Liniker, antes de show no Rio: “Aprendi a reagir”

A cantora traz a turnê de despedida do bem-sucedido álbum Caju e fala sobre os espaços que conquistou como mulher preta e transgênero

Por Renata Magalhães 14 ago 2026, 09h00 | Atualizado em 14 ago 2026, 09h55
Mulher negra de cabelos cacheados castanhos, vestindo um body de oncinha e calça de couro preta, posa com a mão esquerda no peito e a direita na cintura, em fundo amarelo claro
Liniker: “Sou seguida por seguranças em lojas e shoppings. Daí os fãs vêm tirar foto e fica todo mundo surpreso” (Caroline Lima/Divulgação)
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Quero saber se você vai correr atrás de mim num aeroporto / Pedindo pra eu ficar, pra eu não voar, pra eu maneirar um pouco. As frases de abertura da canção Caju, do álbum homônimo, virou símbolo da fase mais recente de Liniker. Uma curiosidade: a situação relatada é verídica e foi vivida junto a um carioca.

Com forte caráter biográfico, o disco, que alcançou diferentes públicos e reconhecimento global, soma mais de 300 milhões de reproduções nas plataformas de streaming e levou o Prêmio Multishow como álbum do ano. Exatos dois anos após o lançamento, é chegada a hora de se despedir. 

A cantora, primeira transgênero brasileira a ganhar o Grammy Latino, vai rodar o Brasil com a turnê Bye Bye Caju, que ocupa a Farmasi Arena no sábado (22).

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Natural de Araraquara, a jovem de 31 anos celebra o momento — sem se preocupar em superar o próprio sucesso, como contou a VEJA RIO de seu apartamento na capital paulista, ao lado das cachorrinhas Claudete e Judite. Em uma conversa franca, ela relembrou o começo com a banda Os Caramelows, confidenciou o desejo de ser vista como mais do que uma causa e se declarou para a cidade — onde curtiu os shows de Djavan e Rosalía no mesmo palco em que se apresentará. 

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Por que Caju atingiu pessoas de nichos tão diferentes? Cada escolha foi pensada com esse objetivo: das parcerias e participações, que reuniram diferentes gerações e gêneros, ao processo de produção, gravado de forma analógica, na fta. Também quis fazer algo pop no sentido mais amplo. É um trabalho de uma artista trans e preta que conseguiu atravessar nichos e se tornar mesmo popular. Vivi intensamente cada etapa, da criação à turnê e ao reconhecimento. Não estou pesarosa ou com medo do futuro, pois a escrita e a música são práticas constantes na minha vida. 

Em tempos de consumo rápido, lançar canções com mais de 7 minutos, como Veludo Marrom, não é arriscado? Se eu me tornasse refém de uma lógica que tira a liberdade que a música me deu, perderia o sentido de continuar fazendo isso. Havia coisas que eu simplesmente não conseguiria dizer em dois ou três minutos. Um álbum é um retrato do que estou vivendo. Não quero ser moldada pela lógica do streaming, das redes sociais ou da IA. 

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O que descobriu sobre si mesma durante essa fase? Caju foi meu alicerce, marcou a entrada nos meus 30 anos, meu retorno de Saturno. Fortaleci minha autoestima, aprendi a estabelecer limites e passei a ser mais fel a mim. Também deixei de me enxergar apenas como artista para assumir meu papel como empresária e conquistei minha primeira casa própria. 

Ainda consegue ver a Liniker de 19 anos, quando tudo começou? Totalmente. E tenho muito medo de perdê-la. Apesar de todas as mudanças — a transição, a carreira e a ascensão social —, ela continua muito presente. Ainda sei o ônibus que leva à casa da minha mãe, em Araraquara, e continuo sentindo as inseguranças que vêm daquela menina do interior. Mesmo com os ingressos esgotados para um show, ainda me pego perguntando se as pessoas vão mesmo aparecer. 

A arte ajudou a superar questões psicológicas? Entre 2016 e 2020, vivi um período difícil, com crises de pânico: acordava gritando e achava o tempo inteiro que ia morrer. Cheguei a ter episódios durante os shows, então busquei ajuda médica e outras formas de cura. A análise foi fundamental, porque me deu um espaço seguro para falar de coisas que não conseguia dividir com o público nem com a equipe. E a arte se tornou um supertrunfo que aprendi a ativar, para canalizar o que vivia. 

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Quais outras formas de cura procurou? A espiritualidade. Desde criança, busquei diferentes religiões. Fui coroinha na igreja católica, frequentava templos evangélicos, aprendi budismo com as amigas da minha mãe e estudei numa escola espírita. Na análise, entendi que era atraída pelo senso de comunidade. Mais tarde, me iniciei no candomblé e foi um momento transformador. 

Como lida com a falta de rotina nas viagens? Aprendi a cultivar uma vida além dos palcos. A ascensão me permitiu ter uma rotina mais confortável — embora isso também traga culpa, por ser a primeira da família a viver essa realidade. Hoje moro entre São Paulo, Salvador e Marajó, e sempre que posso me refugio para recarregar as energias. 

Na estreia em São Paulo, você celebrou ser a primeira vez que uma travesti esgotava ingressos naquele estádio. Qual o impacto disso? É um marco que vai muito além de mim. Em um país tão transfóbico, racista e violento, mostra que estamos escrevendo outras histórias. Mas os avanços ainda são seletivos. Hoje ocupo um lugar mainstream, e sei que essa não é a realidade da maioria dos artistas LGBTQIAP+. Não quero ser a exceção ou a única referência. A inclusão só acontece quando passa a criar oportunidades para toda uma geração. 

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Ainda sofre preconceito? Sim, sou seguida por seguranças em lojas e shoppings. Daí os fãs vêm tirar foto e fca todo mundo surpreso. Ter ascendido não me embranqueceu ou me fez uma mulher cisgênero. Esses recortes são cruéis e tentam o tempo todo nos recolocar em um lugar de inferioridade. Mas sou bocuda e aprendi a reagir. Não passo mais por essas situações em silêncio.

Gostaria de deixar de abordar esses assuntos? Desde o início da minha carreira, precisei me posicionar sobre ser trans e preta, antes mesmo de poder falar sobre música. Minha transição foi pública, e isso acabou ocupando o espaço do meu trabalho. Às vezes, queria simplesmente conversar sobre assuntos comuns. Houve um período em que até parei de dar entrevistas — depois que uma jornalista revelou, sem consentimento, um abuso que eu havia sofrido e minha família ficou sabendo pela mídia. Nesse hiato, percebi que é possível não ficar falando disso. Meu desejo é ser vista como uma pessoa, e não só como uma causa.

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Consegue ter uma vida “normal” quando está no Rio? Quando minhas amigas falam que vão a um samba num domingo de folga, nem penso duas vezes e compro uma ponte-aérea. Os cariocas não ligam muito para famosos. Consigo passar o dia no Leme e depois comer uma feijoada no Bar do Mineiro. Quando Djavan foi me ver no Vivo Rio, ele me aconselhou a sair de São Paulo e ir para o Rio, pois minha composição mudaria completamente. Quem sabe um dia…  

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