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Xuxa: “Nos dias de hoje é fundamental se posicionar. Se você se calar, estará aceitando”

Prestes a lançar sua autobiografia e quatro livros infantis, a apresentadora fala sobre carreira, política, feminismo, envelhecimento e veganismo

Por Melina Dalboni - Atualizado em 17 jul 2020, 14h17 - Publicado em 17 jul 2020, 06h00

No ano em que completa quatro décadas de carreira, Xuxa acaba de escrever sua autobiografia e já adianta que trará novidades, entre elas a revelação de que de vez em quando tem sonhos premonitórios. “Muitas coisas as pessoas já conhecem, mas também há coisas de que nunca ouviram falar”, diz. Entre outros – vários – projetos em andamento, ela vai lançar ainda quatro livros infantis, inspirada pela afilhada Maya, que passou a quarentena em sua casa com as mães, a compositora Vanessa Alves e a produtora Fabi Geledan.

Previstas para o fim do ano, as publicações terão os direitos autorais doados à ONG Santuários do Brasil, que assiste animais vítimas de maus tratos, e à Aldeia Nissi, em Angola, local visitado por ela no início do ano, por incentivo da filha, Sasha. Tem mais: a apresentadora da TV Record anda às voltas com a produção de um filme e a “deliciosa possibilidade” de retomar o Xuxa Só para Baixinhos, série de DVDs infantis que coleciona dois Grammy.

Embora circulem boatos de que ela poderia voltar para a Globo, Xuxa, 57 anos, vem dizendo que não há  nenhuma negociação em curso e tem aproveitado a  quarentena para defender nas redes sociais o veganismo, os direitos LGBTQI+ e a democracia – aderiu ao movimento #Somos70porcento, que reflete o índice de reprovação ao atual governo. “Não sou esquerda, não sou direita, sou brasileira. E quero o melhor”, declara Xuxa, que falou a VEJA RIO por e-mail de sua casa, na Barra.

O posicionamento nas redes é importante na atual conjuntura? Sim, acho fundamental, pois, se você se calar, está aceitando.

Ao mesmo tempo, as redes viraram uma espécie de tribunal que condena todo mundo. Você tem alguma estratégia para lidar com isso? Não. Não tenho e digo mais, acho que ninguém tem. Da mesma maneira que é bom, sensacional, é extremamente ruim ter acesso a tudo e a todos. Se alguém souber como se proteger, fale logo, pois esse é um mal do qual ninguém está conseguindo se proteger.

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Você se tornou uma aliada do movimento LGBTQI+, especialmente com seu posicionamento nas redes sociais. O que te fez apoiar essa causa? Meu público, meus eternos baixinhos, não tem idade, cor, sexo. Existe muito preconceito e se eu puder gritar por eles, chorar com eles, dançar com eles, falar por eles, eu farei, pois minha gratidão será eterna a essa “tribo do amor”. Tenho muita vergonha de quem levanta ódio, preconceito e desrespeito por eles. É vergonhoso ter que dizer que é contra a homofobia. Quem é a favor? Esse sim é doente, criminoso e tem que ser feito algo contra esse tipo de pessoa.

Você é feminista? Não sou militante, ativista, não vou às ruas, mas acho a luta do feminismo de extrema importância. A mulher está longe de ocupar um lugar de igualdade e tem muito caminho pela frente. Por outro lado, também acho que as primeiras a se desvalorizar são elas mesmas, coisa que eu não vejo acontecer com os homens.

Como assim? Eu fui muito criticada pelas minhas rugas – por mulheres.  Eu fui muito criticada pela minha careca – por mulheres. Lá atrás, fui criticada pelas minhas roupas, também por mulheres. Ou seja, nós, mulheres, queremos, exigimos respeito, mas somos as primeiras a desvalorizar, a  desrespeitar a nós mesmas. É surreal você se meter, criticar o outro por sua imagem.

