“Nossa existência é política, é impossível fugir disso”, afirma Ruy Guerra
Com sete décadas de cinema, o cineasta moçambicano é tema de uma retrospectiva na Caixa Cultural, que reúne exibições e uma masterclass feita pelo próprio
Aos 95 anos e com sete décadas dedicadas ao cinema, o cineasta moçambicano Ruy Guerra escolheu o Rio para viver e é tema de uma grande retrospectiva na Caixa Cultural, no Centro, que reúne dezessete de seus longas, dois documentários e uma masterclass sobre a chamada trilogia dos fuzis, formada por Os Fuzis (1964), A Queda (1978) e A Fúria (2024).
Em entrevista a VEJA RIO, ele revisita a própria história e planeja o porvir.
Uma missão de vida
“O cinema é a minha forma de diversão. Antigamente até encontrava com amigos para jogarmos juntos. Hoje prefiro passar o meu tempo no set. Contaria qualquer história, porque o importante é a forma como eu conto. Não penso em legado, prefiro focar no que ainda vou fazer por aqui.”
A força da palavra
“Herdei da minha mãe o gosto pelos livros. Literatura e cinema, no entanto, são caminhos de pensamento distintos. A palavra é mais planejada. Quando escrevo o roteiro de um filme, até imagino as cenas, mas só na hora de filmar descubro o que realmente quero contar. Sou contra modelos rígidos, cada vez mais tento a me diferenciar das montagens convencionais. Para mim, as regras da linguagem cinematográfica existem para que possamos quebrá-las ou elevá-las ao extremo até que se tornem algo novo.”
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Reflexos do próprio tempo
“Não existe arte apolítica. Nossa existência é política, é impossível fugir disso. Cada filme meu dialoga de uma forma diferente com a época em que foi produzido. Li uma análise comparando a fotografia de Os Fuzis com A Queda e há percepções que eu nunca tinha tido. O primeiro foi rodado durante o governo de João Goulart, e, apesar de falar sobre a violência no sertão, tem uma imagem mais límpida e realista. Já o segundo foi realizado durante a Ditadura Militar e traz a técnica tremida da câmera na mão e até os cenários são sujos.”
Indústria em transformação
“Filmar é muito caro. Diferentemente do Júlio Bressane, que consegue filmar em apenas quatro dias, eu preciso de um cronograma maior, porque gosto de ouvir as opiniões de todo mundo no set. Já me disseram que eu só consigo produzir hoje em dia por conta do meu nome, mas foi necessário muita caminhada para conquistar essa posição. Não gosto de falar sobre o impacto das redes sociais e do na forma como pensamos e fazemos arte, porque me causa uma sensação ruim. Há um tempo, esses pensamentos me pegavam antes de dormir e sentia uma forte dor de cabeça. Fui a um homeopata e estou melhor.”
Cinema é memória
“Preservar nossos filmes é essencial, porque eles mantêm a memória da nação viva. Ao assistirmos a um filme, podemos entender como era uma cidade, como as pessoas se vestiam e a forma com a qual elas falavam. Perder o nosso pior filme de ficção é uma tragédia gigantesca.”
No futuro, um escritor?
“Sou como uma criança, então faço piadas em entrevistas e, por falar, com um tom sério as pessoas acreditam. Há uns anos, disse a um jornalista que viveria até os 117 anos de idade e que filmaria e viraria escritor até os 100. Na época, eu não acreditava naquilo e tinha, inclusive, muito medo de morrer. De tanto que isso foi falado, comecei a acreditar. Minha filha caçula, Dandara, me aconselhou a adiantar a carreira de escritor. Prometi a ela que faria isso, mas ainda não sei se vou escrever um romance.”







