“Isso sempre leva à ruína”, diz Alexandre Borges

Em Quem Ama Cuida, o ator vive um homem viciado em jogos, enquanto fora da ficção critica a explosão das apostas on-line e fala sobre os 60 anos, fé e amor

Por Renata Magalhães 17 jul 2026, 10h56
Homem de meia-idade, cabelos grisalhos e sorriso largo, vestindo camisa polo preta e calça escura, braços cruzados, em fundo amarelo claro
ALexandre Borges: “Temos uma tendência a querer estar sempre no topo para atingir a felicidade. Isso é ilusório” (Alexandre Borges/Divulgação)
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Quando era adolescente, Alexandre Borges estava na rodoviária, indo visitar uma namorada, quando foi seduzido por um golpista com o jogo dos três copinhos. Ao perder boa parte do orçamento da viagem, teve que ir de Santos, sua cidade natal, para São Paulo pegando uma carona. “Foi uma das maiores desilusões da minha vida”, lembra ele, que, desde então, tornou-se avesso à jogatina.

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No ar em Quem Ama Cuida, novela das 9 da Globo, o ator interpreta Ulisses, um empresário que busca a sorte fácil, contrai dívidas com agiotas e chega a ser sequestrado pelos criminosos. A história acompanha um problema que extrapolou a ficção: a rápida expansão das bets no Brasil e o aumento dos casos de endividamento provocados pelas apostas on-line.

Com vinte folhetins no currículo, da estreia em Guerra sem Fim (1993), na extinta Rede Manchete, aos sucessos globais Laços de Família (2000), Caminho das Índias (2009) e Avenida Brasil (2012) — atualmente em reprise no Vale a Pena Ver de Novo —, Borges explica seu interesse em personagens que fogem do estereótipo de heróis tradicionais, conta como a religiosidade ajudou a superar momentos difíceis, como a doença da mãe, e fala sobre a pressão de chegar aos 60 anos diante dos olhos da audiência. 

Mais do que o dinheiro, o que o Ulisses procura nas apostas? Um atalho que pode mudar completamente a sua vida. Temos uma tendência, nesse mundo hiper capitalista, a querer estar sempre no topo para atingir a felicidade. Isso é ilusório, basta ver quanta gente com grana vive um vazio existencial enorme, que leva a esse vício. Não tem uma questão social, de educação ou cultura. Por isso, fazer esse papel traz um senso de responsabilidade grande. 

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Na sua opinião, qual é o imaginário por trás do fascínio pelas apostas? Há uma simbologia do poder. Já houve o glamour dos cassinos, os golpes de mestre retratados por Hollywood, os gênios que contam cartas vestindo smoking, fumando charuto e bebendo dry martini. O ser humano está sempre em busca de algo para dar sentido a um cotidiano que ele não suporta. Tem quem faça isso de uma forma saudável, guardando um dinheirinho para brincar em Las Vegas. O problema é que o Brasil é um país pobre, com muita gente necessitada, influenciada pelo canto da sereia de que algo milagroso vai acontecer. 

Muitos artistas e influenciadores passaram a fazer propaganda de bets. Onde você traça o seu limite? Nunca aceitaria fazer propaganda de bet, assim como nunca fiz de cigarro ou bebida, e sou contra a liberação dos jogos on-line. É preciso uma campanha massiva para mostrar, especialmente aos jovens, que isso sempre leva à ruína. Nunca ninguém chegou para mim dizendo que a família enriqueceu dessa forma. 

Como você vê o fato da novela abordar o vício em jogos enquanto a própria emissora exibe publicidade de bets? (A entrevista é interrompida pela assessoria da TV Globo, que informa que o ator não pode responder por questões institucionais da empresa.) 

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Você costuma interpretar homens marcados por confitos internos. O que mais lhe interessa nesses personagens? Sempre busquei expor a fragilidade do homem contemporâneo, pois me considero frágil também. Quando fiz o Cadinho, em Avenida Brasil, quis entender o que o levou a ter três mulheres. Com o Cristiano, de Celebridade, que era dependente químico, investiguei o que ele queria preencher com o álcool. Vou fantasiando o que aconteceu com o personagem para agir daquela maneira, e sinto que assim consigo atingir melhor o público. 

A parceria com Isabel Teixeira conquistou rapidamente o público. De onde vem essa sintonia? A gente se conhece há muito tempo, mesmo sem ter tanta consciência disso — a mãe dela estrelou uma peça que meu pai dirigiu e nós dois, ainda crianças, íamos ao teatro assistir. Essa coincidência nos trouxe uma cumplicidade. Costumamos brincar que, quando o Ulisses e a Pilar eram pequenos, era ela quem ia tomar satisfação com os coleguinhas da escola que faziam bullying 

Com oito irmãs por parte de pai, o que aprendeu ao conviver com tantas mulheres? O poder do sagrado feminino. Carregamos a herança de que o homem deve ser infalível, provedor, não pode chorar ou mostrar fraqueza, tem que defender o seu território e sair na porrada. Isso é sufocante. Quando despertamos para essa força do feminino, vivemos de um jeito mais poético e leve. 

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Seu personagem deposita muita fé numa pulseira de cabala. Qual é a sua relação com a espiritualidade? Ele usa de forma equivocada, como uma superstição, e espero que até o final da novela haja uma ressignificação deste símbolo. Fui criado no catolicismo, gosto de rezar, refletir e principalmente agradecer. Ao fazer uma oração, estou tentando me conectar com o meu eu superior, mais nobre e humano. A religião serve não só para ir para o céu, mas também para fincar os pés no chão. 

Isso te ajudou a passar pela doença da sua mãe? Com certeza. Entendi o quanto somos passageiros e privilegiados por estar aqui. Ver o vazio da pessoa mais importante da sua vida é uma lição enorme. O Alzheimer é uma doença terrível, mas que teve um lado poético para mim. O doente fca fragilizado e infantilizado, pois tudo o que sobra são as memórias. Sou grato por ter conseguido cuidar dela e foi uma passagem muito bonita. 

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Os 60 anos trouxeram mais liberdade ou mais cobrança? Adoraria te falar que isso não é uma questão, até porque, a experiência leva o artista ao auge. Basta ver nossa quase centenária Fernanda Montenegro… Mas existe uma pressão, sim. É claro que tenho a minha vaidade, olho no espelho e penso: “caramba, estou velho”. Nesse ato final da vida, estou em busca de uma independência da opinião alheia. Não sou da onda dos procedimentos, por exemplo, mesmo que possa mudar de ideia em algum momento. O importante é a aceitação de que o normal é envelhecer, e assim ter outras prioridades. 

Depois de um casamento de 22 anos, você ainda acredita que pode viver um grande amor? Acho que para se ter um grande amor é preciso estar um pouco distraído (risos). O Cupido não te fecha se você está obcecado. Mas gostaria, sim, de ter alguém para dividir esse ato fnal. Talvez um amor de cinema seja uma fantasia de quem é mais novo, mas tenho um espírito jovial e acredito que ainda tenho tempo para viver uma história assim. 

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