Como você lida com as críticas? Não lido, engulo. Às vezes descem fácil, às vezes demoram a descer, mas é isso. Na verdade, tenho pena das pessoas que acham que, para ter espaço, precisam falar mal de mim.

Você é um símbolo de beleza. Como é lidar com o passar dos anos? Uma m… Ninguém aceita como deveria aceitar. Eu faço parte do imaginário, da memória afetiva, do momento mágico das pessoas. Para muita gente eu ainda sou aquela que descia da nave de chuquinhas, a intocável, a quase E.T. Rugas não combinam com isso. Deve ser horrível me ver despencando como um ser normal.

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Já fez alguma loucura em prol da estética? Já fiz, sim. Coloquei silicone no peito e estourou, depois encapsulou três vezes e ainda saiu do lugar. Estou rezando para ter tido que mexer pela última vez. Na primeira, a médica, sem minha autorização, alterou outras partes do corpo, até Botox aplicou, e eu odiei o resultado. Tenho fibrose até hoje e me arrependo muito de ter feito.

Mesmo assim, tem algo no seu corpo que gostaria de mexer? Sim, meu pescoço. Iria amar fazer algo para esticá-lo, mas tenho medo do resultado não ser bom. Deixo para mais para frente. Sabe-se lá se eu um dia acordo com vontade e entro na faca?

Tem algum fato inédito na autobiografia que você vai lançar? Muitas coisas as pessoas já conhecem, mas há muitas de que nunca ouviram falar. Vamos dizer assim: minha vida sempre foi um livro aberto, mas nunca foi um livro de fato. São histórias da TV, bastidores, sonhos com premonição minha mãe, meus amores, minha filha, a importância da Globo e de pessoas que passaram pela minha vida profissional e que fizeram com que eu chegasse aonde cheguei.

O que a motivou a escrever agora para o público infantil? Quis falar sobre animais, veganismo, coisas que as crianças vão entender sem muito esforço. Aí veio a África e veio a Maya, minha afilhada que tem duas mães, e as outras ideias foram surgindo enquanto escrevia minhas memórias.

Se pudesse voltar atrás, o que faria diferente? Com certeza acreditaria menos nas pessoas.

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Sua luta para dar uma sobrevida de qualidade para dona Alda, sua mãe, foi aberta e pública. O que mais a emocionou naquele fim de vida? Mesmo não podendo falar, sem se movimentar, ela provou o quanto me amava. Só foi embora quando viu que eu não aguentava mais vê-la sofrer. Ela não desistiu da vida, mesmo não vivendo mais. Por mim, por amor.

E qual foi a maior herança que ela lhe deixou? A certeza de que ninguém é melhor do que eu, e de que eu também não sou melhor do que ninguém. Partindo daí, tudo que eu ganhei e conquistei não me fez ser melhor do que ninguém. Foi o carinho das pessoas que me fez ter tudo.

Como a pandemia da Covid-19 no Brasil te aflige e que legado ela nos deixará? Fico triste por tanta falta de informação misturada com cegueira e uma pitada de burrice, pois os números vão aumentar porque tem gente que achando que não é nada, até alguém perto morrer. Através da pandemia nós tivemos a certeza de quem queria tirar proveito, mentir, roubar, enganar… Talvez se não fosse à pandemia isso não seria mostrado assim. O que não entendo é que com tudo isso acontecendo ainda tem gente que não quer ver, ouvir, não quer aceitar. A pandemia mostrou que tem gente doente da cabeça que é pior que vírus, mas também mostrou que tem muita gente boa que quer ajudar, que quer fazer algo pelo próximo, que faz a diferença seja em casa, na sua rua, no seu bairro, na sua cidade, no seu país. Tem gente que pensa em melhorar o mundo, mas quem é ruim ficou pior.

Todo mundo agora está fazendo lives. Não tem vontade de fazer uma sua também? Não. Imagina eu cantando? Não dá.

