“É preciso senso crítico”, diz padre Anderson Antonio Pedroso

Após tirar a PUC-Rio do vermelho e liderar uma nova fase, o reitor fala sobre inteligência artificial, formação crítica e os desafios da educação

Por Renata Magalhães 3 jul 2026, 10h03 | Atualizado em 3 jul 2026, 10h08
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Padre Anderson Antonio Pedroso: “A IA pode ampliar desigualdades ou servir ao bem comum — tudo depende de quem a desenvolve e de quem a utiliza” (Vinicius Verta/Puc-RJ/Divulgação)
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Desde o ano passado, a PUC-Rio oferece o curso de graduação em IA, criado em parceria com a Fundação Behring após uma doação histórica de 35 milhões de reais. No ano que vem, a primeira turma de bacharelado em medicina abre suas portas. São muitas as transformações recentes vividas pela universidade na gestão do reitor padre Anderson Antonio Pedroso, que assumiu o cargo em 2022 e foi responsável por transformar o déficit estrutural de 60 milhões de reais por ano em um superávit de quase 81 milhões de reais em 2025.

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Um dos motores da virada foi a área de pesquisa. “É dever da universidade colocar conhecimento e tecnologias a serviço das pessoas”, afirma o pároco paulistano, cuja orientação vocacional apareceu ainda aos 6 anos de idade. Ele acaba de voltar de Harvard, onde concluiu o prestigiado General Management Program (GMP), curso executivo voltado a líderes seniores, e está cheio de novas ideias, que compartilha na entrevista a seguir 

Como lidar com os desafios trazidos pela IA? Quando a fotografia apareceu, diziam que ela roubaria o lugar dos pintores, até compreenderem de fato como aquilo funcionava. É o mesmo agora. Não faz sentido ignorar algo que já faz parte do nosso cotidiano, mas é preciso ter senso crítico. Os estudantes têm que entender o sistema, bem como os interesses por trás dele. A inteligência artificial pode ampliar desigualdades ou servir ao bem comum — tudo depende de quem a desenvolve e de quem a utiliza. 

Qual o papel da universidade em um mundo que muda tão rapidamente? Hoje, ninguém chega numa sala de aula sem saber nada, todos trazem saberes e experiências, por isso defendo uma relação de ensino-aprendizagem entre professores e alunos, em vez de uma lógica vertical. Outro ponto essencial é partir da realidade. Precisamos estar conectados aos problemas concretos da sociedade e buscar solucioná-los. As pesquisas devem responder aos desafios do Brasil e do mundo. 

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Foi essa visão que levou a PUC-Rio a criar o curso de medicina? A PUC é considerada uma das melhores instituições privadas do Brasil e a 500 metros do nosso campus tem gente morrendo de tuberculose. É dever da universidade colocar conhecimento e tecnologias a serviço das pessoas, por isso, era uma ciência que fazia falta aqui. Mas havia um medo a respeito da administração de um hospital, ainda mais com a fragilidade estrutural que encontrei quando cheguei, por isso a parceria com as instituições públicas foi o modelo ideal. 

Qual foi a estratégia para retomar o equilíbrio financeiro da instituição? Costumo dizer que a PUC era um navio com o casco sólido, mas que navegava com água no porão. Havia um défcit anual de 60 milhões de reais. Nosso primeiro passo foi reorganizar a gestão: criamos um planejamento estratégico, reduzimos desperdícios, revisamos contratos, buscamos novas parcerias, fortalecemos a captação de recursos e ampliamos a reserva de caixa com doações de ex-alunos. Sou o primeiro a não concordar com o capitalismo selvagem, mas precisamos acabar com esse dualismo de que dinheiro é ruim. As finanças são fundamentais para os projetos de desenvolvimento humano. 

Como a comunidade de estudantes e professores recebeu as mudanças? Nunca me preocupei em agradar todo mundo, pois essa unanimidade é ilusória. Só não queria errar com os mais pobres, que eram sempre o primeiro alvo quando se falava em problemas financeiros. Fiz questão de manter os salários. 

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Qual é a responsabilidade da universidade diante da desinformação e dos conflitos do mundo atual? Vivemos uma crise de lideranças. Quanto mais absurdo alguém se apresenta, mais chance tem de chegar ao poder. As fake news tornaram a desinformação muito mais sofisticada. A tecnologia pode ser uma grande aliada, mas também pode ser usada para ampliar conflitos, manipular informações e até alimentar guerras. Na PUC, temos o compromisso de não participar de pesquisas voltadas ao desenvolvimento de armas. 

O que pretende implementar após sua experiência em Harvard? Voltei ainda mais convencido de que somos um case de sucesso, porque temos os recursos humanos e intelectuais para enfrentar desafios e encontrar soluções. Meu único pecado da inveja com Harvard é a relação com os ex-alunos. Quero fortalecer ainda mais essa conexão, pois temos uma rede extraordinária, que pode contribuir não apenas com recursos, mas com experiência, conexões e oportunidades. 

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Como é sua relação com o Rio? Convivo diariamente com as desigualdades que a cidade revela. Gostaria que a beleza do pôr do sol em Ipanema, a energia do Carnaval e tudo o que o Rio tem de melhor fossem acessíveis a todos. Mas acho fascinante a criatividade e a alegria de quem é daqui. Guardo com orgulho o título de cidadão carioca que recebi. 

O que poderia surpreender alguém que te conhece apenas como reitor? Morei sete anos na França e foi lá que descobri outra paixão: navegar. Quando fiz meu doutorado, os padres tiravam férias e eu passava temporadas em paróquias à beira- -mar. Tirei habilitação para conduzir embarcações e, desde então, o mar virou um lugar de contemplação. Ele me transmite uma sensação de imensidão, mas também de finitude e respeito. Meu sonho era ter um barquinho para navegar por aqui, mas não posso (risos). 

Sonha em se tornar papa algum dia? De maneira alguma. O topo não é ocupar um cargo mais alto, mas ser a minha melhor versão e estar plenamente presente onde Deus me colocou. Tenho a honra de colaborar com o papa como presidente da Organização das Universidades Católicas da América Latina e do Caribe e cumpro uma agenda alinhada à dele, voltada para a paz, a dignidade humana e o cuidado com os mais pobres. Isso já é uma grande responsabilidade e um privilégio. 

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