Monja Coen: “Começo a ficar irritada”
A missionária zen-budista fala sobre o que a tira do sério e o caminho para encontrar a verdadeira essência, tema de seu novo livro
Por mais de uma década, André Dokai gravou os pensamentos da avó, Monja Coen, nas inúmeras viagens que fizeram juntos. De uma expedição a Svalbard, na Noruega, até os passeios pelas dunas de Dubai, nos Emirados Árabes, as reflexões a bordo foram organizadas e deram origem ao livro Coragem para Ser Quem Você É (Editora Zazen, R$ 54,90), que acaba de ser lançado e propõe um desafio incômodo: tirar as máscaras que vestimos para sermos aceitos na sociedade e encontrar a nossa verdadeira essência.
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Em 28 capítulos, a obra fala sobre medo, expectativa e aceitação, assuntos em alta num momento de hiperconectividade e polarização global. Com mais de trinta títulos no currículo, a paulistana de 79 anos foi criada em um lar cristão, passou por uma juventude turbulenta e experimentou diferentes caminhos profissionais, até se tornar missionária oficial da tradição zen-budista Soto Shu, com sede no Japão. Antes de uma palestra na cidade, no Teatro Clara Nunes, ela conversou com VEJA RIO sobre as mudanças que precisou encarar na sua trajetória e alertou sobre os perigos de abrir mão da nossa identidade em busca de pertencimento.
Quantas pessoas passam pela vida sem viver a própria vida? Essa é a pergunta que abre o meu livro, e não estamos falando de fracassados ou dos que não tiveram oportunidades. É sobre aqueles que vivem em constante espera, sem reconhecer quem são de verdade, por tentarem sempre agradar aos outros. Isso pode criar situações prejudiciais, como relações amorosas ou profissionais abusivas. Eu mesma já deixei de fazer coisas pela pressão social. É sem coragem de olhar para dentro, que deixamos passar grandes oportunidades.
Qual é o limite entre tentar pertencer e ainda ser fiel a si mesmo? O caminho de Buda é meio-termo. Nós criamos máscaras como mecanismos de sobrevivência, só que, às vezes, acabamos acreditando demais em uma delas. Muitos CEOS de grandes empresas procuram a minha ajuda, pois, enquanto estavam ocupados atendendo às expectativas dos outros e provando sua eficiência, não cuidaram das relações afetivas. Somos múltiplos, como atores de teatro, e estamos em constante transformação.
Com a criação de perfis virtuais, estamos construindo máscaras ainda mais sofisticadas? As redes alimentam o medo do cancelamento e a dependência de aprovação, especialmente para os mais novos. Como não seremos amados por todos o tempo todo, temos que fazer nossas escolhas e pôr a cara a tapa — se não gostarem, paciência. Já sabemos que a excelência não se mede pelo número de seguidores.
Se a nossa identidade é moldada pelo contexto em que estamos inseridos, existe uma essência a ser descoberta? Temos características hereditárias, que vêm da miscigenação desde o primeiro Homo sapiens, além de um lado que é estimulado pela sociedade e por nossos educadores. Desde que conquistamos o vocabulário, não só as experiências acadêmicas, como os livros, filmes e músicas que escolhemos vão nos formando. O importante é entender que isso não é permanente.
A religiosidade pode ajudar nesse processo? Todas as tradições espirituais buscam responder a essa pergunta. É um caminho que envolve olhar para dentro e reconhecer como podemos nos enganar — a mente humana deve ser mais temida do que cobras venenosas e assassinos vingadores —, bem como entender o impacto do coletivo. Só alcançamos a felicidade e a plenitude quando tudo à nossa volta também cresce.
A senhora fala daqueles que ficam estagnados, esperando o momento certo de tomar uma atitude. Como perder o medo? É com medo mesmo que a gente vai. Ele é importante porque nos faz agir com cuidado diante de decisões difíceis. Devemos nos permitir experimentar, mesmo sem saber se tudo dará certo. Isso não significa agir por impulso: é necessário se preparar, como alguém que treina durante anos para enfrentar uma jornada. Vamos cair e encontrar dificuldades, mas precisamos nos levantar e continuar.
Sua trajetória inclui abandonar o curso de direito, tornar-se jornalista e seguir a vocação monástica. Como percebeu que precisava se redirecionar? A transformação acontece aos poucos, à medida que começamos a perceber os sinais que nos estão sendo mostrado. No meu caso, fiquei muito magoada quando, no Jornal da Tarde, alteraram uma matéria minha e ofenderam um adolescente que eu havia entrevistado. Decidi fazer uma pausa, acabei me tornando professora de inglês e descobri a meditação. Até que entrei no Zen Center de Los Angeles e percebi que aquilo verdadeiramente dava sentido à minha vida.
Tem facilidade em mudar de ideia? Tenho, quando alguém me convence com bons argumentos. Houve uma fase em que achei que deveria ser vegana, até que um dos meus professores no Japão me disse que, se eu estava no mosteiro, deveria comer o que era servido, sem querer ser especial ou diferente. Ele me fez refletir sobre como criamos divisões entre o que consideramos bom e ruim. Decidi derrubar essa cerca e hoje como de tudo.
É possível tirar uma monja do sério? Sim, especialmente durante os meus treinamentos, se percebo que não estão prestando atenção. Na terceira vez em que preciso repetir algo, já começo a ficar irritada (risos). A presença, grande desafio da atualidade, é um exercício de autoconsciência que começa pelo corpo: sentir os pés no chão, perceber a postura e reparar as sensações e o que está ao nosso redor. É ouvir a si mesmo.
Em um mundo tão polarizado, como defender as convicções sem considerar quem pensa diferente um inimigo? Quando nosso ego é frágil, a divergência parece uma ameaça. Se temos segurança em nós mesmos, podemos acolher outras opiniões com curiosidade.