Mas você gosta de assistir a elas? Tem coisa muito boa e coisa muito ruim. Estamos vendo e ouvindo gente que não canta cantando, gente que canta desafinando, gente fazendo tudo para aparecer, gente enganando os outros. Às vezes, vira um show de horrores. Fora que hoje todo mundo entrevista todo mundo. Nunca vi ter tanto papo, tanta coisa para falar. Na boa, estou de saco cheio das lives, embora tenha umas ótimas.

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Como formato, você acredita que a live se firmou como uma opção de entretenimento? Quem sabe fazer está fazendo, quem não sabe está querendo aprender, só que as pessoas estão se expondo muito. Eu prefiro ver seriado, ler livros, pegar sol, ficar com meus bichos e fazer minhas reuniões virtuais, que são muitas.

Em entrevista ao programa Conversa com Bial, em maio, você refletiu sobre o modo como o Xou da Xuxa era exibido nos anos 1980 e afirmou que algumas coisas não seriam possíveis atualmente. Como você avalia essa patrulha: acha que é exagero ou é necessário? Acredito que os exageros que às vezes acontecem são pequenos em comparação ao desejo das pessoas que é o de proteger as crianças. Mas tenho medo de que isso tenha afastado a televisão das crianças e criado espaço para a internet, onde há muita gente querendo e fazendo tudo apenas para ganhar views.

Durante a pandemia, houve um aumento da violência doméstica contra crianças. O que pode melhorar essa situação? Falta estrutura e há muitas falhas. Infelizmente o Disque 100 (serviço que recebe denúncias) tem muito a melhorar, o conselho tutelar no Brasil é muito frágil, e as pessoas não têm o costume de proteger as crianças, dando aos pais o direito de bater, espancar em nome da educação. Como as crianças não votam, isso não tem importância para os nossos governantes.

Como você acha que as crianças do futuro vão ver o que estamos vivendo hoje? Eles vão ver essa época e essa gente de hoje como uma geração a ser estudada, algo que vai fazer parte da história da humanidade. Nós ficamos longe um do outro, vimos muitos morrerem buscando vacinas contra algo que está na nossa frente e que ninguém quer ver: a natureza em desequilíbrio. Todas as pandemias vêm de animais, e nós, seres humanos, continuamos comendo os bichos. Assim, novos vírus virão.

Uma bandeira que você ergue com frequência é a do veganismo. O que tem feito nesse sentido? Tento mostrar quanto os bichos sofrem para estar no nosso prato, quanto as toxinas e hormônios fazem mal à nossa saúde, quanto as energias da morte e do sofrimento fazem mal a todos nós. Tento mostrar que por trás disso tudo há indústrias que só querem lucrar. Tento e vou continuar tentando. Quem sabe um dia alguém me ouve.

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Você não come carne há muito tempo, mas só virou vegana há três anos. O que te motivou? Aconteceu muito tardiamente, pois eu não tinha as informações corretas. Quando comecei a ver documentários sobre isso, como “Cowspiracy”, “Food Choices”, “What the health”, “Dominium” e “Terráqueos”, aprendi muita coisa sobre e aconteceu o que já deveria ter acontecido lá atrás.

O que é importante para envelhecer bem? Primeiro se aceitar, entender que isso vem pra todos, não é pessoal. Não é só você que não tem mais colágeno, não é só você que não está se reconhecendo no espelho. E que as dores na coluna e nos joelhos vão ser seus companheiros. Depois, se quiser encontrar alguém que te ame desse jeito, que envelheça do seu lado, que venha te dizer que você está linda quando ninguém mais te acha, melhor ainda. O Ju me aceita do jeito que sou: ama me ver careca, gorda ou não, simplesmente me aceita do jeito que sou. Isso me ajuda muito, me sinto amada, desejada e tudo fica mais fácil.

Como você se vê daqui a alguns anos? Eu vou ficar uma velhinha careca, cheia de ruguinhas, rodeada de bichos, com meus netinhos por perto e, claro, com meu “velho” Ju deixando minha pele mais brilhosa e vistosa. Com cara de bem comida, para quem não entendeu.

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