chateado com as acusações da Fafá de Belém sobre a falta de representantes do Norte no Dia Brasil? Sim. Mas, nesse meio, todo mundo fala com o coração. Ela é muito importante para a música brasileira. Espero que esteja com a gente um dia.
Qual o pior perrengue que já passou nos bastidores? Fizemos um show do Sepultura com os franceses do Tambours Du Bronx, que toca em tambores de gasolina. Trouxemos um grafiteiro para customizar os instrumentos e, após o ensaio, guardamos no backstage. No dia da apresentação, às 5h30, eles tinham sumido. Alguém passou, achou que eram objetos de apoio e levou para o estande de uma marca. Foi assim que descobri que o Rock in Rio é como uma criança: não pode tirar o olho senão enfia o dedo na tomada.
Quem já te deu mais trabalho? Não cito nomes, mas foram muitos. O que posso dizer é que a galera mais nova é bem mais complicada do que os mais velhos.
Um festival ainda consegue criar tendências? Sempre andei na contramão da indústria. Nunca acreditei que o mercado existe — nós é que temos que ditar o que é tendência, não o contrário. O algoritmo vai te sugerir coisas parecidas com o seu gosto. Já a curadoria não deve dar apenas o que o público quer, mas também o que ele ainda não sabe que quer. Se você só ouvisse soul music, talvez passasse a vida sem conhecer João Gomes… Imagina que tristeza!





